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Le Parkour
Uma nova arte urbana

Para os praticantes do esporte, o desafio à gravidade apresenta a novidade como diversão e adrenalina no concreto da cidade

 

Texto: ANDRÉA ZÍLIO
Foto: MARCOS VICENTTI

Se você encontrar alguém pulando de um muro de três metros ou saltando por cima de um caixote de lixo, ou qualquer outro obstáculo em Rio Branco, não vá logo deduzindo que se trata de uma atitude de vandalismo, afinal, pode ser uma demonstração da nova mania francesa que tem se espalhado pelos quatro cantos do mundo e no Brasil é um sucesso. É o Le Parkour (abreviado como PK), que significa movimento artístico.

Estimulados pela criação de vários grupos, meninos e até meninas da capital acreana, na faixa etária de 12 a 19 anos, também são responsáveis pela expansão dessa inovação, que tem como objetivo que o praticante se mova de um ponto para o outro do modo mais veloz e eficiente possível, usando as habilidades do corpo para superar os obstáculos, desde pedras, grades, paredes de concreto e até galhos de árvores.

Mas o que parece atitude de jovens irresponsáveis é uma prática considerada divertida pelo psiquiatra Eduardo Bittencourt, um dos fundadores do Le Parkour Brasil, o primeiro grupo do gênero no país. Ele estima que só em São Paulo, sede do primeiro grupo, existam cerca de 2 mil traceurs - nome de quem pratica o Parkour -, a maioria meninos.

Se para praticar é só começar, segundo os praticantes do PK, foi seguindo o conselho que no Acre, Edvan Givago, 16, tornou-se pioneiro, no final do ano passado. Durante uma semana ele praticou sozinho, logo depois os amigos da mesma escola integraram o que hoje é um grupo com cerca de 12 pessoas fixas, e outras que participam esporadicamente. Os encontros dessa turma acontecem quase todos os dias da semana, em frente ao Palácio Rio Branco, a partir das 17h30.

Mas foi este ano, com ajuda da propaganda boca-a-boca, que o esporte tornou-se popular e tem atraído pessoas de vários bairros da cidade, movidas pela curiosidade de conhecer o PK. Três comunidades criadas no site orkut do Le Parkourt-Acre em pouco tempo ganharam vários membros. Para os adeptos, a modalidade “é um esporte em que focalizamos energia em atitudes construtivas”, é “um balé por cima dos prédios e obstáculos”, “estimula reflexos e une arte em movimentos”.

O mascote do grupo em Rio Branco, André Lucas, 14, antes praticante de patins, ouviu falar do Parkour e foi assistir o treino dos praticantes. Hoje treina quase todos os dias, de uma a duas horas. Assim como eles, todos começaram a praticar o PK despretensiosamente e garantem que só agora estão percebendo o quanto estão se tornando populares.

Inovação também de saias – Se o Le Parkour praticado por homens chama atenção, imagine quando os saltos e manobras são feitos por uma mulher? Raissa dos Santos, 16, é a primeira acreana a aderir à novidade praticada há um mês. Ela também ganhou uma parceira, Selma Karen, 16, há poucos dias. Raissa diz que aderiu ao PK porque sempre gostou de aventura, adrenalina, e ele possibilita isso de forma sadia.

Quando estão treinando e as meninas estão presentes, a atenção é voltada para elas. “Temos que enfrentar duas vezes a surpresa das pessoas - primeiro pelo esporte, segundo por sermos mulheres, muitos não entendem o que estamos fazendo”, diz. Para o grupo PK-Acre, praticar o esporte é uma forma de suprir o tempo ocioso com algo saudável e isso permite integração e interação entre os adeptos.

Organização e respeito – O grupo Le Parkour Acre comenta que antes de praticar com liberdade é preciso apresentar o esporte a sociedade, pois várias vezes foram abordados pela polícia por acharem que estavam praticando vandalismo. Eles dizem que até compreendem a falta de informação e tentam mudar isso por meio da organização.

Em contato com o coordenador da Juventude do Estado, André Kamai, surgiu a possibilidade de criar a associação do Lê Parkour-Acre e também identificar os praticantes por meio de camisa e a criação de um slogan.

“Nosso lugar de encontro é sempre um só, para sermos identificados como o grupo PK, e também André Kamai gostou da iniciativa e prometeu nos ajudar a criarmos uma associação e nos organizarmos. Estamos buscando isso, porque só queremos praticar o esporte e filosofia de vida que escolhemos”, diz Givago.

Além de Givago, André, Raissa e Selma, integram o PK-Acre, os jovens Omar Rocha, 17, Tales Barros, 16, Jonas Moreira, 18, Ramon Barros, 19, Karl Marx, 17, Misael de Azevedo, 16, Thiago Augusto, 18, Bruno Elton, 18, Sidney Barbosa, 16, e Alan Cunha, 16.

Como praticar

l Não há competições para o Parkour. A academia é a céu aberto: qualquer lugar na cidade pode virar um percurso. A possibilidade basta para transformar o olhar dos aficionados pelo esporte sobre o cenário urbano. Ainda não há academias que ensinem o esporte, portanto, todo traceur ou é autodidata ou aprendeu com quem já faz há mais tempo. Para quem quer aprender sozinho, vale observar adeptos “in loco” ou procurar vídeos a respeito.

Givago conta que é preciso praticar cerca de três meses para iniciar com as manobras mais radicais. No Acre eles iniciaram copiando manobras de outros lugares e hoje criam suas próprias.

Segurança e responsabilidade

Os equipamentos de segurança para a prática do esporte são dois: bom senso e autoconhecimento. A pessoa precisa ter noção dos próprios limites, segundo os praticantes. O treino na chuva fica mais perigoso. Portanto, só os dias de sol são dias de Parkour.

O esporte se torna uma disciplina que requer muita concentração e dedicação, devido ao fato de que uma pessoa pode sofrer sérios achucados caso execute uma técnica de forma errada. Certos movimentos necessitam de muita concentração e dedicação para serem executados, é preciso treiná-los antes, e quando o praticante adquire confiança no seu corpo e na sua mente, passa a executá-lo, de acordo com os praticantes do PK-Acre.

Le Parkour no mundo

O Parkour nasceu na França, na década de 80. Há divergências sobre quem teria sido seu criador, já que a autoria é disputada por dois amigos: David Belle e Sébastian Foucan. Os dois treinavam juntos até diferentes formas de ver o Parkour os separarem. Belle preferia os movimentos puros, objetivos, enquanto Foucan defendia que se fizesse arte enquanto praticassem o esporte.

Mas a simpatia maior do público dá o título de criador à Belle, e aderi que sua criação foi inspirada em seu pai e avô que eram bombeiros, e os passos iniciais do Parkour foram espelhados na forma que se movimentavam para salvar vidas em incêndios e também de soldados vietnamitas.

David Belle ficou na França e criou o grupo Yamakasi, conquistando novos praticantes pela Europa. Foucan acabou indo para Inglaterra, onde fundou um grupo baseado em suas crenças. O Parkour praticado por eles é chamado de ´free style´.

E no Brasil

No Brasil, o Parkour chegou há um ano e oito meses pela internet. O primeiro grupo criado foi em São Paulo e hoje a marca de todos eles tem sido a busca pela organização e identificação dos próprios grupos.

No país o esporte é considerado completo pelos seus praticantes, pois combina várias capacidades do corpo humano como correr, escalar, equilibrar, saltar, entre outras, pela quantidade e diferença de movimentos que podem ser explorados. E que trabalham os grupos musculares do corpo, a elasticidade, o poder de concentração, precisão, avaliação de distâncias, de capacidades e de riscos.

Em Rio Branco o esporte promete crescer e, quem sabe, expandir-se a todo o Estado com a propaganda boca a boca, e claro, salto a salto, pulo a pulo...

 
 
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Rio Branco-AC, 20 de maio de 2007
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