OPINIÃO
   RETRATOS DO JURUÁ

Nelson Liano Jr.

 

Aquecimento global

Aconteceu em Pucallpa, no Estado de Ucayali, no Peru, durante toda a semana que passou o “Taller Sub Regional sobre Cambio Climático”. Com a participação de representações parlamentares e técnicas das regiões de Pando, na Bolívia, Juruá, Alto Acre e Madre de Dios. A delegação parlamentar acreana foi representada pelos deputados federais Gladson Cameli (PP-AC) e Ilderlei Cordeiro (PPS-AC), além das deputadas estaduais Perpétua de Sá (PT), Idalina Onofre (PPS) e Antonia Sales (PMDB). O evento na Universidade Nacional de Ucayali debateu ações nas referidas regiões para diminuir os impactos ambientais que favorecem o aquecimento global. O principal motivo da degradação ambiental que ocasiona as mudanças de temperaturas em toda região amazônica, segundo os participantes, são as ações humanas relativas ao uso inadequado das florestas. A principal sugestão é que os países amazônicos compartilhem de uma política capaz de viabilizar um modelo de desenvolvimento regional que respeite as culturas locais e o meio-ambiente priorizando os investimentos sócio-ambientais sustentáveis com o objetivo de reduzir a pobreza dessas populações.

Reflexão

A questão do desenvolvimento humano não pode estar alijada das ações econômicas. Isso significa que a pobreza, a ignorância e o isolamento das populações amazônicas acabam se tornando fatores preponderantes na depredação ambiental com conseqüência nas mudanças climáticas. Por muitas vezes, técnicos peruanos se referiram às políticas ambientais do Acre e do Amazonas como exemplos a serem seguidos. O próprio ministro do Meio Ambiente peruano, Manoel Bernarlles, referiu-se às experiências brasileiras como fundamentais para mudanças no país vizinho. Por mais de uma vez citou o encontro de Nairobi, na África, onde esteve com o ex-governador Jorge Viana e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. O fato é que no Peru praticamente não existem os famigerados planos de manejos florestais. A produção madereira é feita ainda com corte raso. Uma cooperação técnica entre os dois países poderá beneficiar toda a Amazônia.

Integração humana

Paralelo ao Worshop, aconteceram muitos encontros e discussões que tratam da integração entre Ucayali e o Acre, através do Vale do Juruá. Todo mundo sabe que a distância entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa é de cerca de 50 minutos em avião monomotor. O reitor da Universidade Nacional de Ucayali,.o engenheiro florestal, David Mendoza, fez uma proposta para iniciar um intercâmbio entre alunos da UFAC, do Campus Floresta, com os da sua universidade. Segundo o reitor peruano, esse processo poderia resultar em pesquisas conjuntas importantes que traria enormes benefícios às populações dos dois países vizinhos. O deputado Ilderlei Cordeiro se colocou como porta-voz para trazer a proposta para a UFAC. O fato é que, se colocado em prática, esse intercâmbio poderia mudar a política de validação de diplomas entre Brasil, Peru e Bolívia. Todo mundo sabe da importância dos médicos e enfermeiros peruanos e bolivianos na saúde pública das localidades mais isoladas da Amazônia ocidental brasileira.

Burocracia

Já o deputado Gladson Cameli, sentiu de perto qual é um dos maiores entraves para a integração com os vizinhos latino-americanos: a burocracia. Para conseguir a liberação de um vôo fretado de Cruzeiro do Sul para Pucallpa o deputado acreano teve que falar pessoalmente com a ministra dos transportes peruano. No final, ficou a promessa da mudança da burocracia para que os aviões do Juruá possam estabelecer vôos com maior freqüência para Ucayali. O comércio regional do Juruá poderá se beneficiar com a medida.

Estrada

Já a questão da construção de uma estrada ligando Cruzeiro do Sul a Pucallpa começa a tomar novos contornos. O recém eleito, presidente regional de Ucayali, Jorge Velasques, declarou que a estrada só será possível depois de um estudo sério e preciso dos impactos ambientais gerados por ela. Ele se diz favorável mas pede responsabilidade para se tratar do tema. Assim, as coisas começam a ficar mais claras. Porque ninguém vai conseguir financiamento para uma obra desse porte sem um estudo sério. Aliás, parece que o novo governo de Ucayali têm maiores compromissos sócio-ambientais do que o governo anterior. A estrada que poderá mudar o quadro econômico do Juruá, propiciando uma saída para o oceano Pacífico, através do Porto de Callao, será tema de um encontro em Cruzeiro do Sul.

Turismo

Uma estrada como essa poderá incentivar o turismo nos dois países. Basta ver o plano de uso do Parque Nacional da Serra do Divisor que prevê a construção de uma estrada. O turismo, na minha opinião, é uma das atividades econômicas com maior capacidade de preservação ambiental. Aliás, é o “ mocinho” de todos os encontros ambientais que acontecem mundo afora. Com Cruzeiro do Sul ligada a Rio Branco pela BR-364 e, posteriormente, a Pucallpa e, conseqüentemente ao Pacífico, teríamos uma rota florestal, andina e oceânica de fazer inveja a qualquer país onde o turismo é desenvolvido.

Até a próxima.

 

 
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Rio Branco-AC, 20 de maio de 2007
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