| ESPECIAL | |
| PAPO DE ÍNDIO | |
| Txai Terri Valle de Aquino & Marcelo Piedrafita Iglesias | |
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Eram os deuses antropólogos? Romerito Aquino * Nos útimos 19 anos, não foram uma, nem duas e nem três, mas várias as vezes que recebi do antropólogo Marcelo Piedrafita Iglesias elogios e incentivos para continuar sendo um jornalista combativo, honesto e preocupado em publicar na imprensa acreana e na nacional, matérias e artigos em favor dos índios, dos seringueiros e dos demais povos da floresta acreana e amazônica, além de combater governos corruptos. Marcelo reconhecia em mim um profissional ético, destemido e com responsabilidade social com o povo, onde estivesse, em que jornal trabalhasse. Assim ele me falava pessoalmente, nas raras vezes em que nos encontramos na vida, quando não por e-mails ou por intermédio de seu companheiro de trabalho, o antropólogo Terri Aquino, meu prezado irmão, com mais de 33 anos dedicados à vida dos povos indígenas do Brasil, em especial do Acre. Mas eis que foi só iniciar o debate da prospecção do petróleo e gás no Acre e eu não reconheço mais o Marcelo. Pude perceber isso ao ler e reler atentamente os três Papos de Índio que ele e seus colegas Mauro Almeida e Edilene Coffaci escreveram nesse espaço criado pelo antropólogo Terri Aquino para dar vazão à sua luta de organizar o movimento indígena acreano, que tinha perdido todas suas terras quando ele retornou ao Acre nos idos de 1974. Tenho bem em mente essa época porque no início da década de 80 eu já fazia matérias para mostrar à sociedade acreana o valor dos primeiros habitantes dessa terra. Me reporto inicialmente ao Papo de índio assinado por Marcelo Iglesias domingo passado, quando pude perceber que o antropólogo, nas entrelinhas e também em algumas de suas muitas linhas, está magoado, revoltado, despejando ressentimentos para tudo que é lado pegando frases soltas de artigos dos defensores da proposta do senador Tião Viana sobre o debate da prospecção, para (apenas) fazer um mosaico repetitivo e monocórdico da importância do seu trabalho e de seus dois colegas para os índios e seringueiros do Acre. O ressentimento e a revolta do antropólogo são perfeitamente visíveis logo no título que ele dá ao seu artigo: “Mudanças que o ‘ouro negro’ traz”. E fecha com o seu último parágrafo, que diz: “Vejamos agora o que dizem os tais documentos. E se eles indicam, também aos leitores, as mudanças que, com certeza, vejo ocorrendo nesses tempos do ‘ouro negro”. Um dos documentos referenciados por Marcelo é justamente uma matéria de minha autoria publicada neste Página 20, em 12/09/2002, falando da importância da Enciclopédia da Floresta, de Mauro Almeida e Manuela Carneiro, quando de seu lançamento no mercado editorial. Ele usa a minha matéria para tentar mostrar, de forma sutil (mas clara ao leitor) que há contradição naqueles que, como eu, apostam na exploração de gás e petróleo no Acre com responsabilidade socioambiental. Como já deixei claro nos muitos artigos que publiquei recentemente sobre o assunto, aposto nessa atividade com totais responsabilidades ambiental e judicial (e obviamente, fora das áreas indígenas e unidades de conservação) para tirar, com políticas socioambientais sérias, da situação de quase absoluta miséria em que ainda se encontra a população do nosso estado, particularmente o seu segmento que vive no interior, entre índios, seringueiros, ribeirinhos e outros povos da floresta. O antropólogo quis dizer que eu, que presto hoje assessoria de imprensa ao senador Tião Viana, autor da idéia, também fui atingido pelas “mudanças que o ouro negro traz”. Aliás, ele confirmou ao seu colega Terri Aquino, ao passar recentemente em Manaus, indo para o interior do Amazonas conversar com alguns estrangeiros sobre a prospecção de gás e petróleo no Acre, que a prospecção do ouro negro me mudou. Ousadia demais! Quero ressaltar aqui que decidi fazer e publicar esse artigo única e exclusivamente, por ter sido citado nominalmente no Papo de Índio de Marcelo Iglesias, o que me levou a pedir esse direito democrático de resposta. Caso contrário, não o faria para não entrar no clima de intrigas, acusações, baixarias, contradições e manipulações de informações alimentadas por alguns acerca dessa nova perspectiva econômica e social que se abre para o nosso Acre. E que parece já ter contaminado alguns antropólogos. Pois bem. Em seu artigo, o antropólogo Marcelo Iglesias destaca, também ressentido, que quem está ao lado da prospecção e exploração de gás e petróleo, particularmente os jornalistas que defendem a prospecção, usam (contra ele e seus ilustres e condecorados colegas) expressões como “achincalhe às pessoas”, “desqualificações pessoais”, “difamações pessoais” e outras aleivosias. Em seus “ataques”, o antropólogo também ousa ministrar aulas sobre debate e dar lições de moral e ética aos jornalistas que prestam assessoria de imprensa ao autor da idéia da prospecção, dizendo: “...Bem vindo ao diálogo, como tenho via de regra defendido, baseado em estudos e argumentos condizentes com a relevância das questões em pauta, e não difamações pessoais, inverdades, tentativas de desfocar o real cerne do debate e práticas jornalísticas por várias vezes eticamente questionáveis. Por isso, me questiono: qual o grau de autonomia da assessoria do senador ao optar sistematicamente por esses procedimentos e com eles instrumentalizar parte da imprensa acreana? Perdeu-se o controle sobre a condução imprimida ao debate pela assessoria ou ela segue uma orientação deliberada?”. (É demais para meus 30 anos de jornalismo, na grande imprensa e na imprensa acreana!) O antropólogo Marcelo Iglesias chega ao ponto de ousar, ainda, condenar a audiência pública convocada pelo deputado estadual Moisés Diniz para a Assembléia Legislativa estadual tratar com a Agência Nacional do Petróleo – ANP (responsável por licitar a prospecção e exploração de gás e petróleo no país) “da liberação dos estudos sobre prospecção de petróleo e gás no Acre” e levar o parlamentar a desistir da idéia depois de receber uma carta sua, sem levá-la ao conhecimento público. (Ah, senhor Marcelo e senhor Moisés, essa carta tem de vir a público porque, conforme revelou o próprio deputado, foi o motivo da desistência de uma decisão sua tornada pública!). Vejam bem o que aconteceu! O antropólogo Marcelo Piedrafita Iglesias foi quem levou um parlamentar comunista (segundo este mesmo revelou publicamente) a desistir de uma audiência pública em que deputados da situação e da oposição, eleitos pelo povo acreano, teriam a oportunidade de indagar questões importantes para a ANP sobre o assunto em discussão na sociedade acreana. Para início de conversa, quero destacar, sem ser monocórdico ou repetitivo, a importância que a Antropologia exerce para mostrar, entre outras coisas, a história, a cultura, as tradições e os direitos imemorais dos povos primitivos, dos quais, aliás, todos nós somos originários neste planeta. No caso específico, os indígenas. Quero também louvar (o que o Marcelo Iglesias lembra no documento enviado pelo governo acreano à Associação Brasileira de Antropologia e publicado no seu artigo) “os subsídios oferecidos por vários antropólogos à discussão de políticas públicas destinadas à mitigação e compensação dos impactos causados em terras indígenas no Acre pela pavimentação das duas BRs (364 e 317)”. Entre os antropólogos, Iglesias inclui Mauro Almeida e Edilene Confassi, além de si próprio, que reconheço ter prestado outros bons serviços antropólogicos ao Acre, como é o caso seu trabalho, junto com Terri Aquino, do etnozoneamento das terras indígenas acreanas no Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) do estado. Aplauso a todos! Esse reconhecimento, no entanto, não dá a antropólogos ou a ninguém o direito de vir debater essa ou outras questões sem honestidade intelectual. Também como preliminar, quero deixar absolutamente claro ao Marcelo Iglesias, a seus colegas antropólogos e à opinião pública acreana, para o qual escrevo desde o início da década de 80, inclusive algumas matérias com o próprio Iglesias, que não estou falando ou debatendo aqui na situação de estar prestando assessoria de imprensa ao senador Tião Viana, a quem debito ser um dos políticos mais sérios e responsáveis de um governo que ajudei a se consolidar nos bons propósitos do desenvolvimento sustentável do Acre e de seu povo, e do qual o senador faz parte desde a primeira hora. Estou falando e debatendo aqui, como faço em todos meus artigos, como um acreano legítimo, que conhece o seu estado e o seu povo e tem profundas e antigas raízes familiares nesta abençoada terra de florestas. Também falo como um profissional de imprensa que há 30 anos vive apenas da força de seu trabalho honrado, sério, honesto, ético e apaixonado pelo que faz, sem dever e temer a ninguém neste mundo de meu Deus. E que não vai ser gás, petróleo ou qualquer outra riqueza material deste Universo que vai me afastar um milímetro sequer desses princípios e valores sagrados e preciosos que minha família me deu. E muito menos das minhas convicções de lutar até o fim da minha vida contra a injustiça e a desigualdade entre os homens. Tudo isso, aliás, sem precisar ser condecorado com espada ou qualquer outro símbolo acreano. Cadê o contraponto? Seguindo. Devo lembrar aos importantes antropólogos que já publiquei na imprensa acreana, nos últimos dois meses, meia dúzia de artigos dispondo, para o debate, apenas de argumentos, informações e dados que sustentam a minha convicção de que o Acre está, sim, no caminho certo em buscar agora, no gás e no petróleo, com total responsabilidade socioambiental, a mudança de sua atual matriz energética, que é constituída do (mais) poluente óleo diesel, que vem ameaçando cada dia mais seus rios, igarapés e florestas. E, com isso, o estado se tornar independente das migalhas de um governo federal de um país que outrora ele ajudou a construir com o sangue de seus índios e de seus seringueiros impregnado nos defumadores de sua História. Pelo que sei, os colegas jornalistas que fazem hoje assessoria de imprensa para o senador também trilharam o mesmo caminho ao abordar a questão da prospecção. Defendo agora essa atividade para que, da riqueza que dela possa surgir, principalmente a partir do gás natural, o Acre possa ter a oportunidade de parar nos próximos anos de desmatar e queimar a sua floresta, cuja destruição, na Amazônia, já gera mais de 70% das emissões dos gases poluentes com os quais o Brasil contribui hoje para o superaquecimento do planeta. Isso pode perfeitamente acontecer se tal riqueza for destinada ao desenvolvimento de conhecimentos científicos e de tecnologias capazes de transformar sustentavelmente as inúmeras matérias-primas existentes na floresta do nosso estado em produtos muito apreciados e valorizados no mundo inteiro, tais como fármacos, resinas, sementes, essências, cosméticos, ecoturismo e outros. E que tais riquezas sejam destinadas prioritariamente para a melhoria das condições de vida dos povos da floresta, como ocorre hoje no Alaska (EUA), onde metade das riquezas geradas pelo gás e petróleo está sendo destinada ao desenvolvimento sustentável de suas populações tradicionais. (É muito difícil e dolorido constatar o paradoxo que aflora quando se vê uma criancinha índia ou um bebê de seringueiro morrer hoje no interior acreano de disenteria ou subnutrição vivendo eles na floresta mais rica do mundo!). Como é possível garantir que isso aconteça? Pelo compromisso político já manifestado publicamente pelo senador, que faz parte de um governo, denominado de “Governo da Floresta”, para o qual todos nós estamos contribuindo e vamos continuar querendo contribuir. Debato, portanto, em cima de argumentos, dados e informações. Em nenhum momento, escrevi achincalhando, desqualificando ou difamando quem quer que seja, mesmo os que são deliberadamente, sem argumentos sólidos, contra essa atividade. Portanto, senhores antropólogos, debatam em cima dos argumentos sociais e ambientais que alinhavei mais detalhadamente nos artigos que escrevi ultimamente. Se dêem, por exemplo, ao trabalho de conhecerem o Amazonas (o maior estado florestal do planeta) e a Província Petrolífera de Urucu, como fiz recentemente. Sei que, para vocês, nunca falta dinheiro para “estudos”. O ressentimento e a revolta do Marcelo Iglesias, que já anunciou sua retirada lamentável e prematura do debate, e de seus dois colegas antropólogos, devem estar ocorrendo porque já parece terem sido impregnados por ações de alguns de seus aliados na imprensa, que combatem com ódio, despeito e manipulações de dados e informações o direito de o Acre e sua população saberem, pelo menos, se há tais riquezas no subsolo de seu território. Tal postura está vindo, nos últimos tempos, acompanhada até de expressões como “projeto insano” e de acusações descabidas e absurdas de promoção de censura ou do simples extermínio desse “Papo de Índio” por parte do senador ou dos jornalistas. Não consigo imaginar a esta altura da vida nenhum jornalista sério deste planeta tramando ou compactuando com censura ou extinção daquilo do qual ele vive e até morre. E não vi, em momento algum, o antropólogo Marcelo Iglesias, co-editor deste Papo de Índio, falar nada sobre essa vil acusação. Será que foi por simples conveniência para não atrapalhar os extensos “papos” intelectualizados? Perguntas que não vão calar Só para continuar o debate, de forma serena, madura, respeitosa e responsável, devolvo para os três antropólogos as questões levantadas pelo engenheiro agrônomo e ecólogo Raimundo Cardoso, contrapondo o primeiro “Papo de Índio” escrito por eles sobre a prospecção. E que não foram, absolutamente, respondidas de maneira convincente por nenhum deles. E acrescento outras perguntas. - É de se perguntar ao “meticuloso e auspicioso guardador de arquivos do grupo, o antropólogo Marcelo Piedrafita Iglesias”, hoje tão cioso em propagar sua participação no debate, se não viu e, se viu, por que se calou sobre os atos publicados no Diário Oficial da União de aprovação, nos Programas Plurianuais (PPAs) da União de 2000-2003 e 2004-2007, das emendas colocadas pelo senador Tião Viana destinando recursos para prospecção de gás e petróleo no Acre e no restante do Brasil? Por que ele não abriu o debate naquele momento? - Os três antropólogos duvidam que o senador Tião Viana fez, faz e continuará fazendo parte do Governo da Floresta, que permitiu a eles participarem da Universidade da Floresta, do etnozoneamento do ZEE e das precauções socioambientais da pavimentação da BR-364 no Vale do Juruá? - O que os senhores propõem para salvar os rios, os igarapés e as matas acreanas das “poluentes” fazendas de gado que vêm se instalando no rio Juruá e da ameaça ambiental do óleo diesel transportado com perigo desde Manaus para que o índio e o seringueiro possam transitar de um lado para o outro da selva? - Após os índios, os seringueiros e outros povos acreanos reconquistarem plenamente suas terras, que modelo de desenvolvimento socioambiental os senhores pregam para eles pararem de sofrer com falta de médicos, remédios, escola, comida e outras demandas essenciais? Ajudas de governos não são soluções definitivas, creio eu! - Por que, na opinião de vocês, o Parque Industrial da Zona Franca de Manaus e a exploração de gás e petróleo de Urucu (de onde sai o gás de cozinha consumido hoje em todo o Acre) têm sido apontados como os principais responsáveis pela contenção do avanço dos desmatamentos e das queimadas naquele que é considerado hoje o maior estado florestal do planeta, com 95% de sua floresta preservada? Isso tudo sem agressões diretas a índios e a outros povos daquele estado. - Onde foram parar os estudos geológicos, morfológicos e de solo realizados dentro do Parque Nacional da Serra do Divisor, sob o comando dos antropólogos Mauro Almeida e Manuela Carneiro, que foram financiados por US$ 300 mil pela Fundação MacArthur, que investem hoje em mais de 100 companhias de petróleo e gás no mundo inteiro? Em hipótese inicial (como vocês gostam de falar para prenunciar os prejuízos socioambientais da prospecção no Acre), isso pode cheirar a biopirataria, que seria um prato cheio para investigações por parte da Polícia Federal, do Ministério Público, da CGU, do TCU e de outras instituições fiscalizadoras nacionais, além da nova CPI da ONGs, que o Congresso Nacional instala em junho próximo. Às respostas e aos debates, senhoras e senhores antropólogos! E parem de querer se transformar nos personagens do livro de Erich von Daniken (“Eram os Deuses Astronautas?”). ------------------------------------------ |
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