OPINIÃO
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Florentina Esteves *

 

Imortais

Imortais, todos desejamos sê-lo. Ou o procurando através da religião, ou das artes. De tal forma, neste último caso, que sejamos lembrados após a morte. Morte que, em se tratando de religião possa levar-nos ao reino da eternidade, onde gozaríamos de nossa imortalidade. Tudo não passaria de uma mudança de plano - terreno ou celeste.

Pois participei, com uma plêiade de patrícios que se reuniram, neste último dia 15, do aniversário do Estado, para ingressar na Academia Acreana de Letras. E em solenidade onde não faltaram a pompa e a magnificência, foram empossados seus novos membros. E para que eu possa transmitir a notícia completa a meus leitores, aí vão os nomes dos novos importais: esta que vos escreve, Florentina Esteves, Carlos Alberto Alves de Souza, Edir Figueiredo Marques de Oliveira, Jorge Tufic, Dalmir Rodrigues Ferreira, Francisco de Mourão Pinheiro Dandão, Álvaro Sobralino de Albuquerque Neto, Luiza Galvão Lessa Karlberg, Francis Mary e Maria José Bezerra.

Coube, a cada empossado, falar sobre o patrono de sua cadeira, e daquele que o antecedeu. E foram relatos muitas vezes emocionantes, falando-se de pessoas que até há pouco estavam entre nós, enriquecendo-nos com sua inteligência e bom gosto literário. Às vezes, também, com sua verve ou sua irreverência, como foi o caso daqueles que sucederam ao jornalista José Chalub Leite, e ao poeta Juvenal Antunes, que conheci pessoalmente como hóspede do Hotel Madrid, de propriedade de meus pais, e onde morávamos.

José Chalub Leite fez nome na imprensa acreana por seu estilo mordaz, sua inteligência e capacidade de análise. Quem quiser entender o acreano e o Acre, não pode deixar de ler, de sua autoria, "Tão Acre". Jocoso, satírico, ninguém melhor que ele para ridicularizar os pretensiosos ou vaidosos. Foi meu aluno, e dele guardei a melhor das impressões.

O poeta Juvenal Antunes foi um dos personagens que constaram do meu livro de estréia "Enredos e Memórias". Melhor que me repetir, aqui, falando sobre ele, transcrevo parte do capítulo que escrevi no livro:

O POETA JUVENAL: "Morava no "Madrid". Para pai era apenas Juvenal. Mãe, fingindo não lhe fazer atenção - para não escutar palavrão - decorava as poesias (que pai não lhas fazia). E tirando da "Frigidaire" a cerveja Gato Preto mais gelada: Virgílio, leve esta pro poeta.

Ali mesmo no salão - meio bar, meio bilhar - implicando com o gamão do Guilhermino e o charuto do Diamantino Macedo, improvisava seus versos, ou recitava os que a ociosidade da promotoria inspirava. À Laura, os apaixonados. Sonetos, canções, madrigais, odes. À Baco, ao pecado, à preguiça exaltava. Não os publicou. E deles restam apenas fragmentos que guardei de memória:

"Bendita sejas tu, preguiça amada,

Que não consentes que eu me ocupe em nada.

Se ontem não fui te ver, Laura,

Foi por preguiça de pular

O muro do quintal..."

Muitos teríamos a escrever sobre outros acadêmicos que conhecemos. Mas não cabe numa simples crônica. Quem sabe, futuramente, não o façamos

Rio Branco, junho, 2004

* Professora e Escritora

 

 
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Rio Branco-AC, 20 de junho de 2004
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