Verões cinzentos
Era outubro no equador, época em que
aqui se vai o verão e surge o inverno.
E a estiagem havia sido ocre, quase sem graça:
verão de velhas flores que espiam, furtivas,
pelas gretas e portas e paredes nuas, cruas,
invisíveis... Nada tinha sido especial.
E fluiu densa a minha poesia por ela.
E veio o inverno e gotas pesadas
de uma torrencial chuva se chocaram
contra o meu peito e o meu rosto.
E as ruas se encheram das águas pluviais
que mais pareciam lágrimas de mil pecadores imperdoáveis.
E por ela entoei minha canção triste.
E o meu mundo pareceu um espectro.
Cabelos que caíam sobre a testa de anjo puro,
olhos úmidos de emoção, ah, a separação!
A praça, o hiato de uma vida mínima.
E tudo ruiu, as árvores caíram, os bancos desmoronaram,
e a luz das estrelas se apagou...
E o inverno se fez pesado, contínuo, castigador.
As águas se avolumaram e tudo ficou acinzentado.
Era a enchente que molestou a todos os seres que,
de tão malditos, não conseguem o amor na essência.
E hoje é verão, ontem foi verão,
mas o céu não está e não esteve azul.
Ontem e hoje o sol brilhou para alguns ditosos,
para os desditosos, não.
São os verões cinzentos que povoaram todas
as vidas
marcadas pela incerteza e pelo medo de serem felizes,
pura e simplesmente...
Rio Branco - Acre, junho de 1988
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