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| Fervor e boa crença |
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O termo “passeata” não serve para nomear o que aconteceu na manhã de sexta-feira em Rio Branco. Também não foi apenas um “ato público” de apoio à candidatura de Binho Marques ao governo do Estado. Pensei na palavra “manifestação”, mas o dicionário a descreve como “movimento popular destinado a exprimir publicamente um sentimento político”. Mesmo com o “sentimento político”, parece pouco. “Marcha” é pior, porque lembra deslocamento de tropa com um objetivo geralmente óbvio e disciplinado. O que se movia tinha cores, barulho, euforia, escolha. Foi mais amplo e profundo, portanto, o acontecimento. O jornalista Altino Machado fez referência em seu blog a uma “manifestação política” de 25 mil pessoas nunca vista em campanha eleitoral na história do Acre. Eu estava lá. De fato, o centro da capital foi ocupado por identidade e consciência revolucionárias. As pessoas se abraçavam, riam, tiravam graça umas com as outras guiadas pelo espírito e falando com o coração. Participavam do evento muitas gerações de acreanos, nascidos aqui ou que vieram para cá de outras partes do Brasil e do estrangeiro. Um fio invisível juntava todos misturando fé e convicção. Um fio ao qual se toca com a alma e se deixa levar por uma história secular da construção humana. Dava para sentir o coletivo feito com retalhos: de isolamento, medo, sofrimento, bravura, intuição, intimidade com a floresta e os rios, solidariedade, criatividade, revolução. Ruas e praças foram ocupadas, também as duas pontes sobre o rio Acre, por gente que erguia bandeiras vermelhas e brancas. Tinha uma amarela e verde, enorme, simbolizando raça forte. Um símbolo construído com coragem, amor e perdas, que expressa um jeito muito especial e original de viver. Enxerguei naquele ambiente mágico - ao mesmo tempo doce e belicoso - muitas pessoas em espírito: muitos em vida, alguns em morte. Vi o imperador Galvez gritando “fraternité!” e “liberté!” num francês espanholado; o poeta Juvenal Antunes empunhando um maço de poemas à sua musa Laura; os líderes seringueiros Wilson Pinheiro e Chico Mendes rindo em silêncio: o primeiro como uma árvore de maçaranduba, comprido e rijo; o segundo, curvando-se para distribuir estrelas cintilantes, que jorravam do seu peito furado a chumbos por um tiro assassino. Estavam lá os jovens de ontem e de hoje, a quem o Chico deixou como legado um Acre livre, conquistado e preservado. Um Acre que rejeita maus exemplos e cuja grande família é feita de pessoas, árvores, animais, rios e lendas. Um Acre que odeia desmatamento e queimadas. É preciso reconhecer que o Estado caminha com segurança crescente para a condição de sociedade sustentável. Existe uma Frente política planejando, executando e cuidando bem disso. Os irmãos Jorge e Tião Viana, a ex-seringueira e agora ministra Marina Silva, o prefeito da capital, Raimundo Angelim, além de um grupo de parlamentares alinhados com esse plano político se inspiram no movimento secular de resistência dos povos da floresta. . Na campanha eleitoral dá para ver com clareza. O discurso da oposição é vazio, defasado, inconsistente, a começar pelo slogan das legendas agrupadas. Cada grupo tem uma história pública que o condena: ou passaram pelo poder com incompetência e irresponsabilidade ou o sugaram com ambição pessoal. E há os que sonham em torcer o pescoço da história para importar modelo comprovadamente ruim da vizinhança. Todos se apegam a velhacos apelos do passado para iludir o eleitor aflito. Fingem ignorar que há uma década, pelo menos, o Acre evolui muito, e vomitam críticas que se voltam contra eles próprios, protagonistas de atitudes criminosas contra o meio ambiente e suas populações tradicionais. O “Acre não se troca”, adverte o slogan do candidato da Frente Popular, Binho Marques (PT), militante desde os tempos do curso de história da Universidade Federal do Acre (Ufac), há doze anos secretário de Educação (municipal e estadual), amigo de Marina Silva, Chico Mendes, Jorge Viana e de outros de sua geração engajados na luta em defesa da floresta e seu povo. É fácil entender a mensagem. O Acre não se troca por que tem uma história bonita a sustentar. É a história de um povo que viveu e vive embrenhado na floresta e se tornou sábio. Um povo que aprendeu com os índios e por si só muitos segredos e agora, com a ajuda da política e da ciência, cuida de seu futuro com o valor do floresta cada vez mais reconhecido. Um movimento popular no governo é o que o Acre vive de cabo a rabo: Lula na Presidência da República, Marina no Ministério do Meio Ambiente, Tião Viana e Sibá Machado no Senado, Jorge Viana e Binho Marques no governo, Raimundo Angelim na prefeitura representam uma nova safra de políticos e técnicos a serviço de um programa que não trai a história, nem a cultura nem a economia tradicional que projetam o Acre no cenário nacional e internacional. Esqueci de falar do coronel Plácido de Castro? Não. Deixei para o final, chamar atenção para a semelhança física que percebi entre o herói da Revolução Acreana de 1903 e seu substituto em 2006 que empunhava na sexta-feira, com fervor e boa crençam a Bandeira Acreana. É verdade: o Acre não se troca. |
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