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| A mulher da bandeira
Quase aos 80 anos, a costureira que confeccionou o símbolo da campanha da Frente Popular ainda vota |
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Leonildo Rosas As mãos da costureira Margarida Maia dos Santos há muito tempo não pegam um tecido para costurar. Seu olhos não conseguem enfiar a linha na agulha e sua coluna não permite que passe horas a fio sentada numa máquina de costura. Assim como ela, as duas máquinas de costura na sua casa estão aposentadas. Aos 79 anos, essa mulher tem importância na histórica política do Acre, ainda que de forma anônima. Foi ela que, em 1990, passou cerca de 15 dias sentada atrás de uma máquina manual Elgin costurando aquele que seria o símbolo das campanhas da Frente Popular do Acre nos últimos 16 anos: uma bandeira gigante do Acre. Margarida não foi escolhida ou contratada para executar a tarefa. Fez porque o pedido partiu de um neto criado como filho: o jornalista Gean Cabral, que estabeleceu uma relação de amizade com militantes petistas desde cedo. A idéia de confeccionar a bandeira grande partiu do professor Binho Marques. Era preciso uma marca que despertasse o sentimento de acreanidade na população porque o representante da União Democrática Ruralista (UDR), Rubem Branquinho, despontava como favorito ao governo do Estado. Ouvindo a conversa, Gean Cabral lembrou que sua avó poderia fazer, porque era costureira profissional. Ela havia começado a costurar aos nove anos e, ao 12, fez o primeiro terno e o primeiro vestido de noiva, no seringal Sacada. Recebeu 12 mil réis pelo trabalho. Foi também costureira e instrutora da extinta Legião Brasileira de Assistência (LBA) durante vários anos, até sair por apresentar problemas de saúde. Foi costurando que a mulher teceu sua história e criou seus 14 filhos e é com o salário de R$ 350 que continua sobrevivendo e criando vários netos. “Me senti muito orgulhosa quando o Gean chegou e perguntou se eu poderia fazer a bandeira. É claro que disse sim”, revela. Tanto orgulho, no entanto, esbarrou nos conceitos que foram passados ao longo dos anos pela mãe, uma petebista e depois medebista, que não aceitava que seus filhos tivessem outra opção partidária. Ela dizia: “Filho que me ama nunca muda de partido!”. A mãe de Margarida morreu em 1977. O PT nasceu em 1980. Ela logo simpatizou com aquele partido novo, de propostas novas. Depois de vários anos, sentada na varanda de sua residência, Margarida relembra quando aquele professor magro, baixinho e com cavanhaque chamado Binho chegou à sua casa. “Lembro quando ele chegou aqui algumas vezes com o Gean. Me pareceu um sujeito muito bom”, comenta. Foi a Binho que ela entregou a bandeira. Nunca mais se viram. Mesmo assim, apesar da distância, ela não deixou de torcer pelo sucesso do “menino” que conheceu cheios de sonhos. “Agora, sei que ele será candidato a governador. Tenho fé em Deus de que ele irá continuar o trabalho de Jorge Viana. Somente quem não tem conhecimento fala que o nosso Estado não melhorou”, declara.
Sem cobrar - Os milhares de mãos que pegaram na bandeira nesses anos nem de longe poderiam imaginar que ela foi confeccionada numa casa humilde, na rua 20 de Novembro, no bairro Boa União. É um imóvel típico da periferia. Não tem pintura, forro e o piso é de vermelhão. A fiação elétrica também é incompleta. As pessoas também não sabem que Margarida não cobrou nada pelo seu trabalho. Pediu apenas que o neto Gean Cabral providenciasse o material necessário juntos aos amigos petistas. “Naquele tempo ninguém cobrava nada do PT. Fazia tudo por simpatia àqueles jovens que queriam mudar o mundo”, comenta. Longe de considerar o trabalho que lhe foi confiado um sacrifício, Margarida se considera uma escolhida por Deus. Acha que foi uma grande consideração dos amigos do neto por terem confiado a ela a missão de fazer algo tão importante. Ela é evangélica da Igreja Adventista do 7º Dia. Este ano, a bandeira novamente foi à rua. Milhares de pessoas, vestidas de vermelho, puseram as mãos no pavilhão verde e amarelo com a estrela vermelha. Não é mais aquela confeccionada por Margarida. Mas ficou o símbolo. Margarida pela legislação eleitoral está isenta de votar. Diz que nem pretende fazer isso, porque Binho não precisa do seu voto para ganhar. Argumento rebatido por uma das suas netas, que mora aos fundos de sua casa: “A senhora vai, sim! Afinal, o seu voto é muito importante”. Laços antigos - Confeccionar a bandeira para a primeira campanha de Jorge Viana também foi encarada por Margarida como o pagamento de uma dívida de gratidão, que ela teria contraído com o pai do então jovem engenheiro florestal, o ex-deputado federal Wildy Viana. Em 1968, Wildy Viana trouxe a ex-seringueira Margarida Maia do Santos de Brasiléia para Rio Branco para tratar-se de úlcera que lhe atormentou longos 21 anos. Os dois estavam longe de imaginar que os seus destinos iriam se cruzar de forma diferente 22 anos depois. Margarida morava nos fundos de uma propriedade de Virgílio Viana, pai de Wildy e avô de Jorge. Era ali que também ordenhava as vacas para tirar o leite necessário ao sustento dos filhos. “Nunca imaginei que um dia nossas vidas iriam se encontrar tanto tempo depois. Mas para Deus nada é impossível”, disse. Apesar de ter conversado com Jorge Viana somente quando ele era prefeito, Margarida diz que tem muita consideração pelo governador por ser filho de uma família de Brasiléia que a ajudou muito. “Conversei com ele apenas quando era prefeito. Mas continuo torcendo pelo seu sucesso.” |
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