| OPINIÃO | ||
| UM OLHAR FILOSÓFICO | ||
Paulo Pinheiro da Silva |
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A guerra e a cultura A misantropia é uma característica muito freqüentemente atribuída aos estados filosóficos e seus portadores. Platão fala, no Teeteto, da solidão, da incompreensão e da desnaturalização do filosófico. Nietzsche se refere, nos seus últimos escritos, a uma explicação “meta física” para a sua solidão: ela seria o resultado de uma concentração tão grande de energia que seca tudo a sua volta, não permitindo a aproximação de ninguém e, principalmente, do amor. Rousseau, nos devaneios, encara com certa amargura a sua sina. Mas do que se está falando? O amor e o desprezo se fundem ao ponto de não se poder separar. Mas é possível abandonar os homens por amor a eles, por temer não mais amá-los caso continue a conviver com eles. O fato de que “eles” trabalham febrilmente contra si mesmo, contra algo precioso em si que se quer destruir por vingança, como acontece, contra algo de que se tem necessidade de jogar fora, como dizem, os faz dolorosamente contraditórios e paradoxais. A um homem a quem incomoda a “desordem” aquele espetáculo de autodestruição é insuportável: o descuido com a própria formação, a malícia e o desrespeito em relação aos que sabem, a exaltação auto-complacente da nova religião grega, por exemplo, a incompreensão em relação a si e a sua volta são todas características de difícil digestão para um Heráclito. A auto-diminuição frente às divindades, a autocomplacência de se dar sempre razão, agridem pela inciência, pela mesquinhez, pois ele (o filósofo) sempre se sente um pouco irmão, um pouco responsável quando enrrubrece frente a uma mentira que visa uma vantagem indevida ou que visa apenas dar uma aparência mais valiosa (melhor ou em mais alto grau) e falsa de si, sem ter esse direito e, principalmente, sem demonstrar em suas ações a menor preocupação em adquirir esse “direito”. Mas para que isso seja objeto de um sábio é necessário que o enfraquecimento do poder senhorial seja tão abismal que ele se coloque o problema de “se eu governasse” ou “nenhum governo de si e do estado nos garante um sentido prévio que nos dê certeza de para onde seguir”. O filósofo nasce, portanto, dessa nova conjuntura, onde a profundidade de análise se volta para uma nova preocupação no conhecer e no comunicar. Vários aspectos que não eram objeto de investigação como os destinos da cidade estão, agora, muito mais próximos da preocupação geral, o cidadão, de uma forma ou de outra, tinha de participar, assentindo ou reprovando, de um convencimento episódico e humano e não mais divino e universal. O sábio, por outro lado e num momento anterior, interrogava as divindades, organizava o calendário e a vida de acordo com um universo divino expresso na matemática, na sua exatidão no calendário e na justiça no campo, mas ele se preocupava mais com a manutenção do arranjo das coisas através de oferendas. Estavam sempre a serviço de um semi-deus despótico que participava e protagonizava uma ordem que ele, o rei divino, compunha de forma inteiramente singular. O desaparecimento do rei divino faz surgir uma serie de objetos e, da mesma forma, uma nova forma de sábio. Ele agora fala nas cidades, às vezes como um quase-deus carregado por admiradores, às vezes como um rapsodo errante que blasfema contra os deuses e contra o homem. Mas o que ele diz? Não mais uma simples rememoração de eventos, míticos ou não, que fundam e dão sentido para aquela ordem de coisas no passado, mas uma explicação e, portanto, uma tentativa de conhecer e de intervir no curso da natureza e dos valores humanos. Mas dito assim se tem a impressão de algo muito corriqueiro: interpretar, compreender, ensinar, explicar, todas, palavras que escutamos desde a infância. Mas esse olhar no fundo das coisas, enxergando coisas que não eram vistas por ninguém ou por quase ninguém, ameaçava colocar as coisas de pernas pro ar (como Anaxágoras, quando diz que o sol é uma pedra incandescente e não um deus, e é forçado a fugir de Atenas para não ser morto) e não tinha uma acolhida sempre unânime e respeitosa, nas cidades gregas. Duas posições frente a esse estado de coisas aparecem: a ironia e a melancolia. A ironia unitária que se opunha aos deuses, aos maus costumes e a melancolia pluralista e dinâmica que se afasta e olha de longe e do alto. O ser de Parmênides tem um pouco do desprezo por um mundo que parecia ser apenas corrupção e baixeza e fornecia um antídoto para a agonia da corrupção de uma matéria . O afastamento de Heráclito, sua obscuridade, arrogância e desprezo são da mesma forma uma espécie de pessimismo frente àquele mundo da corrupção. Mas ambas procuram olhar além e abaixo das coisas numa extensão intelectual das coisas. Parente da crença, mas com um fim mais difuso, contraditório e dinâmico, esse além comporta e comportou muitos significados-coisa e hoje não se pode negar uma consciência muito maior dessa dimensão “psicológica”, “cognitiva”, “sintética” da existência. O problema da representação e do caráter abstrato do mundo está materializado na televisão, nos recortes de jornal, na crescente necessidade de sempre saber como funciona qualquer coisa-linguagem com seus significados difusos, com a sua materialidade abstrata que permite muitos arranjos e aspectos na mesma coisa. Talvez a intuição original dos primeiros filósofos que não diferenciavam muito bem as coisas dos conceitos não fosse, no final das contas, um equivoco ingênuo de iniciantes, mas uma compreensão já suficientemente profunda para perceber (e se agoniar pela) a essência nada perene da matéria e da conformação de que depende o seu modo de vida, os seus valores. Heráclito diz que, pelas leis da sua cidade, se deve lutar com tanta decisão quanto pela muralha da mesma cidade: na cultura e não na guerra se travam as grandes batalhas. A palavra e o pensamento são armas que podem ser utilizados mesmo na misantropia, pois eles nunca são impunes e nunca são insignificantes. |
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