OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Naqueles tempos

Era outro mundo. Vou falar, sabendo que será difícil entender, até imaginar, para quem lá não conseguiu estar. Onde já se viu, não ser possível ver imagens na televisão, viver sem as grandes doses diárias de faz-de-contas, violência e consumismo? Sentiram o drama? Pensem bem. Fantástico mesmo era não imaginar, sequer suspeitar, que um teclado e uma tela de cristal líquido poderiam permitir conversar em tempo real com alguém distante, além do bairro vizinho, além do mais adiante, alguém lá no nordeste, em sampa, no centro-oeste, por onde a bota se perde. Ver a pessoa sem entrar em transe. Quem imaginaria? Hoje, sei bem, não dá para ignorar. Mas, lá atrás, a vontade perdia para o esperar passar, para o deixar estar.

Um querer não se perdia entre conexões. A saudade vinha sem parabólicas nem mensagens digitalizadas, vinha e voltava em marcha lenta, com câmbio manual, naquela vida que fingia ser sem pressa. As praças mais visitadas não eram as de alimentação. Janela não era programa, embora por ela se visse o mundo lá fora, o mundo de perto, alguém conhecido, que por ali encaminharia um aceno, entregaria uma fruta, desejaria bom-dia. Hoje, bem sei, não se pode dispensar a janela irreal, por onde entra o homem bem-informado, o homem de seu tempo, acostumado com a vida veloz e atual, que deseja a mulher virtual, com certificado de garantia e qualidade total.

Ouve-se até falar no risco Brasil, para a economia mundial. É isso que importa. E exporta, impõe e justifica, embora ninguém se arrisque. Por aí vai o tempo. O dinheiro viaja por impulsos e seu caminho tem esquinas traiçoeiras. Para quem lia sobre mensagens em garrafas, não era lúcido imaginar a possibilidade de remeter fotos pelos ares. Violar bolsas e moças, olhares e suores, através de um botão, depois de um aperto de mão, ninguém poderia adivinhar. Quem poderia antecipar a inteligência dos mísseis, se nós mesmos não a entendemos? Isso, crianças, é agora muito normal, sem compromissos nem expectativas, e a luta continua, desigual e sempre.

O que se produz depende do mercado, um forasteiro calado e gelado, acima do bem e do mal, mais valioso que campos e pomares, mais profundo que todos os mares, devorador de florestas e esperanças, esse tal mercado, pode mais que o estado. Não, não era lúcido supor, nem mesmo cogitar, que aplicar seria melhor que produzir. Meninos, até o docinho de mamão está industrializado, nosso açaí está sendo exportado, nosso látex já foi tomado. Logo mais, alguém vai explicar isso, em linguagem bem acessível, forneça seu cadastro e participe da promoção. O tempo é limitado.

Eram outros golpes, aplicados e bem-humorados, o cartão era de visitas. Nem fio de cabelo nem assinatura, vale a senha, quem pode viver sem isso? Estudar, pesquisar, ler, buscar boa formação, conhecimento, a arte, a ciência, tornar-se útil, uma vida de dedicação, pouco mais que um tostão do quanto-pesa a segurança deste pagodeiro, daquele boleiro, de qualquer doleiro.

Num compact disc, toda a informação. Num corretor de texto, tudo que é necessário. A máquina corrige tudo, até as ladeiras e curvas do esquecimento. Quem sabe, quem pode afirmar, era isso mesmo que se podia esperar. Esperar é melhor que voltar e voltar e voltar. Mas é melhor avançar! Lá onde o passado perdeu a tampa existe uma aldeia, uma clareira no meio do mato, uma canoa encosta nos galhos que descem do barranco, o pescador espera a fisgada, acende um cigarro, olha para o tempo, parece que vai chover, olha para as águas, toma uma bebida gelada, amanhã voltará para casa, pensa na mulher cheirosa, real, pensa no barulho da cidade, nada disso existe ali, naquele lugar. Resolve, então, usar um globalstar.

Naqueles tempos não existiam os terminais eletrônicos em que agora posso programar um pedido de solução para meu medo de avião. De lá pra cá, foi inevitável envelhecer, mas, quem sabe, alguém apresentará um método cientificamente comprovado para diminuir essa parte ruim do futuro, do tempo, que não pára de correr. Cresce o desejo de resgatar a juventude em suaves parcelas, sem perder os arquivos e as atualizações periódicas e gratuitas.

Eram sonhos, era tudo muito bom, mas não existia a Internet! Agora, podemos escrever num jornal, algumas mal-traçadas e, com carinho, receber e-mail daqui e dali, alguns aqui de perto, são tantos bons olhos. Um ou outro lá de longe, quem imaginaria tal prazer... Eu mesmo, perdido em tantas novidades, sem deixar os velhos livros, quase ia esquecendo. Lá longe tornou-se mera quimera, uma ficção. Estamos todos aqui, você já reparou?

O melhor tempo para viver é o que a gente nem imagina como chegou, como vem e já vai, sem saber para onde, avançando. Agora, neste instante que vai passando, com dedos e botões, vou transformando essas emoções, se liga, irmão! E elas vão indo, saindo, escoando, repetidamente diferentes, além da mensagem da garrafa, agora se espalham e multiplicam, voam para além desta floresta, por ares e ondas, criam essa nova mensagem, a quem interessar possa, e a quem um favor faça. Aproveite-a, retransmita-a, e depois me diga.

 

 
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Rio Branco-AC, 20 de agosto de 2006
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