OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

Francisco Gregório Filho *

 

Correspondência XII – Interação

Lisboa, 08 de novembro de 2005.

Prezado professor Gregório,

Sou uma brasileira vivendo atualmente em Lisboa e, sempre que posso navego na internet pra saber notícias daí. De preferência, as boas notícias! Descobri sua coluna no jornal Página 20, tomei coragem e agora peço licença para fazer um breve comentário à respeito de um livro de ensaios que recentemente li: Fragatas para terras Distantes, de Marina Colasanti.

Interessante a discussão acerca da existência ou não de uma literatura feminina, do preconceito que se esconde atrás desse questionamento, e de como é tratada a questão das mulheres nas artes. Outro assunto abordado que me chamou atenção foi sobre os contos de fadas e de como saíram dos salões parisienses, com as fábulas de La Fontaine, e foram parar nos quartos das crianças. Segundo palavras da autora “retiram-se os contos até mesmo das salas mais modestas onde hoje quem conta histórias para homens e mulheres reunidas é a televisão... e foram transferidas para as salas de aula, onde as mulheres atuam como professoras, e para os quartos das crianças onde mulheres e seus pequenos, livres por instantes do desprezo social, podem viajar de mãos dadas no infindável reino do maravilhoso.”(p. 241)

Um abraço, Teresa Cristina


Rio Branco, 17 de novembro de 2005.

Prezada Tereza Cristina, amiga leitora,

Feliz fiquei em ler sua missiva e encontrar uma leitora morando em Portugal. Essa é uma grande contribuição da tecnologia contemporânea: interligar as pessoas em rede por meio da internet, despertando para diversos interesses e possibilitando a interação.

Minha cara leitora, também gosto da obra dessa escritora querida que é a Marina Colasanti. Gosto tanto dos escritos em prosa, quanto dos escritos em poemas/versos.

Aproveito a oportunidade para compartilhar com os também amigos leitores desse jornal um pouco das poesias que destaco como uma das mais expressivas publicadas em língua portuguesa. Os poemas são os publicados no livro “Rota de Colisão”, da Editora Rocco.

Eu Sou uma Mulher

Eu sou uma mulher/que sempre achou bonito/menstruar./Os homens vertem sangue/por doença/sangria/ou por punhal cravado,/rubra urgência/a estancar/trancar/no escuro emaranhado/das artérias./Em nós/o sangue aflora/como fonte/no côncavo do corpo/olho-d’água escarlate/encharcado cetim/que escorre/em fio./Nosso sangue se dá de mão beijada/se entrega ao tempo/como chuva ou vento./O sangue masculino/tinge as armas e/o mar/empapa o chão/dos campos de batalha/respinga nas bandeiras mancha a história./O nosso vai colhido/em brancos panos/escorre sobre as coxas benze o leito/manso sangrar sem grito/que anuncia/a ciranda da fêmea./Eu sou uma mulher/que sempre achou bonito/menstruar./Pois há um sangue/que corre para a Morte./E o nosso/que se entrega para a Lua

Deus não é melhor que uma árvore

Deus não é melhor que uma árvore. /Deus é uma árvore. /E as folhas de Deus/Farfalham na noite./ Deus é uma árvore/sem genealogia/só frutos./E os insetos/que habitam os frutos/e as sementes/que os insetos poupam/e as raízes/que inventam sua própria terra./Deus é uma árvore/e o tronco de Deus/só se deixa abater pelo raio./Que a mão de Deus lança.


interação
[De inter- + ação.]
Substantivo feminino

1.Ação que se exerce mutuamente entre duas ou mais coisas, ou duas ou mais pessoas; ação recíproca:

“Nesse fenômeno de interação de linguagem popular e linguagem poética o fato que nos parece mais curioso é o do aproveitamento, no curso da vida de cada um, .... de expressões usadas por poetas” (Valdemar Cavalcanti, Jornal Literário, p. 199); “É evidente que a obra de arte resulta da interação de fatores subjetivos e objetivos, veiculados através do meio social.” (Euríalo Canabrava, Estética da Crítica, p. 29).

2.Fís. Ação mútua entre duas partículas ou dois corpos.

3.Fís. Força que duas partículas exercem uma sobre a outra, quando estão suficientemente próximas. [Cf. inteiração.]

 

 
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Rio Branco-AC, 20 de novembro de 2005
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
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