ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins


Carta de dona Zeferina está publicada no livro de
Genesco de Castro, “O Estado Independente do Acre”

Coração magoado

Em 1929, o então senador marechal J. Pires Ferreira apresentou um projeto de lei que dava honras de general ao conquistador do Acre, José Plácido de Castro. A honraria, entretanto, não comoveu o coração de dona Zeferina de Oliveira Castro, mãe do herói assassinado de emboscada em 1908, no seringal Capatará, nas proximidades de Rio Branco.

O crime, supostamente planejado por adversários políticos de Plácido que haviam se aboletado no poder do Acre, nunca foi apurado, e os assassinos comemoraram o feito com a impunidade histórica que perdurou até o fim de suas vidas.

Aos 92 anos, com uma perna fraturada que a impedia de sair de casa, dona Zeferina encaminhou a seguinte carta ao senador e marechal:

Chegando ao meu conhecimento que transita pelo Senado Federal um projeto de lei de autoria de Vossa Excelência dando honras de General ao meu pranteado filho, J. Plácido de Castro, e de Coronel a dois dos principais cúmplices no seu assassinato - Gentil Tristão Norberto e Antônio Antunes de Alencar -, venho pedir-lhe o grande favor de retirar o nome do meu filho do mesmo projeto.

Em vida, ele nada pediu à sua pátria e nada recebeu além da perseguição, da injúria, da calúnia e da morte por mão das principais autoridades federais; é justo que depois de morto, quando de nada precisa, também nada receba. Os governos já tripudiaram muito sobre o seu nome e sobre a sua memória...

Que ele repouse na paz da conspiração de silêncio em que envolveram o seu nome, desde o momento em que não necessitaram mais dos seus serviços, - desde a assinatura do Tratado de Petrópolis.

O bárbaro crime que vitimou meu filho prescreveu sem que o mais ligeiro inquérito fosse aberto a respeito; sem que ao menos os nomes dos miseráveis assassinos fossem apontados pela Justiça à execração pública!

É preciso que a Pátria seja coerente: com honrarias póstumas ela não ressuscita a vítima nem lava as máculas do passado. Continue ela a proteger, amparar e distinguir os assassinos, procurando apagar os vestígios da covarde tragédia de 9 de agosto de 1908 e a transformar os criminosos em heróis. Isso é justo: mas que aos 92 anos eu veja o nome do meu filho servir de escada para a ascensão dos seus matadores, isso é demais...

A posteridade julgará meu filho, e é bastante.

Creio que V. Exa. ignore que gentil Norberto e Antunes de Alencar sejam dois dos implicados no assassinato de Plácido, mas o meu fim é apenas arredar o nome de meu filho de tão más companhias e grata ficarei a V. Exa. se me atender.

Convém dizer que não estou caducando: ainda sou mais sadia de espírito do que de corpo e só não vou pessoalmente falar-lhe porque há oito meses guardo leito com uma perna fraturada.

Desde 2004 o nome de Plácido de Castro (1873/1908) compõe o Livro dos Heróis da Pátria - no Panteão - ao lado de outros oito brasileiros tidos como heróis nacionais. E na próxima quarta-feira, 24, o governo federal vai prestar uma homenagem ao militar responsável pela vitória das tropas brasileiras na disputa que culminou com a devolução do Acre ao território brasileiro, por parte da Bolívia.


Plácido de Castro será homenageado nesta quarta-feira, em Brasília


MINHAS FÉRIAS

Leila Jalul

Se eu fosse autoridade na área educacional, em definitivo, baixaria um decreto proibindo que, no primeiro dia de aula, apenas para matar a má vontade de alguns professores, fosse pedida a eterna redação “Minhas férias”. Proibiria outras coisinhas banais que se repetem ano após ano, deixando crianças com o emocional no chão.

Porém, como não sou autoridade nem nunca serei, apenas sugiro. Ocorre com freqüência ver crianças órfãs tendo que desenhar corações e cartões para pais e mães que não existem mais. Não por insensibilidade dos professores, mas e muito pela orientação da própria escola.

Turmas grandes, salários baixos e outras dificuldades não deixam às vezes nem que o próprio professor se aperceba desses “pequenos” detalhes. Volta às aulas: tema livre para as redações. Dia dos pais e das mães: atividades que envolvam quem os tenha, ou não.

Sempre deixo claro o respeito às exceções.

Foi na terceira ou quarta série do antigo primário, que me vi numa saia justa. O dia anterior tinha sido uma desgraceira só, pior do que nos outros dias. E lá estava eu com o cabeçalho prontinho. Caderno de papel almaço pautado, letra bonita, treinada no livro de caligrafia.

O tempo passando e não saía uma linha. Roia a cabeça do lápis, quebrava a ponta de tanta força, de tanto ódio, apontava, testava. Roia de novo o lápis de pau-brasil, mastigava um pouco de grafite, cuspia a seco. E nada. Enquanto isso, as meninas iam de vento em popa. Umas contavam da Fazenda Araripe, outras de pescarias, outras de passeio de batelão, festas de aniversário, Natal... E eu, nada!

Até que resolvi não ficar para trás e mandei ver.

“Minhas férias foram iguais às outras. Nada de novo. Mamãe trabalhando que nem doida na loja de vovô. Irritada, quase todos os dias me dava uma surra porque eu não tinha feito o que ela mandava. Esqueci de cortar os gravetos para acender o fogareiro e, quando fui buscar, tinha chovido e os paus estavam todos molhados. Também esqueci de tirar a roupa do varal e pegou chuva, dois dias seguidos. A roupa ficou fedida, com cheiro de manipueira azeda. Apanhei de novo, desta vez com um pedaço de taquara que levantava o varal, pois, além de molhar, ainda arrastou no chão e melou de barro.

“Ontem, foi horrível, papai chegou de porre, com o terno de linho todo manchado de batom das quengas da 6 de Agosto. Mamãe quase deu nele.

“Vagabundo, a estas horas? Ele, nem ligava, e só dizia: “calma, mulher, calma”. Deitou com os pés sujos de lama na colcha bordada e dormiu. Foi assim quase todos os dias de minhas férias. Mas, ontem, ontem foi pior. Teve uma briga na esquina lá de casa. Briga feia! A Chica Tolete, possuída pelo bicho preto (não falo o nome dele), subiu num caminhão e foi preciso chamar a polícia. Ela bateu nuns dez soldados até passar o encosto e foi presa.

“Foi assim, e hoje estou muito feliz, por ser o primeiro dia de aula”.

Reli, para ver se faltava alguma coisa e, para falar a verdade, fiquei com vergonha, amassei o papel e escrevi outra.

“Minhas férias foram ma-ra-vi-lho-sas! Passeei muito, pesquei, andei de barco no açude do pai da Laélia, seu Joaquim Francisco, lá na Estação Experimental. Tomei muito banho com os meninos e vovó ainda deixou eu usar uma bombacha da minha irmã.

“Num domingo, papai, homem direito, que não fuma, não bebe, não joga e nem é namorador, me pegou pela mão e me levou para a praça do Quartel. Conversamos muito. Depois me prometeu uma boneca no Natal.

“Não ganhei a boneca, mas tá bom. Sei que ele é um homem de palavra e, quem sabe, um dia dá. Não é mesmo?”.

Minha mentira de nada adiantava. Minha professora Iranira sabia, e como sabia, que a verdadeira estava no chão.

Ganhei um “ÓTIMO!” de menção. E uma piscadela de aprovação.

 
 
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Rio Branco-AC, 21 de janeiro de 2007