| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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A hora e a vez do Presidente Galvez Os capítulos da minissérie “Amazônia” exibidos esta semana, em especial o capitulo de quinta-feira, devem ter enchido os corações acreanos de orgulho. Esteve na tela de milhões de residências de todo o Brasil a original proclamação da Republica do Acre, uma experiência inédita e que questionava profundamente as bases da oligárquica republica brasileira. Era o país finalmente tomando conhecimento que não era só Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Um enorme e abandonado Brasil interior clamava por respeito e consideração de um governo que só se preocupava com a cotação do café no mercado internacional. O Acre revelava então um novo e necessário destino para a republica brasileira: ou mudava o governo ou mudaria o país. A Republica do Acre e Galvez (II) Agosto As atividades desenvolvidas por Galvez à frente do governo da Republica do Acre guiavam-se pelo acordo tácito que havia sido estabelecido pela proclamação que criou o novo país. O objetivo verdadeiro e declarado era libertar a região do domínio boliviano e logo a seguir se anexar ao Brasil como mais um dos estados da federação brasileira. Era o ideal republicano e patriótico que estava sendo ofertado àqueles homens que se viram repentinamente sem direito à cidadania brasileira. Essa era a cola que unia a maioria dos habitantes do Acre. O dia 12 de agosto foi considerado feriado nacional já que nesta data o Presidente Galvez deu por terminado o período revolucionário e outorgou a Constituição Política do Estado Independente do Acre. A Carta Magna da Republica do Acre marcava, ainda, eleições para o dia 15 de janeiro de 1900, devendo o Congresso eleito reunir-se a 10 de março, para julgar a Constituição e eleger o presidente e o vice-presidente. A popularidade do Presidente crescia a olhos vistos, tanto assim que em 14 de agosto lhe foi enviado um manifesto, assinado por várias pessoas no Seringal Catuaba, de adesão ao Estado Independente do Acre. Porém nem tudo estava sob controle. Ainda em agosto ocorreram também os primeiros indícios de perturbação da paz na República do Acre. O primeiro tropeço administrativo surgiu com a negativa do inspetor da alfândega de Manaus de permitir que a Recebedoria de Rendas Estaduais entregasse as importâncias originárias dos impostos sobre a borracha, na forma estabelecida pelo decreto número cinco, do Presidente do Acre.
Setembro Com a situação político-administrativa razoavelmente organizada, Galvez dirigiu correspondências a diversos países requerendo o reconhecimento do novo país. E foi justamente os Estados Unidos, sobre o qual pesavam acusações de tramar acordos secretos com a Bolívia em relação ao controle do Acre, o primeiro a responder negativamente a essas demarches diplomáticas. Esse revés foi logo seguido de outro de gravidade mais imediata para a manutenção da ordem na Republica do Acre. De Xapuri vinham notícias da organização de uma oposição ao governo de Galvez sob o nome de “Comissão Garantidora dos Direitos Brasileiros”. Ao mesmo tempo, circulavam boatos de ações ameaçadoras por parte de dois proprietários do baixo-acre, de Neutel Maia de Empreza e do Capitão Leite, proprietário do seringal Humaitá. Ao mesmo tempo, aumentava a pressão do governo federal brasileiro sobre o governo do Amazonas para que fossem tomadas providencias que pusessem fim aos “Sucessos do Acre”. Ninguém desconhecia o apoio que era fornecido pelo Governador Ramalho Junior aos Revolucionários do Acre. Assim como todos sabiam do interesse do Amazonas que a região do Acre fosse considerada litigiosa pelo governo brasileiro, dessa forma a questão do domínio boliviano sobre aquelas terras passaria a ser contestável. Outubro O público brasileiro continuava vivamente interessado em tudo o que se referia ao Acre. As opiniões se dividiam e os jornais expressavam os mais díspares pontos de vista. Alguns destratavam violentamente Galvez classificando seu governo como “a ressurreição da opereta Ofenbach” e acentuando o exotismo e teatralidade farsesca de tudo quanto se passava ali. Enquanto isso, o jornalista correspondente no Acre continuava a mandar notícias entusiasmadas acerca da Republica da borracha. “Em 22 de outubro já estavam terminados e funcionando os seguintes edifícios: Casa do Governo; Câmara Municipal; Alfândega; Capitania do Porto; Trapiche 14 de Julho; Polícia; Cadeia; Escola Publica; Saúde Publica; Correio; Depósito Público; Obras Públicas; Casa de Misericórdia; Igreja de Nossa Senhora do Acre; Registro Civil e Fórum. Tudo isto foi construído nas ruas abertas e que tomaram os nomes de: Avenida Brazil; Rua do Ceará; Rua Damasceno Girão; Rua Amazonas; Largo 14 de Julho e Largo da Republica. Alem disto construiu-se um: Hotel; Armazém; Padaria e Deposito de Estivas... Todas as barracas são monumentais, construídas com madeira de lei e muito estéticas e bonitas; as ruas e largos foram escavados e simetricamente dispostos em uma área de 1.200 metros. A saúde publica constitui a maior gloria para Galvez; admira contemplar o aceio da cidade, que é a base de conservar uma saúde desconhecida neste rio. O Território do rio Acre, até ao Eco dos Andes, no Xapuri, foi dividido em 9 distritos militares, onde se acham mobilizados 11 batalhões da guarda patriótica, o que perfaz 4.400 homens em armas .... A instrução publica conta com: 12 escolas mistas de ensino primário... O Território até agora ocupado pelos revolucionários, e que compreende 11.600 habitantes registrados, foi organizado em 2 municípios, - o do Acre, Capital esta cidade, e do Xapuri, Capital Soledade.... Até agora não existem mais que 2 Seringais que não aderiram á revolução e não reconheceram o governo.... Logo que se ancora produz admiração a enorme e monumental escada do porto, á qual poderão atracar os vapores de maior calado; este melhoramento não é conhecido em todo o rio Amazonas e os seus afluentes. Á esquerda da escada acha-se a guarita do vigia, elegante e vistosa, rodeada de artística grade; o monumental edifício onde se acham as repartições – capitania do porto, policia e alfândega, ocupa uma superfície de 20 metros quadrados; a valentia desta construção e a engenhosa divisão das repartições são muito celebradas. Entrando no Largo 14 de Julho, encontram-se a escola publica, bonito salão, higiênico e espaçoso – 9 X 7 metros; nas paredes acham-se penduradas as pedras do abc, algarismos, cartas e mapas geográficos; uma preciosa copia da Maddona representa a Nossa S. do Acre, venerada por este povo; esta pintura, aqui realizada, é obra do eminente pintor Antônio Rabasa. Bancos, escrivaninhas, etc, completam o mobiliário desta instrutiva dependência. A Câmara Municipal, edificação das mesmas dimensões que a escola, contem balcão com repartições para o contador, tesoureiro e secretario; salão de sessões e dependências para o juiz municipal, promotor publico e escrivão do júri. Hotel Independência, cuja descrição já fiz em uma das minhas cartas anteriores. Além destas construções existem no Largo 14 de Julho 3 bonitos Chalés, ocupados pelos empregados públicos e comércio. Na Avenida Brazil admira-se a farmácia René; a Inspetoria de Higiene, o Deposito Publico, Registro Civil, Correio e diversas casas de vizinhos, que rivalizam em bom gosto e terminada construção. Na Rua João Damasceno Girão, ilustre cearense, que muito contribuiu a explorar estas regiões, acham-se a Cadeia Publica, Santa Casa e o Fórum. Na Rua do Ceará foram construídos 7 Chalés para moradia, estando muito adiantadas as obras da igreja. Deixei para o final a descrição da casa do governo. Este edifício ocupa uma superfície de 13 metros de frente por 20 metros de fundo, sendo a altura de 9,50 metros. Á entrada do ingresso há monumental escada de 6 degraus, artísticas, simples e elegante. Salão de honra: as paredes são pintadas a óleo pelos pintores cidadãos Rabasa e Robles; na frente figura alegórico emblema da Republica, fechado pelas bandeiras do Brasil e do Acre; no centro, sobre pedra de mármore, lê-se o nosso lema “PATRIA E LIBERDADE”; todo o salão é rodeado de artístico e bem combinado desenho, cuja composição é admirável pela elegância das linhas e distribuição das cores. Escritório da presidência e a secretaria do governo são de construção sólida e adornos sérios, destacando-se uma oleografia do venerando Dr. Campos Sales, encerrada em artística e rica cercadura, construída aqui, de madeira nacional “andiroba”. Os 4 Departamentos, Justiça, Interior, Fazenda e Obras Publicas, acham-se instalados em repartições contíguas ao escritório do presidente. Muitas outras obras foram feitas no curto espaço de 4 meses, tempo que parece impossível para realizar tanto melhoramento, isto prova uma vez mais a incansável atividade e a boa administração do cidadão Galvez, que, se outra gloria não lhe coubesse, não poderão negar-lhe este esforço hercúleo, vivo reflexo das suas invejáveis disposições; tudo foi feito debaixo da sua iniciativa e exclusiva direção. Os operários, que contribuíram para esta surpreendente transformação, são em sua maioria cearenses, que respeitam o Chefe do Governo, que os dominou pela delicadeza e diplomacia, nele proverbiais. O rio Acre, tido até agora como mortífero, conseguiu ter uma cidade sadia, onde se desfruta excelente saúde. Desde o dia 14 de julho até á presente data não se registram mais que 4 defunções, sendo 2 ocasionadas pela malária e 2 por enfermidades já importadas pelas vítimas.” * Texto publicado na Revista “Galvez e a Republica do Acre” pela Fundação Elias Mansour em 1999. Na revista o título deste texto foi editado como “Galvez mês a mês - Diário de uma republica”. Breves notas do tempo - Como será que o pessoal do sul, acostumado com a pasteurizada televisão brasileira que só mostra o eixo Rio-São Paulo, está entendo o significado de termos como “abestado”, “arengueiro” e ”filho de Jacamin” ? - Há que se reconhecer que ficou espetacular o Palácio de Galvez reconstituído na cidade cenográfica de Porto Acre, bem de acordo como as fantasiosas descrições da época (como a que vimos no artigo acima), mas que provavelmente (não herdamos fotografias ou imagens dele) não tinha essa grandiosidade toda na real. - Por problema de falta de espaço na semana que vem, além de concluirmos a história da Republica de Galvez, iremos retomar a outra série iniciada semana passada sobre a história da arqueologia acreana. - Salve São Sebastião! Okê Oxosse! Salve o padroeiro deste dia 20 de janeiro, protetor das matas, que reina sobre o Alto Acre como Nossa Senhora da Conceição, a Rainha da Floresta, reina sobre Rio Branco! |
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