| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
José Augusto Fontes |
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Delmiro Xavier “Colabore com o desenvolvimento da nação, pagando em dia os seus impostos. No imposto de cada um, o bem-estar de todos... O Juventus está postado à esquerda das cabines de rádio. Seguindo a ordem natural das coisas, o Rio Branco está à nossa direita, defendendo a meta que dá para os portões do José de Melo...”. Era o Delmiro Xavier, décadas atrás, quando eu ainda era garoto, narrando futebol no velho Stadium. Eu o ouvia e lembro bem da “ordem natural das coisas” com que ele procurava colocar o ouvinte ciente do jogo de futebol e emocionado com lances nem sempre empolgantes, que assim ficavam na narração dele. Ele conseguia emocionar até quem estava dentro do Stadium, com um radinho colado na orelha. O espectador estava vendo o jogo, mas sabia que os lances vistos ficavam melhor definidos se narrados pelo Delmiro. Depois que o conheci de perto, verifiquei como ele gostava de futebol, como conhecia esse esporte e como se emocionava, principalmente, quando o assunto era a Seleção Brasileira ou o Santos, time preferido dele. É claro que ele entendia e gostava de outros esportes. O vôlei feminino, por exemplo, ele apreciava muito. Há pouco tempo, lembro que ele elogiou muito a Jaqueline, atual vice-campeã mundial, portadora de belos dotes esportivos. E outro esporte (ou hobby) muito apreciado pelo Delmiro, era o dominó. Aí ele era mestre, lampião e craque sem igual. Eu mesmo vi várias jogadas de efeito, vi lances e episódios inesquecíveis dele no dominó. “Na minha rede, não! Eu fico igual a uma caninana, esperando para dar o bote. Gosto de ver macho é aberto pelas costas, como galinha, e fumaçando igual ferro antigo de passar roupa! Fumaça, bota pra lascar, meu filho!”. Eram algumas expressões do variado e personalíssimo vocabulário do Xavier, quando reinava na mesa de dominó. Nesse esporte, não tinha pra ninguém, diante da maestria do nosso craque. Nesse hobby, nosso Lampião comandava absoluto. Quando ele tirava jogo, o adversário, qualquer um, ficava apreensivo e na expectativa de poder, ao menos, demorar mais na mesa. Nos o apelidamos de Chico, mas o apelido foi dado por ele mesmo, quando se referia a algum frango da primeira pena, a algum menino (jogador sem habilidade no dominó, que apenas alisa as pedras). Esses ou algum amigo próximo, para distrair e divertir, ele chamava de Chico Langanho, de Amolega, de Engole ou de Baba Ovo. E assim, nós passamos a chamá-lo de Chico. E o Chico, quando bradava com jogo na mão, não tinha cangaceiro valente nem bom jogador que não sentisse o cheiro da derrota. Do naipe dele, nunca vi nenhum jogador de dominó. Ele era PHD, assim, maiúsculo. E além dessas qualidades, de excelente narrador de futebol, de grande amante e conhecedor dos esportes, de genial jogador de dominó, o Chico foi advogado, importante funcionário da Assembléia Legislativa do Acre, casa da qual foi diretor-geral, e foi grande pai e esposo. Dona Ana (ele a chamava assim), a esposa, o filho Luís e a filha Ana Cristina formam o círculo familiar mais próximo, além de várias irmãs e irmãos e de incontáveis amigos. No dominó, além de amigos, nos éramos alunos, orgulhosos alunos de um mestre catedrático, que fazia o dominó parecer simples. Em 11 de janeiro recente, aos 63 anos, seguindo a ordem natural das coisas, o Delmiro foi para o além, para adiante da nossa visão e do nosso abraço. Essa tal ordem é uma coisa muito sem graça. Sabemos dela, já lamentamos sua chegada em outras vezes, com tantos amigos, com familiares, com pessoas de quem gostamos, mas não nos acostumamos, não gostamos dela. O natural das coisas seria a gente sempre manter os amigos por perto, sempre poder esticar a mão e apertar a deles. No caso do Delmiro, também poder vê-lo dando aulas de dominó, com simplicidade e categoria. Ir pescar com ele, jogar umas partidas lá na Rai ou no Papagaio. Poder chamá-lo de Chico, simplesmente. E ele respondia: “como vai, mestre?”. Agora, porém, só vai dar para lembrar e comentar com os outros amigos, com saudade e alegre lembrança. Porém, “para não perder de tudo” (outra expressão muito usada em nosso dominó), deixamos aqui este pequeno registro de um grande personagem da vida acreana, de um grande amigo, de um homem vitorioso. Pela ordem natural das coisas, um amigo assim ficará sempre na nossa lembrança. |
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