OPINIÃO
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Marcos Vicentti *

 

 

Fotografia é oportunidade

Depois de idas e vindas, encontrei-me como profissional da fotografia no jornal Página 20 por conta do convite de um primo, Júlio Dourado, diretor de pessoal da empresa que nascia em março de 1995. Fazia dois ou três anos que não nos encontrávamos. Ele me convidou para ser entregador de jornal. Aceitei, o dinheiro era razoável. Ele prometeu um salário e meio. Topei na hora.

Mas não era moleza. Tinha que acordar todos os dias às três da matina. A gráfica ficava na Cadeia Velha. Pegava os jornais, colocava na bicicleta e saía para a entrega, que começava no próprio bairro. Depois ia para o Segundo Distrito, Centro, Cohab do Bosque... Mas não terminava ali. O trajeto seguinte incluía a Vila Ivonete, conjuntos Manoel Julião e Tucumã e chegava ao Universitário, cerca de dez quilômetros da sede. Lá, a única assinante era uma professora cujo nome não me lembro agora. Todos os dias, menos segunda-feira.

Minhas primeiras fotos publicadas no jornal eram de acidentes. Eu sempre andava com uma máquina fotográfica compacta 35 milímetros, daquelas que a gente coloca filme. Estou dizendo isso porque a moçada agora só conhece digital. E quem pagava a revelação? Eu! Chegava para o Leonildo Rosas, uma espécie de faz-tudo dentro da redação, e perguntava: “Dá pra aproveitar essa aqui?”. Ele sempre lembrava que o jornal não tinha seção de polícia. Até que um dia tive a sorte de ver uma foto minha publicada logo na capa.

Veio a eleição para prefeito em 1996. Marcos Afonso, candidato do PT, apoiado pelo jornal, perdeu para o peemedebista Mauri Sergio. Esse terrível “fato histórico” terminaria me beneficiando, pois acabei tendo uma ascensão profissional na empresa (a crise financeira que o jornal passou a enfrentar obrigou a algumas mudanças inusitadas: de entregador, motorista, cobrador e office boy, virei fotógrafo na marra, mesmo sem ter uma maquina fotográfica. O Severiano, que era um dos diretores, conseguiu uma. Eu nem sabia manusear a câmera. Ainda assim, com minha timidez, fui conseguindo tirar algumas dúvidas com o velho amigo José Díaz, um dos maiores responsáveis pelo pouco que aprendi na arte da fotografia.

Fui cobrir minha primeira pauta. Era um incêndio no arquivo da extinta Companhia de Laticínios do Acre, a Cila. Cheguei ao pátio naquela manhã. Toda a imprensa de Rio Branco já estava lá. Meio sem jeito, saí do carro com a máquina em punho. Todos pareciam me olhar e dizer: “Quem é esse cara?”. Mas não titubeei. Subi em uma mangueira e comecei a fazer as fotos. Depois de revelar, passei para o editor. Estava muito inseguro - era normal, não tinha experiência.

No dia seguinte cheguei mais cedo ao jornal para ver todas as capas dos jornais concorrentes. Quase não acreditei: minha fotografia tinha um pequeno detalhe que as outras não revelavam.

Passei a confiar mais. Comecei a ler sobre fotografia, tirar dúvidas e trocar idéias com outros profissionais da área, como os experientes Sérgio Valle e Edison Caetano, para citar apenas dois. Como qualquer outro “debutante”, confesso que perdi alguns filmes na hora de revelar.

Continuei a fotografar e em 1999 tive a oportunidade de sair de Rio Branco. Era a minha primeira viagem de avião. Fui participar do Primeiro Encontro de Jornalistas de Imagem em Natal (RN). Na capital potiguar, conheci vários profissionais e tomei meu primeiro mergulho no mar. Tive a sorte de fazer um olhar diferente sobre Natal para realizar uma exposição em Salvador (BA) na edição seguinte do evento.

Nesses dez anos de fotografia profissional, que completo hoje, conquistei vários prêmios. Por duas vezes fui vencedor do José Chalub Leite na categoria fotografia. Na categoria jornalismo impresso ganhei mais quatro vezes. Fui finalista do Premio CNT e recebi menção honrosa no mais concorrido prêmio do jornalismo brasilerio, o Esso Jornalismo Nacional.

Realizei várias exposições do meu trabalho. Minhas fotos percorreram o país. Publiquei o livro chamado “Acre Retrato Amazônico”.

Atualmente sou repórter fotográfico da Agência Folhapress. Para essa agência presto serviço como free lance. Mas, de tudo isso, o mais importante foi ter voltado para o banco da escola vinte anos depois de ter abandonado os estudos quando ainda cursava o antigo primário. Voltei em busca de novos horizontes para minha profissão e para aliar o conhecimento à prática. Atualmente curso o ensino superior e estou concluindo uma habilitação em jornalismo.

Hoje, me pego tentado fazer uma relato sobre minha vida em pequenas linhas num artigo para o jornal Página 20, ao qual agradeço muito pela oportunidade de vida e recuperação social nesses dez anos na função de repórter fotográfico. O jornal teve um papel importante na minha vida - quando fui contratado, sequer tinha o ensino fundamental; hoje me vejo sentado no banco de uma faculdade... É isso mesmo! Tudo veio por obra e graça da fotografia e da valorização pessoal.

Meus agradecimentos a algumas pessoas que me incentivaram nessa gratificante caminhada, entre os quais Élson Dantas, Antonio Stélio, Tião Vitor, Maria Cecy, Edjane Pinheiro, Júlio Dourado, Beneilton Damasceno e Leonildo Rosas

* Repórter fotográfico do jornal Página 20 e Folhapress. Acadêmico do curso de jornalismo do Iesacre, membro fundador da ABRAJET-AC e diretor de imagem do Sinjac. Associado da Abrafoto e colaborador do jornal “Tablóide”

 
 
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Rio Branco-AC, 21 de março de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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