| ESPECIAL | |
| ENTREVISTA | |
Jorge Viana: “O Acre é minha própria vida” |
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Nos próximos quatro anos, Jorge Viana vai ficar longe dos holofotes e, de forma discreta, ajudar o Acre a se desenvolver com sustentabilidade. Essa é a opção do homem que durante oito anos conduziu o Estado às maiores mudanças políticas, administrativas, econômicas e sociais da sua história. Sob o comando de Jorge Viana, o Acre deu um salto de qualidade em todos os setores, mas foi na educação que isso se refletiu com maior ênfase. A ponto de o vice-governador e secretário Binho Marques acabar sendo eleito governador no primeiro turno, nas eleições do ano passado. Ao entregar os destinos do Estado para seu ex-vice, no dia 1º de janeiro deste ano, Viana pretendia permanecer ao menos um ano fora do Acre. Aproveitaria para estudar e deixar que o curso da política acreana seguisse sem sua presença. Eram muitas as possibilidades que o ex-governador tinha pela frente. Uma delas seria morar nos Estados Unidos, onde ocuparia uma função de diretoria no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com salário em dólar. Falou-se muito durante a montagem da equipe ministerial que ele ocuparia uma pasta estratégica na equipe do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. A necessidade de se fazer um governo de coalizão, contemplando os partidos aliados, foi um dos fatores impeditivos para que isso acontecesse. Durante os dois mandatos de governador, Jorge Viana adotou um ritmo frenético. Tanta obsessão pelo trabalho fez com que muitas vezes abrisse mão da própria família. A necessidade de voltar a conviver de perto com os familiares, em particular a mãe, dona Sílvia, também pesou na decisão de continuar morando no Acre. “Hoje eu vou todos os dias à casa dela lhe dar um abraço, um beijo e conversar”, diz. Convidado pelo governador Binho Marques e representantes dos setores produtivos do Estado, Viana está na presidência do Fórum de Desenvolvimento Sustentável do Estado do Acre, onde afirma que irá fazer um trabalho pautado na discrição. Nessa entrevista exclusiva ao Página 20, numa conversa de mais de duas horas, Jorge Viana declarou que vai aparecer menos, conversar mais e ter uma vida discreta. Deixou claro, no entanto, que vai andar muito, embrenhar-se no Acre e aprender com o povo e com as populações tradicionais. Vai buscar soluções para os problemas do Estado junto aos índios e seringueiros. Leia a entrevista. O senhor passou oito anos como governador. Hoje, fora do cargo, quais sãos suas expectativas para o futuro em relação ao Estado? As coisas no Acre estão bem melhores porque há um otimismo instalado. Há um ambiente de união muito grande. A esperança está presente em todos nós. Agora, é fazer com que tudo isso se transforme em melhorias para a população. Binho Marques, que foi seu secretário de Educação e vice-governador, agora é governador. Qual é o papel que a educação tem no projeto da Frente Popular? A Educação são as mãos que seguram o nosso projeto político. E esse projeto foi conduzido pelo Binho. Mas qual foi o grande motor que trouxe de volta a esperança e a confiança ao povo do Acre? Acho que foram os investimentos esparramados na infra-estrutura de todos os municípios. Procuramos levar água, luz, escolas e outros investimentos para as localidades que não tinham praticamente nada. Esses investimentos vieram casados com o projeto de educação que o senhor falou? É claro. Hoje temos a presença da Universidade Federal do Acre nos vinte e dois municípios acreanos. Há poucos anos se debatia sobre o fechamento de unidades no interior. Não faltava quem defendesse dar um tiro de misericórdia no ensino público de terceiro grau. Qual é o ganho do Estado com esses cursos? O Acre deverá ser o primeiro Estado brasileiro a ter todos os seus professores com nível superior. E agora o Binho e o reitor Jonas Filho estão levando o curso de Economia para quinze municípios. Isso é a mudança em três dimensões. Apesar dos avanços que o senhor diz que a educação teve, os servidores em educação estão sempre ameaçando fazer greve. A que o senhor credita essa movimentação constante? Acho que o ambiente histórico e político vivido em nosso Estado ampliou o senso crítico da sociedade. Isso não é ruim. É bom. Mas, como o propósito posto é de o Acre continuar dando certo, eu aposto no entendimento. E a isonomia? Devemos refletir. O Acre, que é um Estado pobre, está debatendo teto salarial quando no passado se lutava pelo piso. Não se discute mais calendário de pagamento, padrão das escolas, dinheiro nas escolas e gestão das escolas. Aposto no bom-senso dos trabalhadores em Educação, que ajudaram a mim e ao Binho em tudo que fizemos no setor. O senhor acredita que o governador Binho Marques vai ceder à pressão do sindicato? Eu compreendo que nenhuma pessoa está mais interessada em concluir esse trabalho de política educacional do que o nosso governador Binho. Tenho certeza de que ele chegará com uma proposta de teto salarial que pode ser maior do que eles reivindicam. Mas isso acontecerá quando as condições do Estado permitirem. Enquanto isso, os funcionários vão ficar esperando? Os trabalhadores não podem ter dúvida nenhuma de que a pessoa que cuidou da Educação de Rio Branco e do Estado durante doze anos, implementando as mais profundas mudanças na área, não irá deixá-los na mão. O Binho agora é governador. Se eu fosse trabalhador em Educação, ficaria tranqüilo porque as coisas estão nas mãos do Binho. O senhor fala muito em educação, mas é possível o governador Binho Marques levar esse modelo para as outras áreas? Essa é a nossa torcida. Espero que ele leve esse avanços para a Saúde, Segurança Pública e outros setores importantes. Não tenho nenhuma dúvida de que esse é o propósito do Binho. E a gente espera que isso aconteça, principalmente na área de Saúde. Por que principalmente na área de Saúde? Porque o modelo de contratação de funcionários e de gestão da saúde foi muito disperso e equivocado. Não será uma mudança fácil, mas extremamente necessária. As mudanças melhorarão para quem trabalha na Saúde e, principalmente, para quem necessita dos profissionais em Saúde. Qual é o papel que seu irmão, o senador Tião Viana, desempenha na Saúde? Ninguém pode duvidar da dedicação que o senador Tião Viana tem com a Saúde do Acre. Posso dizer que, como o Binho foi para a Educação, o Tião foi para a Saúde. E qual é o desafio agora? O desafio é do governo, que deverá construir um modelo de gestão na Saúde que seja um modelo de Estado. O melhor modelo dessa equipe jovem e fantástica que está à frente do setor é o próprio Binho. Acho que nesses quatro anos ele consolida isso. O senhor disse que o governador Binho Marques está para a Educação assim como o senador Tião Viana está para a Saúde, mas por que a primeira avançou mais do que a segunda? Porque o modelo de admissão e a forma de funcionamento da Educação estão muito mais avançados de que na Saúde. E isso acompanha a própria estrutura brasileira, na qual a Saúde tem um modelo mais desorganizado. Mexendo agora e ajustando o modelo de gestão, as coisas ficarão muito melhores. Mas acho que as melhorias serão efetivadas em três anos. Desde 1990, quando concorreu pela primeira vez ao governo e chegou ao segundo turno, o senhor vem num ritmo acelerado. A partir de janeiro deste ano, o senhor teve que tirar o pé do acelerador. Como está sendo sua vida hoje? Tem sido um exercício novo. O Acre é minha própria vida. Dediquei o meu tempo, o meu conhecimento, ao governo do meu Estado de corpo e alma. Agora, estou exercitando uma nova fase, que é tentar colaborar de forma discreta para o desenvolvimento do Estado. Não é difícil colaborar de forma discreta? Sempre tento deixar clara a minha absoluta confiança na Marina, no Tião, no Sibá, na nossa bancada federal, nos deputados estaduais e nos prefeitos. Se eu confio plenamente nessas pessoas, como o povo do Acre confiou, estou tranqüilo. Não tem ansiedade da minha parte. A única coisa que quero é me recolher e ficar discreto. Estou tentando me recolher, mas sem me omitir. Tenho fé em Deus de que irei conseguir fazer isso. É possível fazer isso nessa nova função de fomentador da iniciativa privada que o senhor terá como presidente do Fórum de Desenvolvimento Sustentável? Fui convidado para ajudar nesse fórum, que foi criado quando eu estava no governo. Para mim será um desafio poder ajudar estando fora do governo. Se as coisas acontecem fora do governo, elas são sólidas e definitivas. Elas não têm prazo e são para sempre. Eu quero ajudar de forma mais discreta possível. O governo já fez e está fazendo a sua parte. Mas essa discrição será fácil? Não. É difícil. Toda hora tem que estar olhando uma nota no jornal ou matéria dando conta de que estou disputando cargo. Quero reafirmar que não estou disputando cargo nenhum. Não irei ocupar cargo federal nenhum. O presidente Lula tem sido uma pessoa mais do que atenciosa comigo. A propósito do presidente Lula, o senhor realmente foi convidado para ser ministro? Não posso negar que fui convidado mais de uma vez para assumir cargo no ministério. Mas cada coisa que aconteceu na minha vida aconteceu no tempo certo. Eu acho que não era o tempo. Nunca disputei cargo na minha vida. O fato de o Acre já ter uma ministra, a senadora Marina Silva, também não dificultou sua ida para o ministério? Para o Acre, nesse cenário político, ter dois ministros é muito complicado. O próprio presidente Lula e a imprensa falaram isso. Temos que compreender isso com naturalidade. Se eu sou amigo do presidente, tenho que estar disposto a ajudá-lo mesmo sem ocupar cargo. Tudo o que eu sonhava era que a Marina continuasse. E ela, graças a Deus, continuou. A ministra Marina Silva vem enfrentando problemas dentro do governo... Ela está numa área muito delicada e vai necessitar muito do apoio da gente porque será muito combatida. Sei que é com a gente que ela pode contar de verdade. Qual é sua opinião sobre as pessoas que disputam cargos? Acho que quem fica brigando por cargos está despreparado para ocupá-los. Quero esclarecer ao pessoal de outros Estados, como do Pará e do Amazonas, que não estou e não vou disputar cargos. Estou aqui para esclarecer isso às pessoas que tentam fazer com que todos sejam iguais a elas. Realmente, o senhor não fez nenhum movimento para ocupar cargo federal? Se eu fizesse o mínimo movimento, acho que teria sucesso. Bastava fazer um pequeno movimento. Aliás, quem acompanhou as relações com o governo federal, como o Tião e o Binho, sabe que muitas vezes eu pedi para ficar fora. Ao abrir mão de ocupar cargo federal, como o senhor afirma, não há o risco de perder oportunidades? Quando isso tiver que acontecer, acontecerá normalmente. Estou realizado pelos cargos que ocupei e não estou atrás de outros. Voltando para o papel que o Fórum desempenhará. O senhor declarou que o governo fez sua parte; qual seria a parte da iniciativa privada? Correr mais riscos. Procurar apoio dos governos federal, estadual e municipal para as ações da própria iniciativa privada. Não dá para esperar que o governo faça tudo. O governo fez, está fazendo e vai continuar fazendo. Outro desafio é tentar sair das amarras que impedem o setor privado. Que amarras são essas? A carga tributária é elevada, a desconfiança das instituições financeiras é muito grande. O exemplo é a exigência de garantias. A pessoa para conseguir um financiamento para montar um negócio precisa ter dinheiro. Os bancos, normalmente, só emprestam dinheiro para quem tem dinheiro. Isso não funciona. E qual seria a solução? Que os bancos acreditassem em bons projetos e boas idéias. Foi isso que o Mâncio Lima Cordeiro fez no Banco da Amazônia. Em sua opinião, qual é o papel do setor privado no Brasil e no Acre? É um papel fundamental nesse momento em que o presidente Lula lança o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) e o governador Binho conseguiu liberar, de forma inédita, recursos em abril. Se o governo tem investimentos garantidos, nós precisamos ver qual é o PAC do setor privado. Afinal, a massificação do emprego e das melhorias econômicas se dá fora do governo. Acho que, com a Estrada do Pacifico, a hidrelétrica do Madeira e a BR-364 até Cruzeiro do Sul, para citar algumas obras, o Acre tem todas as condições de dar uma nova alavancada nos próximos anos. O senhor falou sobre o trabalho de Mâncio Lima Cordeiro no Banco da Amazônia. A saída dele do cargo de presidente não tira poder político do Acre na Região Norte? O governador Binho, os senadores Tião Viana e Sibá Machado e a bancada federal estão trabalhando para que o Acre continue tendo um diretor no Banco da Amazônia. O próprio presidente Lula se mostrou sensível ao pleito. Qual seria o papel de Mâncio Lima Cordeiro no governo? Ele foi convidado pelo governador Binho para cuidar da Secretaria de Fazenda e Gestão. Acho que ele, junto com o Gilberto Siqueira, será um grande interlocutor do governo com a iniciativa privada. Um dos assuntos mais debatidos no momento é a prospecção de petróleo. Qual é sua opinião sobre isso? Eu me nego a entrar nessa discussão. Acho que ela não tem muito sentido agora. Essa questão de prospecção de petróleo no Brasil e no mundo se dá de uma forma convencional. Se a Petrobras imaginar que há petróleo no mar, no pantanal ou no semi-árido nordestino, ela vai atrás. Mas se encontrar no Acre? Eu não conheço nenhum lugar no mundo onde se encontrou petróleo que não tenha sido explorado. Acho que deveríamos serenar os ânimos. Se os estudos apontarem que há petróleo, aí cabe uma discussão muito intensa. Nesse caso, as pessoas que se posicionam contrários devem ser chamadas para fazer um debate intenso sobre os caminhos a serem seguidos e os cuidados a serem tomados. Mas isso só deve ser feito se os estudos comprovarem alguma coisa. Não posso debater sobre uma coisa que ainda não existe. A prospecção de petróleo não parece um contra-senso num governo que defende a floresta como maior patrimônio? O Brasil e o mundo têm uma forma peculiar de tratar esse tema. Em toda minha vida defendi, e continuo defendendo, que o foco do Acre é a gente encontrar maneira de atividades econômicas que respeitem nossa identidade cultural e que, ao mesmo tempo, encontrem um jeito sustentável e consistente de manejo dos recursos florestais. Se pensarmos o Acre como uma empresa, a floresta é nosso melhor negócio. Sempre acreditei nisso. Esse seu raciocínio parece ser contrário à prospecção... O que penso não fecha as portas para situações com essas. O senador Tião Viana cumpriu o papel dele. É bom lembrar que senador e deputados não fazem prospecção de petróleo. Quem faz isso é a Petrobras, a ANP e os governos. Agora, esse assunto é com eles, que devem dar respostas à sociedade. Mas se for achado o petróleo? Nesse caso, teremos que fazer um intenso debate para que todos os cuidados sejam adotados. Não conheço nenhum país ou região do mundo onde foi encontrado petróleo que não explorou. Considero mais do que justas as preocupações e os cuidados porque a gente tem um meio ambiente muito sensível na Amazônia. Só que o Acre, por ter um Governo da Floresta, tem que ter uma preocupação ainda maior... É, mas na hora certa. Não tem sentido fazer um debate sobre uma coisa que não há certeza alguma. Só incertezas. Eu me nego a entrar no debate porque é uma coisa fora de época. O senhor tem conversado com o governador Binho Marques? O Binho tem sido extremamente gentil comigo. Mesmo procurando ficar bem discreto, ele sempre tem conversando comigo. Há uns 45 dias, ele estava completando uma etapa do planejamento dos quatro anos de mandato. Uma das coisas que ficou clara, na conversa que nós tivemos, é que o governo pretende focar o desenvolvimento econômico-comunitário. Como seria esse desenvolvimento? A idéia é ter agrupamentos sociais e comunitários de populações tradicionais que desenvolvem atividades econômicas sustentáveis e competitivas, mas adequadas à história cultural. Acho que é uma boa aposta trabalhar com a microeconomia. É uma economia local, mas, ao mesmo tempo, global. No período em que ficou no governo, o senhor apostou em grandes obras... As obras mais sofisticadas que nós fizemos foram as mais simples. A gente encontrou soluções simples, sem importar de outras localidades. Quais obras? Uma obra fantástica foi trabalhar a idéia dos parques. Eles ajudaram a melhorar a qualidade de vida das pessoas. A Via Chico Mendes, que é uma grande avenida, tem como parte mais importante a ciclovia. Ali morriam em média 14 ciclistas por ano. O moderno é fazer obras que dêem para as pessoas andar a pé e de bicicleta. O governador Binho Marques declarou que fará um governo para o desenvolvimento comunitário. Como o senhor definiria seus oito anos de administração? Foi o início de um projeto que espero que o Acre leve adiante. O Binho respondeu a um jornalista esses dias, com muita eficiência e uma boa tirada, que não estava no governo há três meses, mas há oito anos e três meses. Isso é uma coisa muito interessante. Com o Binho, o nosso Estado vai viver uma nova etapa do programa que a gente começou a executar. O Acre pode acreditar que essa nova etapa será melhor? Eu aposto que será uma etapa que irá consolidar a qualidade de vida no Acre. Eu e o Binho temos sempre conversado e estamos muito ansiosos com o censo de 2010. Por que essa ansiedade toda? Porque tenho muita fé de que será a melhor década do ponto de vista da qualidade de vida e de todos os indicadores. Será a melhor década da história do Acre. Acho que isso tem que ser um objetivo. Uma sociedade sem metas e sem objetivos está muito comprometida. Tem que ter sonhos. Eu sonho com isso. Se isso acontecer, estarei realizado na vida. Mesmo estando fora do governo, o senhor continua sendo bastante criticado por seus opositores. Isso o incomoda? Essa é uma coisa inevitável. Eu ocupei o cargo de governador durante oito anos, sou do PT, do Acre e fizemos um governo que foi referência em gestão. É inevitável que se comente. A tendência é de que essas críticas diminuam com o tempo. Boatos nas ruas dão conta de que o senhor teria se desentendido com o governador Eu nunca tive o menor desentendimento com o Binho. Nunca houve uma divergência sequer em conversas informais. Mas surgem boatos absurdos e escandalosos. Uma pessoa como eu, que recebi tanto do povo do Acre e das lideranças da Frente Popular, só tem que tentar ajudar numa hora dessas. A única possibilidade que existe entre eu e o Binho é a do permanente entendimento. Então, como é esse relacionamento entre vocês dois? O Binho é para mim um companheiro e um irmão. Não poderia estar mais feliz na vida do que tê-lo como meu sucessor. A paixão que nós temos pelo Acre é o que nos une. Recentemente a revista Veja acusou seu governo de permitir um desmatamento acima do normal... Essa matéria é lamentável sob todos os aspectos. Algumas notas que saem dizendo que estou concorrendo a cargos também são lamentáveis. Volto a repetir que não estou concorrendo a nada. As pessoas podem ficar tranqüilas. O pessoal fala de eventual desentendimento de mim, do Binho, do Tião e da Marina sem nos consultar. Mas qual é a explicação para a matéria da Veja? Em 2003, a revista fez uma matéria dizendo que o Acre tinha desmatado mil e duzentos quilômetros quadrados por ano. Isso nunca aconteceu. O erro foi muito grande. Acho que agora houve uma tentativa de consertar um erro com outro. O lamentável é que eu não fui ouvido. A pessoa acusa, julga e condena sem você saber que isso está acontecendo. A pergunta é: houve esse desmatamento? O Governo da Floresta, na verdade, evitou uma tragédia. Porque o maior período de desenvolvimento econômico do Acre foram nos últimos oito anos. Foi um período em que se avançou mais em infra-estrutura, quando foram feitos investimentos nos vinte e dois municípios, e nem com isso tivemos uma explosão de desmatamento. Como são as taxas de desmatamento no Estado? São absolutamente compatíveis com as médias na Amazônia. Agora, são absolutamente diferentes de Estados como Rondônia, Mato Grosso e sul do Pará, onde estão fazendo a explosão econômica somada com a explosão do desmatamento. Na Amazônia nós temos Estados como o Amazonas, Amapá e Roraima que têm características do não-desmatamento expansivo. Entre os que desmataram muito e os que desmataram pouco, onde ficou o Acre? Ficou na intermediária. É só olhar os dados para comprovar que, nos últimos oito anos, nós praticamente aniquilamos os grandes desmatamentos no Estado. Existem casos isolados que devem ser combatidos com firmeza. Mas quem desmata, então? São os pequenos? Nós temos uma herança. São centenas de pequenos produtores que desenvolvem atividades de subsistência que incluem o desmatamento de pequenas áreas. A soma dessas pequenas áreas é bem maior do que o desmatamento anual do Acre. Esse é um desafio que está posto. Daí a importância do estudo do Imazon que nós encomendamos para tentarmos encontrar mecanismos de substituir a tradição do roçado por outras práticas que não implique desmatamento. Qual é a área desmatada do Acre? A lei brasileira diz que até vinte por cento da área pode ser desmatada. Aqui no Acre isso não aconteceu. O desmatamento foi contido. Ainda bem que isso não aconteceu. O desmatamento no Acre está em torno de onze por cento da sua cobertura florestal. Isso é uma conquista. No início, o Governo da Floresta contou com a desconfiança do setor pecuarista. Mas o que se percebeu é que durante seu governo houve uma compatibilidade com a pecuária pautada na tecnologia. Como isso foi possível? Veja a contradição. Muita gente nos acusava, principalmente a Marina, de que, se um dia nós chegássemos ao governo, as pessoas não iriam tirar uma vara para mosquiteiro. Outros tentam nos responsabilizar por desmatamentos nas pequenas propriedades. Todos sabem que os projetos de assentamento implementados no Acre são inadequados para a manutenção da floresta. E o relacionamento com os pecuaristas? Os pecuaristas investiram maciçamente na melhoria das áreas já desmatadas. Isso implicou um incremento enorme da qualidade do rebanho bovino. Temos com eles uma relação de respeito. O senhor também é defensor de que Estados que preservam tenham compensação financeira, por meio da dívida brasileira. É possível que isso aconteça? A nossa idéia é implementar um programa-piloto de troca da dívida por investimentos na área ambiental junto aos índios, às unidades de conservação e às populações tradicionais da floresta. Esse é um projeto que temos há mais de um ano e estamos tentando implementar. Porque, infelizmente, nunca existe orçamento para essas atividades. Qual seria o ganho com esse projeto? Garantir orçamento para que os índios possam ter atividades compatíveis com sua cultura, que as unidades de conservação sejam implantadas no Acre e que a economia comunitária possa ser competitiva, não a partir da cultura do mercado, mas a partir da lógica e da vida dos comunitários. Tenho expectativa de que o Protocolo de Kioto incorpore a tese de que quem evitar desmatamento ganhe dinheiro. Nesse caso, o Acre poderia reivindicar esse dinheiro? É claro! Pela explosão econômica que tivemos nos últimos anos, nós evitamos desmatamento. E, se fizemos isso, poderíamos receber uma remuneração. Isso se chama remuneração pelo desmatamento evitado. Não temos condições de bancar a nossa floresta se não tivermos a entrada de recursos. O senhor falou muito em explosão econômica. Dê um exemplo O FNO, criado em 1988 e até 1998, portanto em dez anos, investiu apenas 50 milhões de reais no Acre. Nos oito anos em que fiquei no governo, o FNO aplicou mais de 300 milhões de reais. Seguindo essa lógica, o desmatamento deveria ser, a princípio, seis vezes maior. E não foi nada disso. Nós tivemos em oito anos um incremento de desmatamento em torno de quarenta por cento. A Frente Popular foi criada em 1990 para dar suporte à sua candidatura a governador. Como o senhor se sente dentro dessa coligação? Eu sou filho da Frente Popular e do PT. O senhor terá algum papel nas discussões das eleições municipais de 2008? Eu vou ser radical em ficar discreto nesse processo. Isso vai fazer valer uma coisa que é verdadeira para mim: a confiança nas lideranças dos partidos que formam a Frente Popular. Se eu confio nessas pessoas, eu não tenho que me meter. Mas se o senhor for provocado? Nesse caso, tenho que ajudar sem atrapalhar. Tenho que ser contido sem ser omisso. Mas acho que o processo político para 2008 tem que ser retardado o máximo possível. Estou vendo o Angelim fazendo um bom trabalho e os nossos administradores nos municípios seguindo o mesmo ritmo. Este é um ano diferente. Por que é um ano diferente? É um ano em que se está começando um novo trabalho do Binho. Não adianta alguém querer ficar querendo cobrar. Eu acho que o Binho está na velocidade certa para o primeiro ano de governo. Esperem para ver. No segundo semestre deste ano as coisas estarão num outro patamar. Mesmo discreto, como diz que atuará, qual o conselho que o senhor daria aos dirigentes da Frente Popular? Nosso grande segredo sempre foi a união, esse é nosso grande motor. Eu não abro mão de atuar pela nossa unidade. Qual é a avaliação que o senhor faz da minissérie Amazônia - de Galvez a Chico Mendes? Para mim foi uma coisa fantástica. Foi uma grande conquista. Quantos povos e Estados não querem ver sua história contada? Mas, como tudo no Acre sempre gera um pouco de polêmica, isso não é ruim. O problema é que são geradas polêmicas que às vezes eu não compreendo. É que pessoas que viveram aqueles momentos se sentiram preteridas... Essas pessoas têm que entender que a obra é uma ficção escrita por uma acreana, a novelista de maior sucesso no Brasil Glória Perez. A ficção é de responsabilidade do autor ou da autora. Ela usou como pano de fundo uma história que se passou no Acre, sua terra natal. Achei lindo ela pegar o padre José e colocá-lo no começo do século. Ou alguém vai querer agora censurar ou interferir no processo de criação cultural? Na sua opinião, qual foi o maior ganho do Acre com a minissérie? Ela nos deu a oportunidade de poder discutir os cem primeiros anos da nossa história. Isso foi fantástico para mim. A minissérie, de certa forma, unificou ainda mais o povo do Acre - ou na dúvida ou na incerteza. Achei isso fenomenal. Vou agradecer a Glória Perez e a todos os que fizeram a obra. Quais são suas observações sobre a última fase da minissérie? Teria uma série de observações a fazer, mas não cabe porque devo respeitar o processo de criação da autora. Quais seriam essas observações? Colocaria a ministra Marina Silva mais intensamente. Colocaria o papel do presidente Lula e do PT mais forte do que foi. Mas isso são circunstâncias. É o processo livre de criação. O PT nacional realizará seu congresso em agosto. Qual será sua posição? Não assinei nenhuma das teses. Nós aqui do Acre, eu, Binho, Marina e Tião aprendemos que é melhor trabalhar com todas as correntes do PT do que com uma só. É melhor cuidar do todo do que de uma parte. A pessoa que escolhe apenas cuidar de uma parte está escolhendo o tamanho que quer ser. O PT não precisa de gente que defenda sua parte, mas defenda o todo. Mas o senhor é um crítico da forma como o PT vem sendo conduzido nacionalmente... Consigo valorizar muito o papel dos companheiros de São Paulo. Consigo valorizar a história de luta das pessoas, que ajudaram inclusive o PT a chegar à Presidência da República. Mas a chegada ao poder trouxe muitos desgastes e problemas. Está na hora de o PT se reencontrar com seus princípios e sua história. É isso que eu defendo. Se as coisas são assim, por que o senhor reclama tanto da direção? Veja bem. Faz cinco anos que um presidente do PT não vem ao Acre. Isso é inconcebível. Aqui é o lugar onde o PT fez e faz mais sucesso no Brasil. Basta olhar os números. O presidente Lula veio cinco vezes em quatro anos. O presidente do PT não veio nenhuma. Isso está errado. Por que o senhor acha que está errado? Porque o Acre tem sido uma referência positiva para o PT. Não aceito pouco caso de alguns dirigentes com o Acre. O que está ocorrendo aqui é algo fantástico. Houve todos esses escândalos nacionais e nós ficamos de fora. O Acre entrou para qualificar no PT nacional. Merecemos um tratamento do tamanho daquilo que estamos fazendo. Quem está perdendo com isso não somos nós, é a direção do PT. Ocorre que São Paulo é visto como o grande centro... Eu cobro que a direção do PT olhe mais para o Brasil e menos para o seu umbigo, que é São Paulo, que não é nem o centro do Brasil nem o centro do mundo. São Paulo sempre será um dos lugares mais importantes economicamente do Brasil e do mundo. O senhor disse que o presidente Lula veio cinco vezes ao Acre em quatro anos. A população acreana pode continuar contando com Lula como um amigo? Sem dúvida alguma. O Lula tem sido o maior e melhor aliado nosso. Acho que, às vezes, é mais aliado do Acre do que o próprio governo. Inclusive o governador Binho está engrenando para trazê-lo no fim de junho ou começo de julho. Ele virá fazer o quê? Inaugurar obras e estimular a Estrada do Pacifico. A gente tem que trabalhar para continuar trazendo o presidente ao menos uma vez por ano. É bom que o presidente do PT aprenda com o Lula e venha ao menos uma vez no mandato. Ao deixar o governo, depois de oito anos, o senhor saiu com mais de 80% de aprovação. A quem deve ser creditado tanto sucesso? Nossa administração conseguiu sucesso porque eu pude contar com uma equipe extraordinária. Conseguimos construir um ambiente político favorável na Assembléia Legislativa, na Câmara dos Deputados e no Senado da República. Na sua avaliação, onde estão as soluções para os problemas do Acre? Estão muito mais para dentro da floresta do que em Brasília. Eu sempre falei isso. O senhor acredita que esse seu recolhimento será bem recebido pela população? Eu quero que isso aconteça. Estou somando essa posição com a outra de não ter sido candidato. Não fui candidato em função de não almejar cargo. Deixei de ser candidato pelas circunstâncias. Que circunstâncias? Se o Tião Viana tivesse podido concorrer ao governo, provavelmente eu teria sido candidato porque o Binho teria assumido o governo. Se a Marina fosse candidata, a discussão poderia ter sido outra. Mas, no fim das contas, foi o meu vice o escolhido. O que aconteceu depois disso? Lideranças da Frente Popular e do meu partido me perguntaram se eu toparia ficar sem mandato. Eu disse que toparia na hora. A decisão valeu a pena? Valeu muito. Espero que minha decisão funcione didaticamente. Volto a repetir: quem briga muito por cargo está demonstrando não ter preparo para exercer esse cargo. Eu nunca briguei nem para ser candidato. Sempre fui convidado. Ao optar pela tranqüilidade e a discrição, o senhor vai se ausentar dos embates políticos? Olha, politicamente eu não quero me ausentar! Mas essa fase, desses quatro anos, eu tenho que ficar muito recolhido. Vou continuar trabalhando pela nossa união e pelo sucesso daqueles que ocupam cargos. * Colaborou Juracy Xangai |
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