COTIDIANO

BR-364: estrada da esperança

Seringueiro traça um paralelo de 32 anos vividos ao lado da estrada entre Manuel Urbano e Feijó

Juracy Xangai
Claudomiro da Silva se
diz alimentado pela fé


Juracy Xangai

Na casa de piso e paredes feitos de paxiúba polidos pelo tempo e pelo uso, a cobertura de palha garante um refrescante conforto contra o calor do meio-dia, enquanto o vento passa por ente as achas de madeira.

O silêncio é quebrado pelo canto das aves, o cacarejar da galinha indiana enquanto o seringueiro Claudomiro da Silva Brito, 53 anos, dois casamentos, pai de 16 filhos dos quais onze sobreviveram, mora na colônia Curupari que está localizada no quilômetro 62 da BR-364 entre Manoel Urbano e Feijó.

Passa a língua na margem do papelim sobre o qual deitou fumo da região, acende, traga e dá uma longa baforada para então contar: “Moro aqui há 33 anos, quando era mais novo, morava com meus pais em frente ao rio Jurupari e foi nesse tempo, com 14 anos que eu trabalhei no terçado ajudando os mateiros a tiraram o pique desta BR-364. Tempos depois começou o serviço pesado, quando a gente cortava as árvores, cavava e tirava até a raiz dos tocos na picareta e enxadeco. Nesse tempo eu já tinha esbarrado nos meus 20 anos”.

A vida de Claudomiro foi sendo traçada paralelamente à construção da BR-364, já batizada como “estrada do inferno” pelos caminhoneiros que nela sofreram e ainda sofrem, mas que para seus moradores converte-se em estrada da esperança de que um dia ela seja asfaltada tirando-os do isolamento, abrindo simbolicamente as portas do paraíso.

“Eu era guri e esse pessoal já falava na abertura dessa estrada. Nesse tempo eu nem tinha idéia do que era uma estrada, só estrada de seringa mesmo. Carro, nem pensar, era tudo muito longe, um mistério”, recorda. “Mas rapazote ganhei dinheiro trabalhando nela. Quando o 5º BEC abriu essa estrada eu já estava morando neste lugar. Depois veio o 7º BEC com as máquinas abrindo as laterais e terminando o serviço. Ficou muito bonito, mas o inverno não teve pena. Abriu vala, formou lama em que a gente pisava e afundava até a coxa na tabatinga. O capim tomou conta, eles limpam, mas todo ano ele invade. Não tem quem ande. Só no verão mesmo!”

Claudomiro esclareceu que quem mora à beira da estrada aprende a viver de acordo com o ritmo da natureza, cada coisa no seu devido tempo, no verão estocam sal, açúcar e café para agüentar o inverno, mas imprevistos acontecem. “Cortando minha borracha, cuidando de meu roçado, caçando e criando minhas vaquinhas levo uma vida muito boa, mas quando alguém adoecia era um Deus nos acuda. Se é gente grande tiramos na rede, quando é criança a gente põe nas costas ou leva em lombo de burro virando dia e noite até chegar em Manuel Urbano, mas não é todo mundo que agüenta, muitos morrem em viagem!”

Vida seringueira - Dono de uma colocação com sete estradas que somam mais de 900 árvores, conseguiu colher 800 quilos de borracha no ano passado. “Vendi a R$ 2 em Manuel Urbano, agora só estão pagando R$ 1,80. A gente corta borracha porque é nosso costume, mas dá muito trabalho e pouco resultado”, lamenta. “A gente tem de se levantar às duas, no máximo três horas da manhã, e entrar na mata fria, molhada de orvalho na hora em que a onça e os outros bichos estão mais animados. Varo a madrugada cortando até as nove ou dez horas da manhã. Depois do meio-dia a gente volta colhendo o leite, isso se a gente der sorte de não chover, porque quando chove a água entra nas tigelas e toma tudo, então o serviço fica perdido. Trabalho e ando muito para colher de 15 a 20 litros de leite por dia.”

O uso da amônia para talhar o látex deu maior praticidade ao trabalho, mas Claudomiro ainda se ressente dos tempos em que depois de colher as tigelas tinha que defumar o leite que solidificava em camadas formando pélas que pesavam até 50 quilos.

“A fumaça atacava muito o pulmão e os olhos da gente que ia defumar borracha, mas também acabava defumado. Minha vista praticamente se acabou porque eu comecei a cortar borracha quando tinha 12 anos de idade. Na mata a gente não tem as facilidades da cidade e começa a trabalhar cedo para ajudar no sustento da casa. Aqui todo mundo tem que trabalhar”, relata.

 

 
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Rio Branco-AC, 21 de junho de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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