| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA | ||
José Augusto Fontes |
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A palavra como matéria prima é de lascar. Catar a poesia entornada no chão, arrumar, limpar, tirar o cheiro. Até perfumar ou enlamear. Palavras, quando escritas, não passam da sala para o quarto sem deixar rastro. Quem grita independência ou morte, é claro, pensa mais em matar do que em morrer, mas deveria considerar bem a possibilidade. Meu avô dizia, minha mãe diz, o mundo dá muitas voltas. No retorno, nada será como antes, digo eu agora. Ouvimos vaticínios. Após o september eleven, nasceria a intranqüilidade. Veio guerra. Sobre as cabeças, explosões; sob os pés, sangue. Parecia fácil prever o resultado, ao menos, dar palpites, então lógicos. Era esperar para ver, esperar pouco. Agora, nada é previsível. É um jogo, a aposta é alta e ninguém é santo. Nem é santa a guerra dos fanáticos. A outra guerra, a gente sabe, não vale a pena comentar, vale números raivosos, a gente nem sabe mais. Nem o Bin W. Blair do Alá Hussein, nem mesmo São Beco-Beco (nosso São Nunca doméstico). Ninguém sabe quem vai bater com a carroça de branco, já quase morta, pintada de petróleo. O Iraque foi o segundo produtor mundial de petróleo; o Afeganistão, o primeiro exportador mundial de ópio (Unicid/ONU), e os EUA são o império econômico viciado em poder. Tudo isso tem lá suas tramas e parcerias. Olhando tanta manifestação, ouvindo tanto discurso, com a regência dos mísseis, pode ser que alguém passe com pedra na mão. Há controvérsias. Os gases podem embaraçar a visão, num suspiro de aflição. Palavras, ninguém vê os olhos da criança, que olham para o soldado, dentro dos olhos do querer-poder. A agressão é um vão da mão que detona, da mão que apregoa devaneios.“Atacar não significa apenas assaltar cidades muradas ou golpear um exército em ordem de batalha, deve também incluir o ato de assaltar o inimigo no seu equilíbrio mental”. Frase que o livro As Diversas Faces do Terrorismo (Paulo Sutti e Sílvia Ricardo, ed. Harbra, 2003) atribui a Sun Tzu em A Arte da Guerra, séc. VI a.C. Mas isto é terrorismo, embora terrorismo não seja só isto. A ânsia incontrolada de dominação também é. Sanção, segregação, exclusão, desemprego e fome também causam terror. “Tal como não se pode esperar dos países que estão no centro de uma economia-mundo que renunciem a seus privilégios no plano internacional; no plano nacional, será de se esperar que grupos dominantes que associam o Capital ao Estado e que têm a garantia do apoio internacional, aceitem jogar o jogo e passar a jogada?” (Fernand Braudel, em O Tempo do Mundo – Realidades históricas e presentes). Como disse, é um jogo, a aposta é alta e ninguém é santo. Outras palavras, um dominó delas, cheias de fé. Na TV, o homem manda a família para um buraco, dentro de casa. Outro ajoelha-se para um estrangeiro armado. A mulher chora o filho que foi matar e foi morto. Palavras. Mas palavras, até as que incomodam, não dizimam. Mesmo estando dito, ainda não está feito, são só palavras. A intenção e a ação são muito piores. Se possível, vale até palmear, sair batido, para que vença o respeito, com algum amor, sentido e utilidade da vida, que não é apenas uma oportunidade para arrecadar bens ou abastecer fanatismos. Se o ódio vence o medo, vence também a esperança. E vem o resultado, vem a sensação, vem a dor. Nada disso traz de volta o antes. De volta, só as palavras. E nem sempre há poesia. Tiros ecoaram. Corpos tombaram. A tempestade de areia não encobre o sangue que vaza para os barris. Mesmo catando, nada há que agrade recolher. Em teus olhos também posso ver. Tudo isto, só traz de volta as palavras. Como meio de reproduzir, como forma de expressar, como um jeito de lamentar. |
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