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Beneilton Damasceno * |
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Quem caminha diariamente pelos corredores da Universidade Federal do Acre (Ufac) de segunda-feira para cá tem observado uma movimentação pouco típica na academia. Na cantina, nos pontos de ônibus, no Centro de Convivência, no banco, na fila do restaurante e nos orelhões, pessoas - jovens na maioria - de sotaque diferente carregam pesadas mochilas nas costas e andam quase sempre em grupos. São sorridentes, amáveis, interativas e não dispensam uma prosa. Antes que me perguntem o que esses jovens sorridentes e amáveis fazem aqui na tribo, adianto que eles estão participando do XIV Encontro Nacional de Geógrafos, que teve início domingo e termina nesta sexta-feira, promovido pela nossa gloriosa Ufac. São centenas deles. Vieram de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Mato Grosso (do sul e do norte), Goiás e outros Estados brasileiros. Foi a conclusão a que cheguei quando vi a placa dos ônibus que passam o dia estacionados no campus, enquanto os motoristas esperam a turma voltar do evento tomando tererê ou chimarrão e jogando conversa fora. Anteontem de manhã, lá pelas sete e pouco, três desses pesquisadores “do Sul” - dois rapazes e uma moça - vinham uns dez passos atrás de mim na passarela perto do anfiteatro. Debatiam em voz alta sobre baixaria, açaí e tacacá. Este último, a propósito, foi o menos cotado da lista, com cinco por cento das intenções de voto, enquanto a baixaria, muito apreciada nesse período de eleições, arrasou na preferência. Vitória de goleada no primeiro turno. Reduzi a marcha e, pam!, entrei de gaiato na confraria. Viramos amigos antes da metade do diálogo. Um deles, de cabelos longos que mais me lembravam um jogador da Argentina, foi logo me entregando uma câmera digital para eu tirar o retrato do grupo. Um desafio e tanto! Fechei os olhos, apertei o dedo e clique! Examinaram o visor do equipamento e, elegantemente, insinuaram que eu poderia investir na profissão de fotógrafo. Confiei neles. Papo vai, papo vem, confesso que me emocionei quando a moça, já se despedindo, emendou: “Ouvi dizer que quem bebe da água do rio de vocês costuma voltar. No meu caso, bastou olhar o rio para dar vontade de ficar!”. Aí mexeu com este ancião. Dei tchau e corri para o computador, onde suei às bicas para registrar este orgulhoso testemunho. Olha, podem dizer sem cerimônia que eu sou lindo, inteligente e competente. Apesar de convencido, esqueço o galanteio em segundos. Mas se existe algo que me deixa a dois metros do chão, sem fôlego, todo besta, é quando alguém enaltece o lugar que escolhi para nascer. Um acontecimento desses de fato me tira a preguiça de escrever. Fico exultante de verdade. Pois o Acre é assim, minha gente. Lugar de pessoas lindas, inteligentes, competentes e hospitaleiras (permitam-me, presunçosamente, incluir-me nesse espaço). Só Deus é capaz de explicar que encanto existe aqui para atrair os que pisam este solo e os prende nessa floresta tropical de exuberância inominável. Só Deus. Se eu abrir a porta da sala agora e der uma espiada na cantina, que fica bem perto daqui, verei uma porção de jovens de mochila nas costas comendo tapioca, tomando suco de cupuaçu e gesticulando com os nativos. Parece que se conhecem há décadas. Acreano não nega o vínculo nordestino. Topa qualquer conversa a qualquer hora. Fazer amizade, pare ele, é tão natural como descascar uma banana. É isso que os nossos amigos de outras regiões nunca vão deixar de admirar. Então, se desejam ficar, sintam-se convidados! Antes que me perguntem de onde eram os três companheiros a que me referi no início, eles disseram ser de Cuiabá, rigorosamente no centro da América do Sul. Bom, pelo menos no fator temperatura temos profunda afinidade. * Jornalista |
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