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Propriedade modelo

Tecnologias desenvolvidas pela Embrapa influenciam produtores na fronteira entre Brasil e Peru

Cedida
Arborização: sombra reduz
estresse térmico e ajuda a aumentar a produtividade do rebanho


Soraya Pereira
Especial para o Página 20

Assis Brasil é uma pequena cidade acreana de cinco mil habitantes na fronteira do Brasil com Peru e Bolívia a 340 km da capital Rio Branco. A construção da Estrada para o Pacífico, cujo trajeto brasileiro já está pronto, promete mudar a rotina dos habitantes por tirá-los do isolamento e os primeiros a se preocuparem são os pequenos produtores. Eles não querem ficar de braços cruzados enquanto produtos acabados vindos de outros estados passam na frente da porteira.

O município tem relevo acidentado e pouca oferta de água. Por isso, alterações inadequadas podem comprometer a disponibilidade de recursos naturais. Uma ação concreta e que está influenciando a redondeza é a montagem de uma propriedade modelo que emprega oito tecnologias acessíveis ao pequeno produtor de leite.

Elas foram desenvolvidas e adaptadas nos últimos 30 anos pela Embrapa Acre (Rio Branco-AC), unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e têm mostrado eficiência em várias comunidades. A iniciativa conta com o apoio da Seater, Senar, Sebrae, Projeto Fogo, Associação de Produtores Agrícolas Agronorte e Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

Manoel da Silva Cunha, dono da Colônia Nova Esperança, aceitou o desafio de modernizar a propriedade e na última semana mostrou para cerca de 150 pessoas, entre elas uma comitiva de técnicos e produtores rurais peruanos, os primeiros resultados.

Há quase um ano, Cunha e um grupo de pesquisadores e técnicos investiram na seleção e melhoramento genético do rebanho bovino. O descarte de animais improdutivos ajudou a dirigir recursos à infra-estrutura da propriedade e as 10 melhores vacas foram inseminadas com sêmen de reprodutores de boa linhagem. “Meus meninos aprenderam melhor que eu e já estão inseminando as vacas dos vizinhos”, conta Cunha ainda ansioso pelo nascimento dos bezerros a partir de novembro.

A introdução de boas práticas na ordenha manual e a estruturação de um curral com sala de ordenha e bezerreiros ainda causa estranheza entre muitos pequenos produtores. No entanto, o testemunho de Cunha reafirma a necessidade. “Sem higiene, a vaca corre risco de adoecer com a mastite, por exemplo, e aí pára de produzir. E um leite contaminado não tem preço no mercado”. Os novos processos foram introduzidos sob orientação do pesquisador Francisco Aloísio Cavalcante. Hoje, Cunha vende a R$ 0,80 o litro de leite na porteira.

Outra iniciativa concentrou-se no pastejo rotacionado, tecnologia que pode aumentar a capacidade de suporte das pastagens entre 20% e 50%. A área de pastagens da propriedade foi dividida em dois módulos, uma para vacas em lactação e outro para gado solteiro, e cada módulo foi subdividido em cinco piquetes onde o gado permanece pastejando por uma semana. ”Nesse sistema, há maior controle do uso do pasto, o rebanho torna-se mais dócil e minimiza-se os problemas com plantas invasoras”, esclareceu o pesquisador da Embrapa Acre, Carlos Maurício de Andrade, líder do projeto.

A divisão das pastagens só foi possível graças à cerca elétrica que baixou de R$ 3.500 para R$ 1.200 o quilômetro de cerca instalada. “Com a tradicional não daria para fazer tudo isso. A elétrica é mais fácil de instalar, usa materiais mais baratos e pede menos estacas”, acrescentou Cunha.

O pasto também recebeu atenção com a introdução de gramíneas adaptadas a região e recomendadas para solos bem drenados ou encharcados em consórcio com leguminosas como o amendoim forrageiro (Arachis pintoi). Para cada solo há um tipo de capim. Em áreas alagadas é interessante trabalhar com os capins tanner-grass (Brachiaria arrecta) ou tangola (B. arrecta x B. mutica). Em outras pode-se usar os capins tanzânia e mombaça (Panicum maximum) ou a braquiária humidícula (B. humidicola). “A diversificação e o consórcio aumentam a oferta de proteína, otimizam o uso do pasto e reduzem a incidência de pragas e doenças nas pastagens”, afirmou o pesquisador Judson Valentim que tem acompanhado de perto o fenômeno da morte do capim braquiarão no Vale do Acre em função da incompatibilidade da gramínea com solos mal drenados.

Por falta de informação e políticas públicas adequadas, a Amazônia tem hoje cerca de 55 milhões de hectares desmatados. Metade desta área está degradada ou abandonada em função do uso inadequado dos recursos naturais. Essa dinâmica impulsiona o ciclo de derruba e queima de florestas nativas apesar de toda a pressão ambiental. O esforço para difundir práticas sustentáveis e acessíveis a pequenos produtores pode reverter esse quadro.

Pecuária descobre o valor da árvore

A pressão ambiental e no bolso do produtor têm feito pecuaristas mais tecnificados investirem na arborização de pastagens. Aos poucos, a prática tem sido seguida por pequenos produtores. É que as pesquisas descobriram que o conforto térmico gerado pela sombra das árvores aumenta a produtividade do rebanho que fica menos agitado e passa mais tempo em repouso, comportamento necessário para a engorda.

Espécies leguminosas e de crescimento rápido produzem vagens ricas em proteína e apreciadas pelo gado. Uma ajuda em tanto na complementação da dieta durante o período seco. Cunha plantou 250 pés de baginha (Stryphnodendron guianense) e bordão-de-velho (Albizia sp.) em 20 hectares. “Eu plantei as mudas perto de restos de toco no pasto. Assim elas ficam protegidas do pisoteio e bem distribuídas no piquete”.

As árvores ajudam a proteger as nascentes, protegem os cursos d´água e promovem a ciclagem dos nutrientes das camadas mais profundas do solo para a superfície. Para Valentim, elas também podem significar fonte de renda no futuro. “A madeira será muito valorizada nas próximas décadas porque a floresta está encolhendo e seu acesso é cada vez mais difícil e oneroso”.

Na ponta do lápis

A duras penas, Cunha também aprendeu a importância de anotar para saber se está ganhando ou perdendo dinheiro. Quanto cada vaca produz, duração da lactação, intervalo de partos, taxa de inseminação, idade do rebanho, desenvolvimento dos animais, controle sanitário, custos de produção e outros dados passaram a ser ferramentas de decisão. “Não é fácil, mas não tem outro jeito”.

A percepção de uma nova realidade cruzou a fronteira. “A carreteira muda a vida da gente. Não temos tecnologia e precisamos aprender a usar melhor a terra para sobreviver”, disse Vitor Carreru Tuanama, pequeno produtor peruano ao comentar que sua produção leiteira mal dá para o consumo familiar e que no comércio de Inhapari, primeira cidade peruana após a fronteira, já estão presentes laticínios de outras regiões. Tuanama estava com a comitiva peruana que acompanhou o Dia de Campo.

Tempo de vacas magras

O período seco é crítico para quem não está preparado. No ano passado, durante a pior estiagem dos últimos 40 anos no Acre, muitos produtores viram o gado morrer de fome. Para se livrar desse dilema, Cunha acatou a sugestão de investir em cana e uréia e teve a grata satisfação de ver a produção média diária de leite mantida.

Um hectare produz 120 toneladas de cana por ano que é suficiente para manter 50 animais no período seco. De fácil implantação e baixo custo de produção, a variedade SP 79-1011, recomendada pela Embrapa Acre, tem alto teor de sacarose e é uma importante fonte de energia na dieta. A uréia completa a suplementação. O ruminante transforma a fonte de nitrogênio em proteína. A combinação é a principal alternativa de baixo custo para o período seco, mas ainda é pouco empregada na região Norte.

Produtor precisa de informação e assistência

“O produtor não tem muita resistência à adoção de tecnologias. O problema é que falta informação para assimilar o conhecimento”. A afirmação é do técnico Jarbas de Freitas, que atua em Senador Guiomard, a 20 km de Rio Branco. Segundo ele, vários produtores do Vale do Acre já ouviram falar ou fazem uso de alguma das tecnologias apresentadas no Dia de Campo, como a cerca elétrica, mas sem o acompanhamento freqüente, muitos acabam desistindo do processo.

A opinião também é compartilhada por Clóvis Brasileiro, da Patcha Mama Amazônia, ONG parceira da Embrapa Acre que atua junto a pequenos produtores para redução do volume anual de queimadas e incremento de uma pecuária sustentável em 11 municípios. “O processo é lento e precisa ser contínuo para vencer a inércia. Hoje, aos poucos e com o apoio das parcerias estamos conseguindo transformar ações como essas na colônia Nova Esperança em políticas públicas”.

Amendoim forrageiro: das altitudes bolivianas para o mundo

Há milhares de anos, o amendoim forrageiro era encontrado na forma de arbustos a 2 mil metros de altitude em terras bolivianas. A domesticação e expansão para outras regiões feitas por nossos ancestrais fizeram com que a leguminosa chegasse à Bahia e de lá, na década de 1950, seguiu para as pastagens da Austrália e Estados Unidos onde é empregada na criação de bovinos, suínos, aves, ovinos e eqüídeos.

Geraldo Pinto, em 1954, foi um dos primeiros pesquisadores a trabalhar com a leguminosa coletada junto à foz do Rio Jequitinhonha, em Belmonte (BA). Desde então, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), em Ilhéus (BA), e a Embrapa têm pesquisado formas de melhoramento genético e introdução nas pastagens.

O amendoim forrageiro tem até 22% de proteína bruta – os capins apresentam de 9% a 10% -, e alta palatabilidade. Estudos mostram que o consórcio com gramíneas pode aumentar a produtividade de leite em até 20%.

Outra vantagem é a excelente cobertura do solo, mantendo-o protegido da lixiviação e erosão, além de fixar de nitrogênio por conta da simbiose com bactérias presentes nas raízes. A Embrapa Acre trabalha com a cultivar Belmonte que se estabelece pelo plantio de estolões no período chuvoso. Em 2008, a unidade lançará uma variedade cuja multiplicação é feita por sementes.

 

 

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Rio Branco-AC, 21 de setembro de 2006
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