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Diálogo entre saberes
Estou falando da Biblioteca da Floresta Marina Silva aberta ao público de Rio Branco no começo da semana. Quarta à noite, 17, a instituição promoveu em seu auditório uma palestra da doutora em Antropologia, Lúcia Helena de Oliveira Cunha, sobre o tema “Diálogo entre Saberes”. Na manhã seguinte dois chefes índios Ashaninka (Shãsha e Txeni) e dois lideres seringueiros (Raimundo Barros e Júlio Barbosa), narraram com profundidade aspectos da vida na floresta. Ou seja: narraram como se processam na prática os saberes tradicionais enraizados na vida acreana. O jogo da seleção brasileira contra a seleção do Equador no Estádio Maracanã, que aconteceu no mesmo horário da palestra de quarta-feira, não impediu e maciça presença de uma educada e curiosa platéia. Que alívio! Lúcia Helena discorreu sua tese de doutorado sem aborrecer ninguém. Vou tentar traduzir o que ela falou: Na opinião de muitos sabichões do mundo, “tradição e modernidade” são vistas de modo linear, como momentos sucessivos do processo histórico: nessa forma de olhar, a modernidade representaria estágio superior da vida humana. Em contrapartida, as chamadas formas tradicionais de produção são concebidas como atrasadas, estacionárias, superadas historicamente pelos “avanços” da modernidade. Nascida em Curitiba (PR), Lúcia (54) veio para o Acre numa leva de professores contratados pela UFAC em 1980, portanto, quase 30 anos mais jovem. Ainda vivíamos sob a ditadura militar. E ela parecia ter saído de um convento, usando óculos de grau e saias longas de pano grosso. Mas o Acre a metamorfoseou. Em pouco tempo era possível encontra-la entre o “forró do SESC”, os bares Casarão e Girau, e a “esquina do pecado” no bairro do Bosque.
De fato, a UFAC se engajou no movimento contra o desmatamento e em defesa dos povos da floresta liderados por Wilson Pinheiro e Chico Mendes, promovendo noites mal dormidas para o reitor “militarizado” Aulio Gélio Alves da Silva. Entre ex- alunos da professora metamorfoseada figuram Marina Silva (ministra), Júlia Feitoza, Antônio Alves, Binho Marques (governador) e Fátima Almeida, que com ela dialogaram ensinando e aprendendo. Quando voltou para sua Curitiba, em 1982, para fazer mestrado e doutorado, Lúcia tinha mergulhado na vida acreana o bastante para carregar consigo uma enorme saudade. Durante a longa ausência do Acre, entretanto, ela não se despregou dos fios invisíveis da vida que a ligaram aos povos da floresta. Por isso ensina, agora, com sabedoria e paixão: “A tradição é algo que se move e transita no tempo; algo que é entregue de geração a geração, ainda que atualizado (ou re-significado) no fluxo da história”. Ou: “Transitando no tempo e no espaço, o conhecimento dos povos da floresta se expressa em processos de transmissão desse conhecimento de geração a geração, no ato de observar e escutar os mais velhos – pelo menos as gerações mais próximas”. “Se há linhas de descontinuidades na transmissão desses saberes”, acrescenta Lúcia, “não abrangendo mais – transversalmente - as várias gerações, o saber fazer integra a cultura secular ou milenar dos povos da tradição ainda que dotado de significados novos”. Isso parece difícil de entender, porque a chamada modernidade passou a ser tratada como conhecimento das ciências e da academia se opondo ao conhecimento das tradições. Também porque ao capitalismo, que se apropria e comanda os saberes da modernidade, convém que a tradição pareça algo que ficou para trás, juntamente com os seres humanos rotulados de “inferiores”. A Biblioteca da Floresta Marina Silva se propõe ajudar a destrinçar essa coisa. Após a palestra de Lúcia Helena, a instituição ouviu dois chefes indígenas Ashaninkas (Sãsha e Txeni) e dois ex-seringueiros (Raimundo Barros e Júlio Barbosa). O que eles falaram e o que Lúcia falou – coisas verdadeiras e profundas – vão estar disponibilizados no site www.bibliotecadafloresta.ac.gov.br a partir de quinta-feira. Um grupo de estudiosos discute e organiza o programa de atividades para difundir o diálogo entre os saberes. Fará isso estabelecendo parcerias com representantes da tradição e da modernidade. O espaço em si da biblioteca, com salas de exposição, leitura e pesquisas, já sugere um diálogo novo e profundo para o qual são orientados 35 estagiários, além dos técnicos que assessoram o diretor Edegard de Deus, biólogo e ex- secretário do Meio-Ambiente que se diz renascido na nova função. O professor historiador e ex-deputado federal Marcos Afonso, integrante do grupo encarregado de organizar os “diálogos da Florestania”, comparou seu novo espaço de trabalho com a biblioteca de Alexandria que, 300 anos antes de Cristo, juntou todo o acervo cultural existente na época e espalhou saberes pelo mundo antigo durante 900 anos. Marcos observou que na arquitetura da Biblioteca da Floresta existem duas pirâmides reforçando a semelhança com Alexandria. Correio (Do blog do jornalista Altino Machado) A carta abaixo foi enviada originalmente para um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Acre por duas jovens formadas pela Escola da Floresta Roberval Cardoso, em Rio Branco (AC): “Estimadas Ana Euler e Elsa Mendonza, Estamos aqui para lhes pedir ajuda. Sou a Juceli, ex-assistente de campo da Amy Duchelle. Não sei se ainda lembram de mim, mas Amy já me apresentou a vocês. Eu e Marciane, a outra ex-assistente de campo da Amy, também já apresentada a vocês, fomos aprovadas em agronomia pela Universidad Earth, na Costa Rica. Porém, trata-se de uma faculdade privada, e ganhamos apenas 50% da bolsa. Não temos condições de financiar nossos estudos. A Marciane é filha de agricultores, que vivem somente da agricultura de subsistência. Meus pais, infelizmente, encontram-se desempregados. Ambas as famílias não têm condições de pagar uma faculdade aqui, muito menos fora daqui. Então seria uma grande oportunidade em nossas vidas: conseguirmos um curso superior, especialmente na área que tanto gostamos e trabalhamos com prazer. Já sou técnica agroflorestal, e a Marciane também, formadas pela Escola da Floresta Roberval Cardoso. Porém, o que gostaríamos de saber é se vocês conhecem alguma empresa, organização não governamental, ou algum órgão que possa financiar nossos estudos. Nos comprometemos, ao término do curso, prestar nossos serviços a quem possa nos ajudar agora, pelo período em que durar o financiamento. Já procuramos alguns órgãos do governo estadual, prefeitura e Embrapa. Infelizmente não fazem esse tipo de trabalho. Não percebi interesse deles em nos ajudar. Foi mais ou menos isso o que senti da parte deles. Estamos enviando em anexo as condições de pagamento que a faculdade no propõe. Desde já ficamos agradecidas. Abraços. Juceli e Amy” ◙ A carta das duas técnicas foi enviada ao blog (altino.blogspot.com) pelo pesquisador acreano Carlos Valério Gomes, 38, que já obteve seis bolsas de estudo no decorrer de sua carreira. Durante a semana, a proeza do acreano foi destaque na Folha de S. Paulo. Não deixe de ler aqui. A Universidad Earth ocupa o terceiro lugar na lista de 15 universidades “verdes” publicada pela Grist, revista eletrônica independente de jornalismo ambiental. Veja a resposta que o pesquisador enviou às duas jovens: “Estou aqui, em Belém, pensando em possibilidades de como ajudar vocês para conseguir a bolsa para a Costa Rica. Muito legal que as duas, como ex-estudantes da Escola da Floresta, esteajm correndo para continuar a formação. Acho que vale a pena pensar em buscar apoio do governo, para os passos seguintes de ex-estudantes da escola que o governo criou. Vou enviar a mensagem para o blog do jornalista Altino Machado, que é muito sensível para questões assim. Quem sabe, caso ele decida divulgá-la, alguém se sensibilize com o esforço de duas estudantes da Escola da Floresta aprovadas em um programa na Costa Rica, com a metade dos custos pagos. Isto talvez sensibilize setores do governo da floresta. Enfim, quando chegar em Rio Branco, na segunda-feira, a gente pode conversar mais. Abraços e parabéns.” |
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