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Negócio divertido e produtivo Proteção de tracajás estimula empreendedorismo ambiental nas aldeias |
![]() Soltar tracajás na aldeia Porto Rico se transformou em um ritual concorrido |
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Os índios Kaxinawás, que por tradição sempre caçaram tracajás e seus ovos para comer, agora estão protegendo praias, coletando ovos e cuidando deles para recolher seus filhos e tratar deles em berçários para aumentar as chances de sobrevivência desses animais quando forem soltos nos rios e lagos da região. Esse trabalho vem sendo feito pelos índios de 12 aldeias kaxinawás localizadas na Terra Indígena do Alto Purus. Para chegar lá, a partir de Sena Madureira, gastam-se seis dias de batelão ou dois de voadeira. O projeto de Manejo Participativo de Tracajá, Tartaruga e Iaçá da Terra Indígena do Alto Purus foi idealizado pela engenheira agrônoma e pesquisadora, Silvana Lessa, a qual orientou durante quatro anos criações comerciais de tartaruga e tracajá, também no Parque da Serra do Divisor através do Ibama. Na área da pesquisa é a descobridora do muçuan banana, que só existe na área do Parque Chico Mendes, em Rio Branco e veio somar-se às 21 espécies conhecidas dessa tartaruga no mundo. “Sempre que trabalho com manejo ambiental entendo que ele tem de ser complementado pela educação ambiental para que as pessoas tenham consciência da necessidade da preservação e da importância disso para melhorar a qualidade de vida delas mesmas. Digo isto até porque quem executa projetos como este não é o técnico, mas uma comunidade de pessoas que antes se dedicava à caça predatória desses animais e agora se tornam criadores, por isso precisam entender o projeto como deles e não nosso porque estamos lá para orienta-los e apóia-los”. Atuando junto ao serviço de Manejo e Animais Silvestres da Secretaria de Assistência Técnica e Extensão Rural (Seater), Silvana teve o projeto apoiado pelo Serviço Brasileiro de Apoio à Pequena e Média Empresa (Sebrae) que está investindo nele R$ 464 mil ao longo deste ano. Ele está sendo executado ao mesmo tempo em 12 aldeias kaxinawás onde vivem 233 famílias num total de 1.339 pessoas. Há ainda, a comunidade não índia do Lago Novo, localizado na área do antigo Seringal Santa Helena, em frente à terra indígena do Purus, onde quatro famílias, num total de 20 pessoas, coletam ovos e criam seus filhotes. “O que temos nessas aldeias é o início de um trabalho de empreendedorismo ambiental com um grande potencial de sucesso. Isto porque através dele, além de preservarem sua fonte de alimento, os índios estão gerando ocupação e com os tanques de criação vão obter renda para melhorar suas condições de vida. Nosso objetivo é implantar três planos de manejo nas regiões do Vale do Purus e do Juruá”, explicou Domingos Leão do Amaral Júnior o coordenador do Projeto de Aqüicultura do Sebrae do Acre. O veterinário Antônio Messias Costa, mestre em saúde e manejo de animais silvestres e curador de Fauna do Parque Zoobotânico do Museu Emílio Goeldi, em Belém no Pará esteve visitando a área do projeto, a convite do Sebrae, durante esta semana. “Este trabalho está n início, mas os primeiros resultados já são bastante animadores. Ele inova quando propõem um sistema de empreendedorismo ambiental, nele, o índio passa de predador a criador de tracajá. Assim conseguimos atingir três objetivos básicos que são o de garantir alimento para essas comunidades, a preservação dessa espécie e ainda a geração de renda já que também vão criar parte dos animais para consumir e até vender”. Mudança de hábito A extensionista da Secretaria de Assistência Técnica e Extensão Rural (Seater), Maria Nogueira de Queiroz responsável técnica pelo manejo participativo que vem sendo realizado no Alto Rio Purus esclareceu que: “A primeira coisa que tivemos de fazer foi a sensibilização destas comunidades para o fato de que o número de tracajás que sobem e desovam ao longo do Rio Purus é cada vez menor o que faz escassear uma de suas fontes de alimento. Entramos num acordo para que possam continuar comendo um terço dos ovos de tracajás recolhidos nas praias protegidas, o restante é levado para berçários protegidos onde podem nascer e ser cuidados em segurança”. Embora comam parte dos ovos, o simples fato de cuidarem de parte das crias faz com que o aproveitamento das ninhadas seja muito maior do que na natureza aonde apenas um em cada mil filhotes chega à idade adulta. “O maior risco para o tracajá acontece nos primeiros 30 dias quando nós o mantemos nos berçários até que seu umbigo fique totalmente cicatrizado. Na natureza, eles saem do ninho e entram direto no rio, o cheiro do umbigo atrai peixes e outros predadores que devoram a maioria deles assim que entram na água”. Nem tudo é fácil A terra indígena do Alto Purus fica localizada do lado direito do rio Purus onde moram os kaxinawás e Kulinas, já do lado esquerdo moram comunidades não índias. Todos têm o hábito de recolher ninhadas para comer os ovos e matar tracajás para comer assados ou cozidos. O Agente Agroflorestal Indígena (AAI), Jorge Domingos Kaxinawá, 34 anos, pai de sete filhos, morador da aldeia Nova Fronteira, a mais antiga dos kaxinawás no Purus recolheu 115 ovos de tracajás em seis covas e deles conseguiu obter 66 filhotes porque teve alguns problemas com o apodrecimento além do ataque de fungo e formigas. “A maior dificuldade que encontramos foi para fazer este trabalho que a gente nunca tinha visto. Antes a gente ia na praia, recolhia os ovos e matava os bichos para comer, agora que eles estão acabando a gente tem que cuidar deles”, relata ele antes de fazer um desabafo: “Nós entendemos a necessidade de cuidar dos tracajás, mas o rio não é só nosso, nossos parentes, os Kulinas que vivem aqui e também passam pelas nossas praias já disseram que não querem ajudar e não gostaram da gente dizer que não era para recolher os ovos que estavam aqui. Também tem o pessoal que passa de barco à noite e entra na praia para pegar os bichos”. Dentre as 12 aldeias, as que alcançaram maior sucesso na reprodução dos tracajás foram a Nova Fronteira e a Porto Rico. Nesta última, o AAI, Tomaz Rodrigues Kaxinawá, 32 anos, pai de cinco filhos recolheu 435 ovos dos quais tirou 278 filhotes. “Nós cuidamos de nossa praia, mas ainda tem muita gente roubando ovos e caçando os tracajás. Dos 435 ovos que eu recolhi 157 não vingaram, a maioria deles eram ovos que não tinham sido fertilizados por falta de machos. Se está faltando machos é porque caçaram demais”. Tomaz relatou ainda que: “A gente está fazendo este trabalho de preservação porque entendemos que se não for assim, talvez nossos filhos só venham a conhecer tracajás através de histórias contadas pelos mais antigos. Mesmo cuidado deles nós não deixamos de comer a carne cozida ou assada, nem fazer ovos cozidos e o nosso tradicional arabu que é feito misturando o ovo com açúcar e farinha. A gente come, mas come menos para não acabar”. “Branco” também ajuda Eder Torres da Silva, 25 anos, pai de dois filhos, o “Branco”, lidera a comunidade de quatro famílias não índias que estão realizando o trabalho de coleta dos ovos de tracajás junto ao lago novo que fornece alimentação para 20 famílias durante o ano inteiro. Ali, volta e meia, pirarucus vêm à tona para respirar dando uma noção da vida exuberante no lago. “Moro aqui desde 1988 e antes de construírem a cidade de Santa Rosa existia muito mais tracajás e até tartarugas por aqui. Eles passam com os barcos e invadem as praias à noite para recolher os ovos e caçar os bichos, por isso o número de tracajás caiu muito, as tartarugas viraram raridade de que a gente só ouve notícia de vez em quando”, explica Branco. Acompanhado pela mãe, Maria Mirtes Torres de Nóbrega, 51, mãe de seis filhos, Branco recolheu 229 ovos em dez ninhos nas três praias próximas ao lago, das quais nasceram 135 filhotes porque parte dos ovos foi atacado pelas formigas, um dos inimigos naturais dos filhotes. “Quero ver este rio com muito tracajá e tartaruga de novo, por isso pedi para participar deste trabalho. Faz anos que não vejo uma tartaruga, mas logo que cheguei aqui, tirei um ninho com 160 ovos, isto era uma fartura”. |
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