OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Sem definição

Não interessa, um nome nem seria uma imagem, sequer um número, um instante que não se perdeu. Um nome é só um registro passageiro, de quem diz Zé, Chico ou Mané, falando por falar, para deixar estar. Cá, no mistério das matas, o nome é detalhe, interessa o proceder, a mensagem, o rumo do olho. Como canoa no meio do rio, tendo que resolver para onde vai, que ficar não pode. Indiferente mais o rio, que segue viagem, sem sair do lugar, sem deixar de estar. O rio é a vida que fica, fingindo ir.

No olhar um qualquer engano, uma qualquer desculpa, umas tantas paixões incertas, incertas de tão grandes. Ela disse-me assim, para ver o ritmo, não olhar sem vontade. No olhar seguinte estacionar, vou não vou me apaixonar. Cá, no verde das matas, paixão não é só momento, nem passa logo, ainda que depois siga feito água. O rumo das águas está por trás do olho, depois do mistério, acima dos detalhes que vão ficando de lado. Interessa a mensagem da floresta, o registro da vida simples e resolvida.

Cada aldeia não é só identidade, é proceder, é saber seguir, sempre avançando o varadouro. Como castanheira, no rumo de cima. É ar verde, chuva de verdade, entardecer com moldura, boca da noite sem limites, amanhecer que dá motivos ao mundo. Razão para seguir e para ficar, enquanto o sol de todas as coisas afoga-se e permite a noite, apresenta a lua, tantas estrelas, uma imensidão nos olhos de mulher. Cá, na beira do céu, tanto faz o nome, a mensagem é enfeitada e não cabe na definição.

Outro sol vem já. Cores, sons, cheiros, sabores espalhados, viventes e visagens, a viagem segue, o rio volta na chuva, o mato não se acaba em tanta porta, as poções não esgotam as visões e há a precisão da mulher em volta de tudo. Avoante, rastejante, navegante, tudo mistura, feito poesia, feito assombração, no meio de tanta colocacão, a floresta é a margem do encanto, enquanto me dou tua mão e passo da noite, quase passo da vida, sem querer definir. E nossa vida está à beira disso, disso tudo que cala.

Mas naquela hora, quando ela disse algo assim, quando aquilo tudo calou em mim, procurei um nome para dar ao momento, prendi o esquecimento para não sair do instante, para tudo ser aquele instante e não passar dali, não escapar. Cacei motivo para ainda seguir, abracei a indefinição, a lança feriu a carne, a vida saltou do verde. Não há nome para isso e aqui, na beira do rio, à margem da floresta, de frente para a imensidão, não há mesmo definição possível para algo assim. Então, tudo isso cala.

 

 
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Rio Branco-AC, 21 de novembro de 2004
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