| ESPECIAL | |
| PAPO DE ÍNDIO | |
No tempo das Invasões Peruanas |
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Inicio o segundo papo da nova série, dizendo que não partilho dessa paranóia toda que cancelou o Encontro de Pucallpa, onde integrantes do Governo da Floresta e do Departamento do Ucayali, bem como representantes de Ongs e lideranças indígenas, daqui e de lá, iriam discutir possibilidades concretas de cooperação em relação aos usos dos recursos naturais em áreas de fronteira. Uma boa ocasião para se ter discutido também as invasões peruanas em território acreano, promovidas por peões da indústria madeireira de Pucallpa que continuam saqueando madeiras nobres, especialmente aguano (mogno ou caoba) e cedro na TI Kampa do Rio Amônea e no Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD).
Recentemente, uma diligência do glorioso Exército brasileiro, Polícia Federal e IBAMA prendeu 38 peões da indústria madeireira de Pucallpa, a maioria deles no interior do PNSD. Na realidade, todos os presos são uns miseráveis e ignorantes campesinos, aventureiros, esfarrapados e estropiados. Tudo com cara de índio, sem identidade étnica e carteira de identidade. Dizem que estão com as costas lascadas de tanto carregar toras e pranchas de mogno e cedro. Também estão cansados de empurra-las manualmente com ajuda de equipamentos primitivos, aqueles mesmos que os Ashaninka utilizaram para transportar o navio de Fitzcarrald de um afluente do Alto Ucayali para outro do vale do rio Madre de Dios, no tempo do auge do caucho, no início do século passado. Pois bem, estive recentemente em SAWAWA, aldeia Ashaninka do alto rio Amônia, em território peruano, situada nas proximidades do marco 40 da linha de fronteira acreano-peruana. Fui lá na maior tranqüilidade, um pouco antes das prisões desses "mulas" das madeireiras de Pucallpa. As principais lideranças de Sawawo - Carlos Paredes Aba, Luis Carlos Campo, o Careca, e seus irmãos João Campo e o pajé Pedrinho Campo -receberam-me muito bem em suas casas. Ninguém me olhando como suspeito de nada, tampouco com desconfiança como se fosse um espião. Aqueles que não me conheciam, especialmente os Ashaninka de outras regiões do Ucayali e Hene Pangia, sabiam que era amigo do pajé Pedrinho, onde me hospedei e dormi duas noites, uma delas tomando cipó com ele, só nós dois. Os outros Ashaninka de Sawawo, disse-me o pajé Pedrinho Campo, deixaram de praticar o ritual da ayahuasca, sobretudo depois que passaram a trabalhar na exploração predatória de madeiras de lei em suas florestas. Deixaram de tomar cipó "porque eles podem levar uma peia danada, como você sabe o chá da ayahuasca não é brincadeira, não", acrescentou.
O nome comercial da empresa peruana que explora madeiras nobres nas cabeceiras do rio Amônia, inclusive saqueando-as da TI Kampa do Rio Amônea e do PNSD, é FLORESTAL VENAO SR LTDA, cuja sede fica em Pucallpa, capital do Departamento do Ucayali, onde possui uma grande serraria e exporta especialmente mogno e cedro para os Estados Unidos e outros países do primeiro mundo. Aliás, os Ashaninka de Sawawo têm os donos dessa empresa em alta estima, dentre outros motivos, dizem, "porque tudo que prometeu e combinou conosco, cumpriu com a palavra". As lideranças de Sawawo mostraram-me "permiso" (licenciamento) ambiental concedido pelo INRENA, o Ibama deles, para exploração florestal madeireira nas proximidades da fronteira internacional. E também cópia do plano de manejo aprovado pelo Ministério da Agricultura peruano Quem ler esses documentos nem imagina que parte dessas madeiras foi saqueada das matas dos Ashaninka do lado brasileiro e no interior do PNSD. Os Ashaninka de Sawawo Hito 40, nome oficial desta "comunidade nativa", não me esconderam nada. Eles fizeram, inclusive, questão que lesse o documento oficial da demarcação física de sua terra indígena, situada na margem esquerda do alto rio Amônia. A nova terra Ashaninka do lado peruano, com 37.000 ha, limita-se com a linha da fronteira internacional e, conseqüentemente, com a TI Kampa do Rio Amônea e com pequena área do extremo sul do PNSD. Todas as articulações para o reconhecimento oficial de sua terra, junto ao governo peruano, foram feitas pela AIDESEP, organização indígena com sede em Lima e escritório de representação em Pucallpa. Li cópia de um outro documento em que assumem compromisso com o INRENA e Ministério da Agricultura de plantar 10 mil pés de mogno e cedro nos "caminhos florestais" abertos pelas máquinas pesadas e tratores da Florestal VENAO, que exploraram madeiras nobres nas matas brutas de suas florestas. Afirmaram ainda que "o permiso ambiental" só foi conseguido depois de fortes pressões políticas organizadas por líderes Ashaninka e Jaminawa dos altos rios Amônia e Juruá, do lado peruano da fronteira, que estiveram em Pucallpa e Lima. Na capital peruana, esses líderes indígenas foram também recebidos pelo Ministro da Agricultura, depois de amplas matérias divulgadas em jornais, rádios e canais de televisão denunciando o isolamento social, político e econômico de suas comunidades, E tudo custeado pela empresa VENAO. Deram-me de presente as fotos que ilustram esse Papo. Numa delas, esses líderes indígenas aparecem todos juntos, vestidos de cusmas, txoski, chapéus de pena, pintados de urucu, todos bem paramentados, em frente ao Congresso Nacional peruano, onde foram exigir uma saída para o isolamento em que se encontram nas cabeceiras dos rios Amônia e alto Juruá.
Visitando as comunidades APIWTXA e SAWAWO, ambas situadas à margem esquerda do rio Amônia, uma no Brasil e a outra no Peru, percebi que suas lideranças atuam como uma imagem invertida do espelho. Enquanto na primeira, seus líderes costumam ir, todos bem paramentados e pintados de urucum, às cidades de Rio Branco e Brasília denunciar as invasões de madeireiros peruanos em suas terras e, conseqüentemente, do território nacional, propondo ainda um modelo de desenvolvimento econômico, ambiental, social e culturalmente sustentado para a região do vale do Alto Juruá acreano. Os Ashaninka de Sawawo e do Alto Juruá, por sua vez, também costumam ir a Pucallpa e Lima, com trajes a rigor e pintados de urucum, a cor sagrada dos Ashaninka, propondo a integração econômica com o "capital financeiro estrangeiro" no sentido de colocar recursos no ramo florestal, que os tire do isolamento em que se encontram. E ainda pela liberação das atividades madeireiras nas terras de suas comunidades, com licenciamento ambiental e plano de manejo aprovado pelo INRENA. Tudo isso me faz pensar, que só essas prisões desses 38 peões peruanos não resolve o problema das invasões na terra dos Ashaninka da APIWTXA e na área sul do PNSD. É preciso mais do que isso, como a de criar espaços amplos de discussão entre autoridades brasileiras e peruanas, com participação dos Ashaninka da APIWTXA e de SAWAWO, e ainda das comunidades Jaminawa e Ashaninka do alto Juruá peruano. É preciso muita diplomacia para impedir que o INRENA e o Ministério da Agricultura peruanos continuem permitindo e licenciando a exploração predatória de madeira ao longo da na fronteira internacional. Em todos os casos, acho que vale a pena conhecer Pucallpa sem paranóia. Conhecer a VENAO e outras empresas madeireiras de lá. Sacar a cadeia de comercialização da madeira, que sempre passa, como em toda a Amazônia, a de lá e a de cá, pelo aviamento. E a compreensão de que madeira não é negócio para amadores. Os líderes de Nueva Shawaya, outra comunidade Ashaninka que está surgindo no alto rio Amônia e nas proximidades do Marco 40 da linha de fronteira, estão reproduzindo as mesmas táticas utilizadas por seus parentes de Sawawo, que é a de fazer pressão sobre o governo peruano para demarcar suas terras e, especialmente junto ao INRENA e Ministério da Agricultura, para obter o "permiso" e aprovação de plano de manejo para exploração madeireira em suas terras. E tudo novamente com apoio da VENAO. Lá em Sawawo também me mostraram relatórios de engenheiros florestais e agrônomos, contratados e patrocinados por essa madeireira, dando conta do volume de árvores abatidas e o que já foi efetivamente plantado dentro da área dessa comunidade. Tudo, como já disse, com fachada de legalidade. Deram-me, inclusive, fotos fantásticas de toras de mogno e cedro, tomando literalmente conta do leito do rio Tamaya, esperando as águas de inverno, por onde boa parte da madeira flui, quando transportada para Pucallpa, via alto Ucayali. Os líderes Ashaninka de Sawawo fizeram o seguinte acordo comercial com a Florestal VENAO: 60% do valor de venda da madeira no mercado internacional é para pagar os custos de investimentos da empresa, como combustíveis, deslocamentos de máquinas pesadas e tratores e ainda deslocamentos de líderes Ashaninka a Lima e Pucallpa e fretes de teco-teco (o pessoal de Sawawo fez uma pista de pouso lá no meio da aldeia) e ainda, o mais importante para os Ashaninka de lá, a construção de uma estrada, unindo sua aldeia nas cabeceiras do rio Amônia até o povoado de Nueva Itália, no alto rio Ucayali. Daí descendo três dias de balsa até Pucallpa. Os restantes 40% do valor de venda da madeira são divididos igualmente entre a VENAO e a comunidade Sawawo, 20% para cada uma. Segundo os grandes chefes de Sawawo, eles negociaram duas safras de madeiras com a Florestal VENAO. Na primeira delas, safra 2001/02, venderam 2.790 m3 de mogno, ou caoba, quando a quantidade autorizada pelo INRENA era de 4.200 m3, e 610.m3 de cedro, quando o previsto era 2.000 m3. Na segunda safra de 2002/03, venderam 537 toras (trozas) de mogno com 1.370 m3 e 1.154 toras de cedro com 1.894 m3. Segundo me informaram, os resultados alcançados pela comunidade nativa de Sawawo Marco 40 em aliança estratégica com a Florestal VENAO, empresa locadora de serviços mecanizados, foram, primeiro, a "manutenção, reabilitação e construção de uma estrada de aproximadamente 164 km, unindo a localidade de Nueva Itália, no rio Ucayali, no distrito de Tahuanía, ao centro do povoado de Sawawo Hito 40", nas cabeceiras do rio Amônia. Ressaltaram ainda que essa estrada, além de servir de escoamento das madeiras de lei, é a única via de acesso terrestre para os moradores de Sawawo deslocar-se até a cidade de Pucallpa. Outro segundo resultado importante foi a aquisição de bens de uso coletivo e de beneficio comunal, como aquisição de um motor gerador de luz PERKINS/Inglaterra, uma serraria elétrica móvel PETERSON/Nova Zelândia, cinco motosserras STHIL 070, um motor para navegação YANMAR/Brasil, uma máquina secadora de madeira HOMOLITE e um bote de madeira de 25 pés de largura. Duas vias são utilizadas comumente para transportar madeiras roliças do alto rio Amônia até Pucallpa. A primeira é por essa própria estrada, utilizando-se caminhões toreiros e tratores florestais, de propriedade da Florestal VENAO, até a localidade de Nueva Itália, no alto rio Ucayali, e daí por balsas, ou chatas, descendo até três dias até a cidade de Pucallpa. A outra é fluvial, através do rio Tamaya, mais utilizada no período de inverno. Conforme me disseram lá em Sawawo: "existe uma única via fluvial direta que é o rio Tamaya, utilizado na época das enchentes pela comunidade de Sawawo para o transporte de madeira roliça até Pucallpa, gastando-se sete dias de viagem em canoas e botes de madeira impulsionados por motores pequi-pequi até o rio Ucayali e daí por rebocadores até Pucallpa". Os irmãos Ashaninka, Luis Carlos e João Campo, disseram que a comunidade Sawawo tem mais de 2 milhões de soles depositados num Banco de Pucallpa. Disseram que esse dinheiro todo é oriundo dessas duas safras de madeira que negociaram com a VENAO. Quando passei por lá agora, falaram-me que esses contratos com a VENAO já haviam se encerrado. Com parte desse dinheiro, pretendem agora comprar gado. Trata-se, como se ver, do clássico modelo de exploração predatória de madeira de lei consorciado com criação extensiva de gado, muito conhecido "por nós outros hermanos acreanos". Nada de paranóia, vamos conhecer Pucallpa. Para antropólogo só vale mesmo aquele velho ditado popular da Amazônia: "é preciso ver de perto, para contar de certo". Vai ser uma boa ocasião para conhecer a capital da madeira, visitar suas serrarias e conhecer organizações indígenas, como a AIDESEP e outras Ongs que atuam em Pucallpa. Os Ashaninka de Sawawo também possuem uma casa de hospedagem e escritório de representação política por lá. Acho que com isso, poderemos prestar informações preciosas aos líderes Ashaninka da APIWTXA, tidos como da "turma do bem". E acredito mesmo que sejam! Enfim, se não se fizer esforços no sentido de promover entendimentos diplomáticos entre autoridades brasileiras e peruanas em relação a uma política ambiental fronteiriça, com ampla participação das comunidades Ashaninka de ambos os lados da fronteira internacional, a coisa fica pequena. Penso que essa semente já foi plantada e regada na semana Ashaninka de Brasília. Agora ela precisa crescer e atravessar a fronteira. Depois que visitei Sawawo, fiquei com uma vontade danada de conhecer Pucallpa, porque é lá que está "o olho do furacão" da indústria madeireira. É só chegar lá com espírito desarmado, que a Rainha da Floresta vai nos proteger e abençoar. |
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