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Quando o passado é promessa de futuro

Nações do tronco pano resgatam conhecimentos antigos e refletem sobre o futuro de seus povos no mundo moderno

Juracy Xangai
Professores do tronco lingüístico pano debatem resgate da língua e elementos fundamentais da sua cultura para garantir o futuro das comunidades de modo sustentável


Juracy Xangai

180 professores representando os 11 povos do tronco lingüístico pano estiveram reunidos na Pousada da Floresta, em Plácido de Castro, de 4 a 16 deste mês, debatendo quem são eles e o que querem, como também sua relação com os outros povos indígenas e não-índios.

Promovido pela Secretaria de Estado de Educação, por meio da Gerência de Educação Indígena, o encontro foi mais que o treinamento de professores, mas trabalhou o reencontro desses povos com suas origens e resgate das tradições, ao mesmo tempo em que foram estimulados debates sobre o que querem para seu futuro.

A uniformização da língua esteve em debate e ficou decidido abolir a vogal “o” de sua ortografia, já que esse som não existe em sua língua falada, como também não há a vogal “e”, pronunciada com som saindo pelo nariz num tom aproximado de “e” com um til, em cima.

Manoel Estébio Cavalcante da Cunha, gerente de educação indígena da SEE lembrou que esse serviço foi criado oficialmente no início do governo Jorge Viana, antes era apenas mais uma ação da educação rural, sem o ensino diferenciado que respeita as línguas e costumes de cada povo. “Agora a educação dos povos indígenas do Acre, sempre em sua própria língua e em português, é uma realidade. Tanto que estamos realizando aqui o sexto curso em formação do magistério indígena”, afirmou.

Entre as 14 etnias (povos) indígenas existentes no Acre, só os kampas (ashaninka) e kulina (Madija) não pertencem ao tronco lingüístico pano. São deste tronco os índios yaminawa, shanenawa, katuquina, jaminawa, jaminawa-arara, shawandawa, apolina-arara, nawa, nuquini e puianawa.

Como o treinamento propôs uma reflexão sobre quem são eles, quem são seus parentes indígena e quem são os outros povos não indígenas. Os debates e reflexões fora distribuídos em três grupos com temas que podem ser traduzidos na língua pano como nuku itsa (iguais), nuku keskama (diferentes) e nukubus (nós) que os levou a um profundo debate sobre si mesmos e, para o resgate de conhecimentos ancestrais foram mestres os pajés Ikã Muru Bakê da aldeia São Joaquim no alto Jordão e, o pajé Rantizal da aldeia Porto Rico no alto rio Purus.

Estébio lembra que das 14 etnias existentes no Acre só oito eram atendidos com ensino rural não diferenciado, quando Jorge Viana assumiu o governo. Haviam então, 800 alunos matriculados, hoje o ensino diferenciado chega a todas as etnias e tem mais de quatro mil alunos em sala. Antes o ensino se estendia apenas da primeira à quarta-série e em grande parte das aldeias o ensino básico é completo.

“Nas aldeias puianawa e nuquini, por exemplo, temos funcionando todo o ciclo desde a pré-escola até o ensino médio. Nestes oito anos, universalizamos o ensino para as 14 etnias, hoje temos 47 professores na formação continuada de nível superiores mais 50 prontos para entrar na faculdade no ano que vem”.

De cada cem índios que falam a língua pano, no Acre, 65 são da etnia kaxinawá, os quais, enviaram 98 dos 180 professores que participaram do curso. “Todos estes grupos foram massacrados durante a tomada das terras pelos não índios, os que sobreviveram ficaram escravizados nos seringais durante décadas. Isso fez com que muitos perdessem muitos elementos de sua cultura, os quais foram preservados em outras comunidades que aqui se encontram e trocando conhecimentos que ajudam a resgatar seus costumes e valores ancestrais. Por isso a proposta deste treinamento é fazer uma reflexão sobre quem são os povos do tronco pano, qual sua relação com os outros povos e o que querem para o futuro”.

Nukubus em debate

O pajé Francisco de Assis Mateus de Lima, Ninawá, 28 anos, pai de quatro filhos, vive na aldeia Bom Futuro na terra indígena do Humaitá com outras 93 pessoas do povo kaxinawá (huni kuin) no município de Tarauacá. Há três anos vem atuando como professor, primeiro pelo programa de Educação de Jovens e Adultos (Eja), tomou gosto pelo trabalho e foi contratado pela educação estadual.

“Meu objetivo maior é fortalecer os conhecimentos do nosso povo sobre si mesmo e, paras mim foi um privilégio muito especial ter tido a oportunidade de alfabetizar meus pais”. Participando do grupo de debates nukubus (nós mesmos), ele esclareceu que: “Um dos pontos principais destas discussões está em conhecer melhor nossa religião e desenvolver a espiritualidade. Como professores, sabendo disso, poderemos contribuir mais para a preservação e o fortalecimento de nossa cultura. Por isso estamos ouvindo os pajés e as pessoas mais velhas para que nos ensinem como eram os costumes, assim estaremos mais unidos e caminharemos juntos para o desenvolvimento que queremos alcançar para o futuro”.

 

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Rio Branco-AC, 21 de dezembro de 2006
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