OPINIÃO
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Tião Maia *  

 

Quando morremos um pouco

Há um sem número de escritores que escreveram sobre a morte. De ideologias e orientação religiosa as mais diversas, na Antiguidade ou no presente, todos concordam: a morte é dolorosa para os que ficam. Há quem diga, principalmente na atualidade, com o surgimento de religiões e filosofias diversas, que se trata apenas de uma passagem. De todos os pensadores, aquele que me parece mais preciso é Publilio Siro, filósofo latino da Roma antiga nascido 45 anos antes de Cristo, que foi escravo e, graças ao talento de escritor, foi libertado e educado pelo seu senhor.
E estou a pensar e escrever sobre a morte porque a semana que passou me foi cara, difícil. Tem sido assim ultimamente: vou mais a velório do que a aniversários. Na semana que passou, cumpri o ritual: num espaço de dias, fui a dois. Não fosse isso já por demais dolorido, acrescento que as duas pessoas me eram absolutamente especiais, amigas queridas, irmãs de décadas. A primeira, Ruth Santos, a Rutinha, e a outra, a Leomaci Silva, que conheci também em meados de 80 como médica do Projeto de Assentamento Pedro Peixoto, onde se registrava a maior incidência de casos de malária do país na época.

Não sei se as duas se conheciam, mas, coincidentemente, descobriram-se doentes, portadoras de câncer, quase na mesma época, há coisa de menos de um ano, e morreriam na mesma semana. Tão iguais que ambas deixaram um imenso vazio na vida de todos quantos tiveram o privilégio de conviver com a alegria e o jeito de mulheres que não só tinham consciência da sua feminilidade como também da doçura e da brutalidade necessárias a quem sabe o quanto é difícil viver com dignidade em meio a tanta hipocrisia. Se não se conheciam, se não se relacionavam, as duas tinham, apesar da diferença de idade e das atividades profissionais (Ruth era empresária, estudante de Direito), o mesmo estilo direto e franco de dizerem as coisas e também eram parecidas em espontaneidade, em alegria, em generosidade e afeto. Também se pareciam na dedicação aos filhos e ao que faziam, o que me deixa certo de que de algum jeito ficamos mais pobres pela perda dessas duas figuras humanas.

A Ruth, que se foi com pouco mais de 40 anos, conheci pelas mãos do Jairon e do Jaiminho, amigos de adolescência que me apresentaram a única irmã sem saberem que, de alguma forma, estavam também me incluindo na família deles - a partir dali, nos tornamos irmãos com direito a tudo que há entre irmãos, inclusive as desavenças. Como a Rutinha era apaixonada pelo PMDB, batemos de frente algumas vezes e, principalmente em campanhas eleitorais, chegávamos a ficar, como se diz, “trombudos” um com o outro. Acabada a campanha, fazíamos as pazes, ríamos muito e nos preparávamos para a próxima. Na última campanha eleitoral, porém, não foi mais assim. Ruth, mais madura, já separada do Edgar Bokel e já no segundo casamento, com o Fábio, o companheiro que a sepultaria, estava mais interessada em tocar seus negócios e refazer a vida do que propriamente se envolver com política. “Política faz a gente brigar até com os amigos, Tiãozinho”, disse-me, rindo, no restaurante que ela abrira na Estrada do Amapá (o “Lago Verde” foi sem dúvida seu último grande sonho), quando mais uma vez nos reencontrávamos sem ressentimentos com abraços calorosos e solidariedade verdadeira.

A Leomaci, a doutora Léo, conheci quando de uma reportagem no Projeto Peixoto, em meados da década de 80. Eu trabalhava para o jornal A Gazeta e fui ali fazer uma reportagem sobre um fato que já era absurdo na época: a prevalência da malária na região. Ali vi cenas dolorosas - uma delas, um pai, que havia ido enterrar o filho mais velho aos fundos do lote onde havia sido “instalado” pelo Incra, quando voltara, tivera apenas tempo de acender uma vela para colocar na mão do único membro da família que ainda lhe restava. O Peixoto parecia tudo - menos um projeto de reforma agrária. A situação ali só não era pior graças ao trabalho da médica Leomaci Silva e de sua ajudante de enfermagem, então uma menina que o Acre conheceria como a jornalista Eliane Sinhazique. Com ajuda de servidores abnegados (Odete, também já falecida, a Lídia, que continua a trabalhar na Saúde, a Lúcia e outros...), isolados por estrada, muitas vezes sem medicamentos necessários e trabalhando num hospital improvisado, Leomaci começaria ali a história de uma profissional a qual o Acre deve muito e cujos governantes têm o dever de tentar resgatar prestando-lhe sinceras homenagens.

A morte, como deve saber até o mais bruto dos seres vivos, é algo do qual não nos é permitido escapar. Dizem os espiritualistas que é, aliás, uma passagem, o passo seguinte da vida, conseqüência do mesmo fenômeno que transforma o dia em noite, o outono em inverno e a juventude em velhice. Dito assim, parece algo simples, um fato natural. Mas, para mim, a morte é mais que isso: é a ausência, é a certeza da perda. “É não ser visto, é a curva da estrada”, como disse Fernando Pessoa. Mas, como afirmei lá em cima, para mim o definitivo sobre o assunto é Publilio Siro. Segundo ele, “a morte é dolorosa porque morremos um pouco a cada vez que perdemos um ente querido”.

E quando se perde dois numa semana...

* Jornalista

 
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Rio Branco-AC, 22 de maio de 2008
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