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Seringueiros vão à luta para salvar a borracha

Designer ensina trabalhadores do projeto Cazumbá a agregar valor ao látex e confeccionar peças de borracha

Regiclay Saady
Projeto envolve a comunidade, gerando ganho maior com a produção das peças e valorizando a cultura regional


Juracy Xangai

Agregar valor ao látex da seringueira ao criar com ele peças utilitárias como caminhos de mesa, porta-copos, jogos americanos e objetos de decoração é o que estão fazendo as famílias de seringueiros da comunidade Cazumbá do Iracema, em Sena Madureira, e do Projeto de Assentamento Extrativista Santa Quitéria, em Brasiléia. A idéia é dar ritmo industrial à produção em série desses objetos, que já têm mercado garantido em redes de lojas de todo o país. Só falta a produção.

Para que isso se concretize, eles deixaram seu trabalho dia a dia a fim de participar do curso, que está acontecendo no Arraial do Burros, dentro do Santa Quitéria, onde estão aprendendo a produzir moldes de folhas, cascas e outros elementos da floresta que estão sendo utilizados de maneira criativa para dar forma aos objetos que serão levados ao mercado. Com gesso e resinas de silicone eles produzem as matrizes que permitirão a realização de cópias em série como é feito na indústria convencional.

As técnicas artísticas de como manejar os produtos e folhas a fim de copiar com fidelidade os elementos da floresta para transformá-los em formas que reproduzirão nas peças estão sendo ensinadas pelo designer mineiro Paulo Bustamante, que atua como consultor do Núcleo de Desenvolvimento de Design do Sebrae do Acre. A fórmula ideal das misturas de fibras de papel, bambu, madeira, bananeira, malva, buriti, ouricuri e madeiras variadas foi desenvolvida pelo pesquisador Francisco Salmoneck, da Polopróbio, a fim de melhorar a qualidade do produto final. O resultado de seu trabalho está sendo transferido aos seringueiros pela técnica Zélia Damasceno.

Nesta semana, aquela oficina de trabalho será visitada pelos parceiros do projeto, que são o governo do Estado, através da Secretaria de Planejamento e Turismo, Banco da Amazônia e empresários interessados em apoiar o desenvolvimento desse processo produtivo. “Nossa idéia é que o Basa, através do Programa Nacional da Apoio à Produção Familiar, o Pronaf, possa financiar os equipamentos mínimos necessários para que possamos montar os núcleos de produção em série desses objetos nos seringais Santa Quitéria e comunidade Cazumbá. Isso dará a eles condições para atender com segurança os contratos com lojas do Centro-Sul, as quais já demonstram interesse pelo produto”, explicou Bustamante.

Prata da casa

Quando o núcleo de design do Sebrae contratou a Poloprobio para desenvolver um produto que fosse feito com o látex atendendo a exigências de qualidade e competitividade do mercado sem desrespeitar os limites das condições de trabalho nos seringais, gerou-se um desafio especial. “Tivemos de desenvolver várias técnicas nas quais misturamos ao látex inúmeras variedades de fibras vegetais e de papel reciclado a fim de que ele adquirisse a textura, cor e resistência desejadas pelos consumidores. Precisaram disfarçar o cheiro forte que é característico do látex”, declarou Zélia.

Outro desafio era conseguir uma forma de evitar a formação de fungos que emboloram (encaroncham), enfeiando e causando o mau-cheiro, que leva muita gente a recusar peças feitas com borracha natural. “Resolvemos isso fazendo modificações na fórmula do produto que havíamos desenvolvido em parceria com o Centro de Polímeros do Rio Grande do Sul (Cetepo). Agora as lâminas vulcanizadas não mais acumulam água entre suas fibras e assim não permitem que as bactérias e fungos sobrevivam, o que eliminou o problema.”

Marina seringueira

Francisca Néri da Silva, 34 anos, mãe de cinco filhos, popularmente conhecida como “Marina” na comunidade Cazumbá, onde vive, em Sena Madureira, deixou a família para aprender a fazer objetos com látex. “Estou aqui trabalhando na esperança de me aperfeiçoar num serviço que dê dinheiro porque a vida não está fácil. A gente fez um curso para melhorar a qualidade da farinha e hoje ela é a mais procurada de Sena Madureira, por isso seu preço é duas vezes maior que as outras. Estou gostando desste serviço e espero que dê um resultado tão bom como o que conseguimos com a farinha.”

Mudança de hábitos

Trabalhando todos os dias na coleta do látex Gilberto Miranda Maia, 41 anos, pai de dois filhos, que vive na comunidade Cazumbá, conseguia colher aproximadamente de 30 quilos de borracha por mês, o que rendia cerca de R$ 40 por mês. Depois de participar do curso oferecido por Paulo Bustamante, a serviço do Sebrae, ele se dedica à produção de miniaturas de animais em borracha vulcanizada.

“O tempo de colher e vender borracha já passou, não vale mais a pena. A gente tem que usar o látex para fazer outras coisas. Hoje vou colher uma vez por semana e o restante dos dias dedico à produção da farinha e dos bichinhos que eu mesmo vendo pelas ruas de Sena e Rio Branco. Só com eles faturo mais de um salário mínimo por mês”, anima-se. “Agora estou aprendendo a fazer estes objetos de cozinha porque sei que eles vão gerar renda para mim e para outras pessoas da nossa comunidade.”

Esperança jovem na mata

Filhos de ex-seringueiros que hoje sobrevivem muito mais dos roças e da criação de gado que se mantêm em ritmo crescente como alternativa geradora de renda dentro do Projeto Extrativista do Santa Quitéria, os jovens que participam do curso ainda depositam esperança de tirar dinheiro da borracha. Exemplo disso é Sidney Amorim Cavalcanti, de 15 anos, morador da colocação Josefa. “É a primeira vez que eu participo desse serviço e achei muito bom. Nunca pensei que a gente pudesse copiar uma folha para fazer uma coisa tão bonita. Além de fazer uma coisa diferente, a gente ainda trabalha na sombra, com mais conforto”, disse.

Já Antônio Erivaldo Oliveira da Silva, 21 esclareceu: “Participei da primeira oficina e agora estou me aperfeiçoando. Sei que a gente ainda não tem as ferramentas e máquinas que serão necessárias para produzir uma grande quantidade de peças, mas a gente tem que começar de algum lugar. Eu mesmo nunca cortei borracha nem tenho vontade, porque do preço que está não compensa, mas também não quero derrubar para criar gado.”

Vencendo desafios

O presidente da Associação dos Moradores e Projeto Agroextrativistas do Santa Quitéria (AMPAESQ), Manoel Souza da Silva informou que ali residem 246 famílias, que encontram grande dificuldade de sobrevivência por causa do baixo preço da borracha e das péssimas condições dos ramais, por isso muitos têm investido o que podem na criação de gado e para isso derrubam a mata. “A castanha é produto que ainda ajuda nossas famílias a conseguir algum dinheiro, o resto vem do roçado ou do gado. Agora estamos trabalhando essas peças de borracha na esperança de conseguir criar trabalho e renda aqui dentro para que nossos filhos e famílias inteiras não tenham que continuar indo embora para a rua.”

A comunidade vem lutando para vencer esse êxodo. Exemplo disso é que, com o apoio do Programa Nacional de Geração de Emprego e Renda (Pronager), em parceria com o CTA e os Amigos da Terra, foram organizadas criações de galinhas caipiras. Também trabalham programas de colheita de óleo de copaíba, açaí e sementes. “A gente luta, mas falta apoio como, por exemplo, o abandono dos 13 quilômetros do ramal que dá acesso a esse arraial. Isso dificulta tudo.”

Sacrifício na escola

Moradora do quilômetro 85 da BR-317, a professora Francisca Pereira do Nascimento, 49, mãe de sete filhos, percorre diariamente os 13 quilômetros do ramal para atender os 14 alunos de primeira a quarta séries e outros 14 adultos do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA). “Comecei a atender esta comunidade em 1991, primeiro vinha a pé, depois cavalo, veio a bicicleta e agora ando de moto, que está se acabando por causa das péssimas condições da estrada. E como se não bastasse isso, a falta de merenda obriga os pais dos alunos a mandar macaxeira e até carne de caça para que a gente possa preparar a comida deles, pois muitos caminham até 12 quilômetros por dia para assistir às aulas e com fome não tem quem aprenda nada”, relata.

 
 
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Rio Branco-AC, 22 de junho de 2004
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