OPINIÃO
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Tião Maia *

 

Esse filho da ingratidão

É detestável, para dizer só isso, todo aquele que cospe no prato que comeu, ensina o senso comum. Aquele que cospe no prato que o alimentou é, portanto, um ingrato. Não por acaso o ingrato, também para o senso comum, estará sempre alinhado no mesmo nível das figuras antipáticas do dedo-duro; do delator, do traidor. Por definição, o ingrato é um traidor.

Há muito vinha refletindo sobre isso a cada vez que via, na TV ou pessoalmente, o senador Geraldo Mesquita Júnior atacar o governo que o transformou de um reles barnabé em senador da República. Confesso que, num primeiro momento, tentei compreendê-lo, aceitar seus argumentos. Não consegui. Afinal, o governo estadual ao qual o senador ataca com tanto vigor é o mesmo ao qual ele serviu com a mesma paixão e entrega. Quando buscava um lugar ao sol na política local, da qual havia sido varrido junto com o entulho autoritário da ditadura militar a qual ele servira com igual denodo, apresentava-se até como candidato a oficie-boy da Frente Popular. “O que quero como prêmio para minha vida é poder fazer política ao lado de vocês, para ajudar o Acre”, disse o então candidato a senador certa vez, em Cruzeiro do Sul, à senadora Marina Silva, candidata à reeleição e que o carregava a reboque como seu companheiro de chapa.

Já eleito, às margens do rio Acurauã, em Feijó, o senador chorou diante de um discurso do governador Jorge Viana para trabalhadores rurais condenados a viver no isolamento a cada vez que a BR-364 é fechada pelo rigor do inverno. Foram tantas lágrimas que o deputado estadual Edvaldo Magalhães teve que, literalmente, consolá-lo com abraços porque o senador se dizia emocionalmente incontido por se ver inserido num grupo político que luta pelo fim do isolamento e sofrimento de milhares de irmãos acreanos.

A propósito, veja o texto a seguir: “Geraldinho Mesquita – PSB Mandato até 2011. Geraldo Mesquita Júnior, 54 anos, é filho do ex-governador do Acre Geraldo Mesquita. Nasceu em Fortaleza (CE) e formou-se em Direito. Começou na vida política como chefe do Gabinete Civil do governo Jorge Viana e depois exerceu o cargo de secretário extraordinário de Coordenação Institucional. No Senado, pretende se dedicar ao debate sobre a reforma tributária e do Judiciário.”

Pois bem. O texto do parágrafo anterior, eu o retirei ontem, da página pessoal do senador na Internet. Note que, além de manter a informação de que ele ainda permanece no PSB, o senador diz que “começou” na vida política “como chefe do Gabinete Civil do governo Jorge Viana” e depois “exerceu o cargo de secretário extraordinário de Coordenação Política”.

A informação é improcedente. Geraldinho começou na vida pública lá atrás, servindo ao governo de seu pai, Geraldo Mesquita, de quem foi secretário e chefe de Gabinete Civil. Ocupou ainda vários outros cargos em outros governos, inclusive na área federal, razão pela qual é figura carimbada nos escaninhos da burocracia em Brasília. São informações as quais ele omite porque, para um senador que quer passar a imagem de um radical de esquerda aos meninos e meninas do PSOL, não cai bem revelar que ele foi um leal servidor da ditadura.

E eis que, como lhe parece de hábito, de repente, o senador mudou de lado, de discurso e de companheiros. Ao abandonar um projeto político e de Governo que continua a receber a média de 70% de aprovação dos acreanos, segundo atestam as mais variadas pesquisas de opinião pública, Geraldo Mesquita Júnior se reagrupou aos velhos inimigos da democracia e das políticas públicas de inclusão social, juntando-se aos membros dos grupos que tanto mal fizeram a este Estado quando metiam a mão no dinheiro público, para dizer o mínimo. Os mesmos grupos cujo líder-mor não tem o menor pudor de se apresentar como corrupto e corruptor.

Na sua sanha de atingir o governador Jorge Viana e o senador Tião Viana, a quem, não faz muito tempo, ele chamava de irmãos, o senador passou a pisar em terreno pantanoso.

Agrediu, por exemplo, os pacientes socorridos pelo sistema de Tratamento Fora de Domicílio (TFD), aquelas pessoas vitimadas por doenças violentíssimas como as cancerígenas e que são obrigadas a buscar tratamento em centros mais avançados cuja tecnologia não existe no Acre exatamente por conta de governos passados que trataram o sistema de saúde como curral eleitoral e os pacientes como mercadoria. Aliás, não foi à toa que o senador, num desses seus ataques, disse que o Acre só exporta pacientes do TFD. Para mentes doentias como a desse senhor, uma pessoa doente, que precisa da solidariedade humana e de todas as atenções que o Estado pode dispensar, é apenas um número, uma simples mercadoria, o item da pauta de exportação. Em relação a isso, a propósito, essa mente abjeta, que faz política na base do quanto pior melhor, faz questão de esconder que o Acre, em 2004, exportou US$ 9 milhões de dólares (um recorde na história do Estado) em diversos produtos.

Apesar de tudo isso, o senador Geraldo Mesquita Júnior conseguiu se superar ao atacar a honra do presidente Luís Inácio Lula da Silva, em discurso no Senado, na última segunda-feira. Note o leitor que, em que pese o momento de crise que o país atravessa, nem o mais radical membro dos partidos de oposição, aqueles que querem o fígado de Lula, teve a coragem atacar a honra do presidente, cuja biografia, todos reconhecem, é um símbolo de dignidade.

Pois o ataque sórdido à honra do presidente partiu de Geraldinho, aquele que, na campanha eleitoral, teve o apoio incondicional de Lula, que veio a Rio Branco e percorreu vários municípios pedindo votos para fazê-lo senador.

Por tudo isso, ao ver os ataques do senador, já tinha concluído que sua estatura moral e política correspondem ao apelido pelo qual o senador é conhecido no Acre.

Mas, muito mais doloroso, é ter que admitir que seu caráter é baseado na ingratidão, esse sentimento filho legítimo do egoísmo. O consolo é saber que todo egoísta um dia topará pela frente com corações insensíveis e com caráter tão duvidosos quanto o seu próprio o foi. É só uma questão de tempo.

* Jornalista

 

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Rio Branco-AC, 22 de junho de 2005
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