ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Amazônia: um pouco antes do fim

Milton Hatoum*



A Amazônia está de novo na berlinda. Mas agora é pra valer, agora a região não sairá mais do noticiário. A insanidade dos incendiários da floresta equatorial para fazer pasto data da década de 1970, auge do regime militar. A outra loucura - o agro-negócio na selva - é mais recente. Muito mais remota é a prática da derrubada de árvores para exportar madeira nobre. Isso é tão antigo quanto a colonização portuguesa. Nem é necessário dizer que todas essas práticas predadoras são movidas por poderosos interesses econômicos. Mas isso não exclui uma mistura perfeita de ganância com ignorância. A palavra “desenvolvimento” pode ser vazia e até nociva se a ação desenvolvimentista for predadora. Infelizmente é isso que está acontecendo nas várias áreas do Norte do Brasil.

II


É lamentável que na esfera do poder a discussão sobre a Amazônia se reduza a um bate-boca entre um ministro e um governador. Ambos desconhecem a região, ambos possuem ego de ciclope, um ego monstruoso que beira o grotesco. Cedo ou tarde, ministros e governadores serão esquecidos ou derrotados nas próximas eleições. Mas o meio ambiente e a vida humana que dele depende não pode ser refém do jogo do poder.

Nunca fui adepto de teorias conspiratórias, mas já se sabe que as jazidas de minérios, gás e petróleo na Amazônia são enormes, senão incalculáveis. E não me refiro apenas à Província Petrolífera do rio Urucu, como é chamado o complexo da Petrobrás nessa área do Amazonas. A biodiversidade da Amazônia é inimaginável porque desconhecida, sem falar da maior reserva de água doce do planeta. Nesse sentido, toda e qualquer insinuação visando à internacionalização da Amazônia deve ser rechaçada com veemência e vigor. A floresta equatorial na região norte do país pode ser um patrimônio da humanidade, mas ela é antes um patrimônio de todos brasileiros. Nesse aspecto, soberania nacional é algo inegociável.

O mais preocupante é a destruição da floresta, sem que esta ao menos seja conhecida, estudada, refletida. Até mesmo para planejar a ocupação e o tipo adequado de investimento econômico é necessário conhecer a região. Mas no Brasil a lógica é outra: primeiro destrói-se tudo, depois se pensa nos erros, na catástrofe ambiental. A avidez do lucro fácil enterra qualquer possibilidade de conhecimento da floresta amazônica e dos seres que a habitam. Não quero defender santuários ecológicos nem esse ou aquele modelo de desenvolvimento. O que defendo com urgência é o conhecimento científico, social e antropológico da região, porque o conhecimento de uma cultura - ou de um sistema de culturas da Amazônia - deve anteceder a uma intervenção ou a qualquer ação econômica no meio ambiente.

III

Sei que a palavra “cultura” é vazia de sentido para os que só sabem manejar trator e moto-serra. E também vazia de sentido para os que só pensam em plantar soja, criar gado e extrair madeira sem refletir sobre o desastre ambiental que certamente afetará a produção da lavoura no sudeste e no sul do Brasil. Um país que tem geógrafos do porte de Aziz Ab’Saber e centenas de cientistas e pesquisadores competentes da Embrapa, do Instituto de Pesquisa da Amazônia (INPA), do Museu Paraense Emilio Goeldi, da SBPC, Fiocruz e de tantas universidades federais e estaduais não pode se dar ao luxo de ouvir apenas políticos e governadores-empresários (ou latifundiários travestidos de políticos).

Esses cientistas - aliás, pesquisadores de instituições governamentais - foram convidados a pensar e opinar sobre a Amazônia? A população nativa foi consultada sobre o destino de sua própria região? Quem autoriza os governadores de Rondônia e do Mato Grosso a defender um desmatamento selvagem por conta de um “desenvolvimento” não menos selvagem? Por que não se discute uma série de planos alternativos e viáveis para a Amazônia com a participação de pesquisadores, cientistas, economistas, antropólogos e outros representantes da sociedade civil? Os ribeirinhos, os índios, os milhões de brasileiros que moram nas capitais da região não têm nada a dizer sobre os lugares que conhecem profundamente?
O plantio de soja, a criação de gado e a extração de madeira não beneficiam a maioria dos moradores de Porto Velho, Cuiabá e de tantos municípios do Mato Grosso e de Rondônia, onde a qualidade de vida é péssima e a desigualdade social é alarmante. E o que dizer das cidades do sul do Pará, verdadeiros acampamentos de miseráveis? A extração de madeira sem um plano de manejo florestal só tem revelado a face mais bárbara do país. Ironicamente, Redenção é uma das capitais da barbárie brasileira.

IV

Euclides da Cunha, que em 1905 viajou pela Amazônia, escreveu vários ensaios reunidos no livro À margem da História. Nunca esqueci uma de suas frases que, a meu ver, é emblemática: “A Amazônia é um infinito que deve ser dosado”. Com isso, o autor do clássico Os sertões queria dizer que a Amazônia, além de múltipla e diversa, é dotada de tamanha grandeza e complexidade que deve ser estudada por partes. Cada rio tem uma história com particularidades geográficas, sociais, culturais, simbólicas. Cada trecho da floresta possui uma riqueza ambiental e humana que deve ser estudada, analisada.

Mais de vinte por cento da floresta virgem já foi queimada ou derrubada. O infinito mencionado por Euclides tornou-se finito demais. Daqui a poucos anos só haverá alguns parques e reservas de conservação ambiental. O resto, ou seja, o infinito de que falava Euclides será formado de arbustos de soja, pasto e campos cobertos de cinzas e tocos carbonizados. Triste paisagem! E à custa de quantos crimes ambientais e humanos? De quanta impunidade? De quanta insensatez e ignorância e insensibilidade?

*Milton Hatoum é escritor, autor dos romances Órfãos do Eldorado, Dois Irmãos, Relato de um Certo Oriente e Cinzas do Norte. O texto acima saiu publicado no site Terra Magazine no dia 9 de junho. Contato: milton.hatoum@terra.com.br

 

CORREIO

O escritor veio ao Acre esta semana para dar uma palestra e fazer o lançamento em Rio Branco de sua obra mais recente: Cinzas do Norte. Na sexta-feira à noite, ele compareceu à minha residência durante uma confraternização e encontrou-se com seu primo acreano Abrahim Farhat, o Lhe. Os pais do Lhe e do Hatoum, libaneses e primos legítimos trocavam correspondência entre o Líbano e o Acre nas primeiras décadas do século passado. Algumas cartas datadas dessa época – escritas em árabe - foram oferecidas a Milton Hatoum pelo Lhe, mas nenhum dos dois domina o idioma dos pais.

Milton, entretanto, mostrou-se feliz e cuidadoso ao receber os papéis amarelados pelo tempo. Aliás, nem os recebeu: por tratar-se de originais preciosos, preferiu que Lhe tirasse cópias e as enviasse pelo correio. Da conversa entre os dois, ouvi que o livro “Dois Irmãos”, obra-prima da Hatoum, pode ter sido inspirado pela grande amizade que havia entes os “primos” libaneses. Amizade, identidade, confiança e até outros sentimentos que transcendam uma relação entre irmãos.

Certamente, podemos aguardar mais literatura de boa qualidade a partir do reencontro dos “brimos” de pais libaneses e desses papéis velhos e preciosos, guardados há mais de 80 anos pela família Farhat.

 
 
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