COTIDIANO

Memórias de um
autêntico amazônida

Milton Hatoum, romancista premiado, fala de suas origens e de sua produção amazônica

 

Tião Maia

Professor de literatura da Universidade do Amazonas e da Universidade da Califórnia, em Bekley (EUA), Milton Hatoum, nascido em 1952, em Manaus (AM), estreou como autor em 1989, com o romance “Relato de um Certo Oriente”. Em seguida vieram “Dois Irmãos”, “Cinzas do Norte” e agora o recém-editado “Órfãos do Eldorado”, todos recebidos com entusiasmo pela crítica e muito prêmios. Um dos grandes escritores brasileiros da atualidade, publicado em mais de dez países.

Na semana passada, a convite do Banco do Brasil, o escritor reencontrou-se com o Acre, Estado onde, por muito pouco, não nasceu - o avô esteve no exército de Plácido de Castro e o pai viveu no Acre dos anos 30/40. Entre um compromisso e outro, ele concedeu a seguinte entrevista:

Você está de volta ao Acre, à Amazônia, onde estão suas raízes e a principal razão de sua produção. Fale um pouco de suas origens.

Milton Hatoum - Eu nasci em Manaus. Meu pai era libanês e veio para o Acre em 1939, com um primo dele chamado Said, que é irmão do Hechem Farhat, pai do Lhé [Abrahim Farhat, militante do PT]. Só que antes, em 1904, o pai do meu pai, meu avô paterno, esteve aqui, tendo morado por dez anos. Ele participou da Revolução Acreana.

Ele participou dos confrontos com os bolivianos? Qual era a posição dele no Exército de Plácido de Castro?
Milton Hatoum –
Esse é um elo perdido. Eu tento achá-lo, mas não consegui grandes avanços.

Como era o nome dele?
Milton Hatoum –
Era Fadel.Fadel Hatoum. O fato é que ele esteve aqui, voltou para Líbano e lá contava as histórias para o meu pai lá pelos anos 20.Meu pai cresceu com essa imaginação, com essas histórias da Amazônia e do Acre na cabeça, e quis vir aqui, conhecer pessoalmente. Meu pai não foi um imigrante clássico. Ele veio ver o que o pai fizera por aqui, onde tinha morado. Chegou a Manaus casou com a minha mãe, que conheceu quando foi almoçar na pensão do meu bisavô materno, e veio para o Acre. Primeiro, viveu aqui alguns anos. Numa viagem a Manaus, conheceu minha mãe, casou e a trouxe para cá. Minha irmã nasceu aqui e eu, por muito pouco - coisas de dois anos apenas -, não sou acreano.

Sua literatura, sua argamassa literária, é feita da sua experiência como amazônida, não é?
Milton Hatoum –
É basicamente a história da minha infância em Manaus. O Líbano já ficou para trás. Os filhos de imigrantes no Brasil não têm laços muito fortes com suas origens. Primeiro, nós não somos chamados, por exemplo, de ítalo-brasileiros, líbano-brasileiro. Nós não temos o hífen que os americanos têm. Eu acho isso ótimo. Uma vez, em Washington, na biblioteca do congresso norte-americano, fui falar sobre meu primeiro romance, quando foi traduzido para o inglês. Havia um cartaz escrito em inglês de que ali estaria um escritor líbano-brasileiro. Eu falei para o mediador: pode tirar isso daí, porque ele não faz nenhum sentido. Ele perguntou por quê, e eu falei: porque nós não classificamos como vocês. O filho do imigrante japonês não é um nipo-brasileiro. Ele é brasileiro e pronto.

Se você não tivesse nascido na Amazônia, não tivesse vivido as emoções de um amazonida, sentido as experiências de ser menino em Manaus, na época uma cidade pequena e mais romântica, mais doce, você acha que sua literatura teria a mesma qualidade a ponto de ser tão bem recebida pela crítica?
Milton Hatoum –
O mais importante para um escritor é a sua infância e a sua juventude. O substrato de tudo que vem depois, as histórias, as narrativas, têm como fonte primordial a infância do escritor e sua juventude. Se minha infância e juventude tivessem passado em outro lugar e em outro tempo, minha obra certamente seria diferente. Isso é determinante para quem escreve. Esse é o meu ponto de vista. Não sei se isso acontece com outros escritores. Eu priorizo muito a memória, o passado. Na verdade, não sei escrever sobre o presente. O presente, para mim, é matéria de jornalismo e não de literatura.

Ouvi você dizer que boas famílias não conseguem render boas histórias, bons livros. Essa afirmação é só uma citação ou uma experiência própria?
Milton Hatoum -
É um ditado francês: boas famílias não produzem boas histórias.

Por quê?
Milton Hatoum –
Porque o romance nasce da tensão. Comparo o romance a uma mesa de bilhar, que gosto de praticar. Uma bola bate na outra, que acerta uma terceira e cai na caçapa. Isso não pára. O romance é um pouco dessa mesa onde atuam diversos personagens, com seus conflitos pessoais. A família margarina, sempre sorridente e feliz, vai para o céu direto, sem problemas. Nós, não. Os romancistas vão no mínimo para o purgatório.

Falando em família, no romance “Dois Irmãos” há até relações incestuosas, conflito puro. Isso é ficção?
Milton Hatoum –
Pura ficção. No fundo, em relação à verdade e à mentira, o que importa para o livro é como o leitor ver essa narrativa. O leitor não pode ficar garimpando a verdade e a mentira. Aquilo tudo é uma verdade inventada. Uma verdade convivente.

Ou seja, uma verdade que não acontece?
Milton Hatoum –
Sim, uma verdade que poderia ter acontecido. A questão é essa. O romance é simplesmente a arte de dizer as coisas como se elas tivessem acontecido. O leitor vai ter que se convencer de que aquilo podia ter acontecido. Se ele disser: isso aqui é totalmente irreal e absurdo, ou artificial, significa que algo não deu certo.

Mas, ao que parece, em Os Sertões, Euclides da Cunha faz um romance sobre uma realidade concreta, não foi?
Milton Hatoum –
Aquilo não é romance. Aliás, isso é causa de uma discussão que perdura até hoje. Uns acham que é romance. Acho que ali está uma mistura de gêneros, uma mistura prazerosa de gêneros. O Euclides passou dez semanas na Bahia. Ele não tinha experiência nem de jornalismo nem de presença testemunhal para escrever Os Sertões.

Mas ele é detalhista, por exemplo, em relação à geografia. Como explicar isso?
Milton Hatoum –
Mas porque ele leu todos os livros de geografia, todos os relatos de viajantes. Ele leu revistas e ensaios científicos sobre o clima, sobre solo. Ele era obsessivo por isso. Ele era engenheiro, com formação de engenheiro militar. Então, muita coisa em Os Sertões, sobretudo a primeira parte, é tudo de cultura livresca. A segunda parte é que tem a experiência do escritor e do jornalista, o seu testemunho. Por isso, enquadrar Os Sertões num gênero é complicado porque não dar para dizer que é um romance porque não há uma fábula, uma trama por trás daquilo. Mas também você não pode dizer que se trata de uma reportagem, porque o estilo dele é monumental. Gilberto Freyre falava da monumentalidade do estilo euclidiano. Aquela cena do coronel que morre no cavalo parece uma estátua, com os trapos ao vento. A descrição disso não é de um jornalista qualquer. É de um escritor. Eu acho que ele compreendeu o Brasil aqui na Amazônia.

Márcio Souza, quando escreve “Galvez, o Imperador do Acre”, tem um elemnto, um fato, que é a realidade do Acre, que ele transforma em folhetim, uma coisa risível e se consagra com o livro. Há possibilidade de um dia você sair dessa linha do romance, da ficção, para trabalhar com elementos mais presentes, mais reais?
Milton Hatoum –
Não é muito o meu interesse trabalhar com romance histórico. Mas, de repente, pode ser. Eu também pretendo sair um pouco dessa minha seara amazônica. Futuramente, eu penso em escrever sobre outras coisas, outras regiões. Como eu morei muito em São Paulo e alguns anos na Europa, tenho também experiência de outros lugares. Penso em escrever sobre isso para não ficar estigmatizado como escritor regional. O Márcio Souza também escreveu sobre o Santos Dumont. Eu achei legal ele sair da Amazônia e voar para outros lugares. Não teve muito sucesso o livro, mas fez um livro ótimo chamado “Operação Silêncio”, um romance que se passa no Rio, na época da ditadura. Tem algumas figuras da Amazônia que me desperta interesse. Se eu tiver fôlego, talvez me inspire para escrever alguma coisa sobre viajantes que estiveram na Amazônia e até desapareceram. São figuras interessantes e msiteriosas. Quero entender o que move pessoas a percorreram a Amazônia enfrentando toda sorte de perigos.

Você já esteve no Acre, tem parentes aqui; conhece, portanto, a realidade acreana. Qual é a impressão que você leva?
Milton Hatoum –
Estive aqui em 1993, pela universidade. Volto agora e encontro outra cidade, mudanças na sua estrutura, com urbanização, com mais vida, mais alegria. Acho que mudou muito. O que me impressionou bem foi o projeto da Casa de Leitura lá do bairro Chico Mendes, com crianças leitoras. Uma experiência marcante.

Como você, escritor da Amazônia, convive com as informações de que são cada vez mais crescentes o desmatamento da região e a ameaça de internacionalização?
Milton Hatoum –
Com muita preocupação. Eu sou contra o desmatamento, mas também não sou a favor do desmatamento zero. O próprio índio desmata. Acho que nós temos mais a aprender com os índios do que com esses governadores como de Mato Grosso e de Rondônia. Sou sempre convidado a ir a esses Estados, mas não vou. Dispenso convites para ir lá porque sou contra o que esses governos estão fazendo. O Mato Grosso, por exemplo, agora é mato fino - aliás, no ritmo que vai, não terá mais mato. Tudo por causa de um governador aventureiro que só pensa em ganhar dinheiro com a soja, um alimento para porcos, que desmata e destrói a vida, sem que ninguém interfira e o faça parar. Continuo insistindo. Nós temos que aprender com o índio.O índio não joga nada fora e não faz da floresta um lixo. Na verdade, ele reutiliza tudo. A idéia do manejo florestal e da reutilização da floresta é dos indígenas e os cientistas aprendem com os índios. Uma vez falei isso no Rio Grande do Sul, para uma platéia formada basicamente por estudantes: olha, se mais 20 por cento da Amazônia for destruída - isso está provado cientificamente -, será rompido o ciclo hidrológico. A Amazônia, na verdade, é uma máquina de chuva, que repercute na lavoura do Centro-Sul do país, no sudeste e no Norte da Argentina. Se desmatar mais a floresta, a lavoura dessas regiões vai ser prejudicada. Estão, portanto, brincando com fogo, literalmente. Veja essa discussão sobre a Raposa do Sol, em Roraima. Começam a dizer que os índios não podem ter muita terra. A verdade é que os índios não são os donos da terra. Eles têm o usufruto da terra. A imprensa às vezes esconde esses dados para colocar o confronto entre meia dúzia de arrozeiros - porque se trata de meia dúzia mesmo - que chegaram a Roraima há 20, 30 anos, e os índios estão ali há pelo menos mil anos, há 500 certamente. Sou contra o abandono da região. Acho que os militares têm ter presença na fronteira. Aliás, eles já estão lá. Conheço o Alto Rio Negro, toda a região conhecida como Cabeça do Cachorro, e lá estão os militares, toda a Aeronáutica está lá e tem que estar porque essa é uma região problemática por causa das Farc. O problema não é a Raposa do Sol. Por que não pode haver a presença do Exército na área indígena? Pode! Se houver problemas, eles podem entrar, podem cercar, exercer suas atividades que estão, a propósito de proteção da soberania nacional. Isso está na Constituição. O problema lá em Roraima é que os arrozeiros querem roubar as terras indígenas.É a mesma coisa que acontece na Palestina. Os sionistas fanáticos, quando entram na Cijosdânia, estão roubando as terras dos paletinos. Aqui, eles estão roubando a terra dos índios.

 

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