A Pré-história Acreana X (e ½)
(O caso dos sítios geométricos)
Depois de um longo intervalo, no qual esta coluna tratou de assuntos outros, retomamos a série de artigos que tratam dos “sítios arqueológicos com estruturas de terra geométricas”, apelidados mais recentemente de “geoglífos”. Mas devido ao grande intervalo entre o ultimo artigo da série e esse, é preciso, antes de mais nada, fazer uma breve recapitulação dos temas que até aqui foram abordados nesta série.

I – Geoglífos? Mentiras e verdades
Este artigo, de caráter introdutório à temática dos sítios arqueológicos com estruturas de terra que tem sido objeto de pesquisas sistemáticas desde o final da década de 70, alinhou uma série de argumentos contrários ao uso do termo geoglífos para designar os sítios acreanos. Tais como: 1 - Não há nenhuma relação cultural, histórica ou antropológica entre os sítios do Acre e as “Linhas de Nazca”, não havendo motivos, portanto, para designá-los através da mesma classificação; 2 – O sentido do termo geoglífos, “símbolos de terra” ou “escrita de terra” é nesse momento inaplicável aos sítios arqueológicos acreanos uma vez que ainda não se conseguiu definir a função que estes sítios desempenharam para seus construtores, sendo possível que tivessem outros usos mais práticos e funcionais, por exemplo; 3 – Empregar o termo geoglífos para facilitar sua divulgação incorre em distorcer os conhecimentos que temos acerca destes sítios, sendo por isso, inadequado e prejudicial; 4 – Não eram os deuses astronautas; 5 – Por traz do uso do termo geoglífos existem outros interesses além dos científicos, o que reforça ainda mais sua inadequação;
II - Caminhos do conhecimento
No ano passado a coluna Miolo de Pote publicou uma série de artigos denominada “Memória da Arqueologia Acreana” onde se delineia de forma detalhada a história das pesquisas arqueológicas no Acre. Neste artigo e no seguinte fizemos um resumo da história das pesquisas dividido em cinco diferentes fases, das quais este artigo tratou apenas das duas primeiras: 1ª Fase – Descritiva - de 1850 a 1970; 2ª Fase – Descoberta e pesquisa extensiva – de 1977 a 1985;
III - Caminhos do conhecimento (II)
Este artigo deu continuidade ao histórico resumido das pesquisas arqueológicas no Acre tratando das seguintes fases: 3ª Fase – Pesquisa intensiva – de 1992 a 2002; 4ª Fase – Sensacionalista – a partir de 2000; 5ª Fase – Novas pesquisas;
IV - O Grande Aquiri e a distribuição
dos sítios geométricos
Aqui tratamos de definir a grande área geográfica (chamada por enquanto de o “Grande Aquiri”) que deve ser considerada para a análise da pré-história acreana e da ocupação indígena proto-histórica. Esta redefinição é necessária porque, evidentemente, as fronteiras do Estado do Acre foram traçadas por uma lógica histórica muito recente e diferenciada em relação às fronteiras dos povos nativos que aqui habitaram durante milhares de anos antes da chegada dos europeus. Com isso, a distribuição dos sítios arqueológicos com estruturas de terra nos vales dos rios Purus, Iaco, Acre, Ituxi, Abunã, Madre de Dios, Orton, Beni e Madeira, pode ser relacionada às informações relativas à expansão do Império Inca, e dos grupos indígenas Aruak, Pano e de outras famílias lingüísticas da grande região da Amazônia Ocidental. Além disso, neste artigo analisamos brevemente as diferenças tipológicas dos diversos sítios com estruturas de terra em relação às suas principais áreas de ocorrência e concentração;
V - Nos caminhos do Grande Aquiri (I)
Complementando a abordagem de uma outra lógica territorial, diferente daquela comumente aceita para o período histórico do povoamento do Acre, este artigo começa a tratar das rotas de deslocamento terrestre que cortavam as florestas acreanas e complementavam as vias fluviais na movimentação de pessoas e produtos. E para corroborar essa abordagem, empregamos informações históricas relacionadas às rotas comerciais utilizadas na importação de gado boliviano para o abastecimento dos seringais brasileiros, bem como os varadouros e varações utilizadas durante a Revolução Acreana. Assim, fica configurada a pré-existência de caminhos terrestres que, por sua importância, devem obrigatoriamente ser levados em consideração para o conhecimento da ocupação pré-histórica e sua dinâmica interna na região do Grande Aquiri;
VI - Nos caminhos do Grande Aquiri (II)
Utilizando relatos deixados por diversos cronistas e viajantes de um largo período de ocupação européia da Amazônia como Gaspar de Carvajal (1542), Chandless (1864), Labre (1872) e Euclides da Cunha (1905) este artigo mostra que a existência de caminhos terrestres interligando os vales e terras do Grande Aquiri era muito anterior ao povoamento desta região pelos “civilizados”. Ligações terrestres que dizem respeito às relações comerciais e culturais antigas entre povos andinos e povos amazônicos das terras baixas, cuja compreensão é imprescindível para a contextualização da ocorrência dos sítios com estruturas de terra geométricas no Acre;
VII - Os “Campos da Natureza” (I)
Desde as primeiras pesquisas coordenadas por Ondemar Dias no Acre, já em 1977, se percebeu a possibilidade de relações entre a construção das grandes formas geométricas de terra e os “Campos da Natureza”, áreas diferenciadas que ocorrem tanto no Acre como no sul do Amazonas que ao invés da esperada cobertura florestal se apresentam como manchas de “savana” muito antigas. O que são estes campos da natureza e como eles surgiram e se mantiveram até os dias de hoje em meio à luxuriante floresta amazônica? Responder esta questão é primordial para compreendermos sua possível relação com os sítios arqueológicos. Por isso, neste primeiro artigo alinhamos algumas informações que nos foram legadas pela tradição indígena da região, em especial dos Apurinã;
VIII - Os “Campos da Natureza” (II)
Continuando a análise das diferentes, e muitas vezes contraditórias, informações relacionadas à existência no Acre e sul do Amazonas de diversos “Campos da Natureza”, neste artigo analisamos as memórias que nos chegaram desde o tempo dos seringais da região do “Campo Esperança”. Esta tradição oral reforça aspectos lendários e míticos da memória indígena e situa a utilização destas áreas para a criação de gado. Além disso, tratamos ainda de rever algumas informações históricas que colocam um importante personagem da história acreana, Plácido de Castro, em estreita relação com a exploração destes campos;
IX - Os “Campos da Natureza” (III)
Aqui tratamos de alinhar informações científicas, em especial as originadas em abordagens geográficas e de trabalhos de diagnóstico e zoneamento realizadas mais recentemente. Assim pudemos correlacionar opiniões mais antigas de autores como Castelo Branco Sobrinho e Antonio Teixeira Guerra, mas também aquelas obtidas pelo Projeto RADAM e pelo ZEE-ACRE.
X - Os “Campos da Natureza” (IV)
Para concluir as diferentes possibilidades de interpretação e análise acerca dos “Campos da natureza” reunimos aqui algumas das mais recentes hipóteses e teorias que procuram explicar as modificações climáticas e ambientais ocorridas nos últimos dez mil anos na Amazônia. Com isso procuramos responder, ainda que em linhas gerais, algumas das principais perguntas relacionadas as possíveis relações entre os sítios arqueológicos com estruturas de terra e os misteriosos Campos da Natureza, tais como: teria sido a região do Acre atual uma grande savana antes da expansão da floresta e estes “Campos da Natureza” seriam testemunhos (refúgios) da ultima era glacial? Ou, pelo contrário, estes campos resultam do desflorestamento realizado por grupos pré-históricos para a construção das grandes formas geométricas de terra? Ou, ainda, não existe nenhuma relação entre os “Campos da Natureza” e os povos que construíram os sítios com estruturas de terra?
Na semana que vem retomamos a série plenamente, agora com informações obtidas pelas pesquisas arqueológicas realizadas nos últimos trinta anos e que são extremamente relevantes para a interpretação da pré-história acreana e, em especial, para a compreensão dos sítios geométricos.