
Por falta de espaço, não posso me estender muito nessa apresentação. As conversas do Meirelles falam por si próprias. Na sexta parte de sua entrevista-depoimento, conta como vivem os moradores brancos no entorno da Terra Indígena (TI) Alto Tarauacá e os antigos e atuais conflitos entre brabos e Ashaninka, que hoje compartilham a TI Kampa e Isolados do Rio Envira.
O sertanista também chama atenção para as graves conseqüências que a expansão da exploração predatória de madeira no lado peruano vem provocando sobre os povos isolados em ambos os lados de nossa fronteira comum, inclusive forçando a migração de grupos isolados que viviam no Peru para as florestas dos altos rios acreanos.
Narra ainda com detalhes o episódio ocorrido, em 1998, na demarcação física dos limites da TI Kampa e Isolados do Rio Envira, quando índios isolados queimaram a base da Frente de Proteção e cercaram seus trabalhadores, índios Kampa, peões da empresa Asserplan e ele próprio. Lembra que esse episódio, que quase redundou numa tragédia, poderia ter sido evitado se a Funai e o PPTAL tivessem acatado o seu conselho de demarcar em conjunto essa e outras duas terras indígenas, Alto Tarauacá e Xinane (hoje Riozinho do Alto Envira), que já havia proposto ao então Departamento de Índios Isolados, da Funai, para constituir um corredor contínuo de pouco mais de 630 mil hectares, destinado à proteção dos povos isolados acreanos, ao longo do paralelo de 10º S, na fronteira com o Peru.
Vamos ler com atenção a continuação das conversas do bravo sertanista do Bariya. Mais uma vez com a palavra o velho do rio. É isso aí, Meirelles! (Txai Terri Aquino)
Elson: Qual é a situação dos brancos e índios contatados que vivem no entorno das terras indígenas destinadas aos povos isolados no Acre?
Meirelles: Os moradores brancos do entorno da TI Alto Tarauacá, a única terra indígena destinada exclusivamente aos índios isolados no Acre, vivem hoje quase sem alternativa econômica. Têm duas cabeças de gado e roçados de subsistência, mas isso aí não é uma alternativa econômica para o mercado regional. Então, fica aquela historia de vender carne de caça na sede do Município de Jordão, que é a atividade que eles sabem fazer bem. Aliás, tem dois pais de famílias que trabalham no Posto de Vigilância do Douro, o João e o Edgar, que são dois irmãos. O que eles sabem fazer na vida? Cortar seringa, caçar e pescar. Isso é o que eles sabem fazer bem. Seringa já não cortam mais, porque a borracha praticamente acabou nos altos rios de nossa fronteira. Sobrou o que? Como são bons caçadores, vão viver disso. Não sabem fazer outra coisa. Viraram nossos caçadores, matam um veado e tal. Se você for visitar os brancos que vivem ali nas proximidades do nosso Posto de Vigilância do Douro, você vai logo perceber que eles estão numa situação difícil. É constrangedor, Elson, você não os deixar entrar na terra indígena ao menos para garantir a sua própria sobrevivência. É complicado tanto para os brancos e pior ainda para os índios isolados. Por causa disso, também tive muitos problemas com os Kampa lá no alto rio Envira, que compartilham a sua terra com os isolados. Sempre digo pra eles: “Olha pessoal, da foz do igarapé Xinane pra cima vamos deixar em paz, não se pode caçar pras bandas de lá, porque já é território de ocupação dos brabos”.
Txai: Os Kampa do Envira reclamam muito, dizendo que depois da instalação da base da Frente de Proteção Etnoambiental nas proximidades da foz do Igarapé Xinane, local de uma antiga aldeia deles, você impede eles caçarem acima de onde você mora, restringindo muito a terra deles.
Meirelles: É exatamente isso que estou fazendo lá. Não posso negar. Estou restringindo mesmo o território deles. Mas aí pergunto: Onde é que fica o direito dos brabos? Quer dizer que todas as vezes que eles vão caçar lá em cima, matam duas antas, três mutuns e quatro brabos? Espera aí, eles comem brabos? Os Kampa me dizem sempre: “Ah, mas os brabos é quem rouba as nossas coisas e ataca a gente com flechada, porque eles têm raiva de Camparia”. “Infelizmente, vocês tão pagando esse preço”, costumava dizer e ainda digo pra eles. Porque tem uma coisa antiga nessa história, Txai. Quando os Kampa foram morar no alto rio Envira, o que é que eles foram fazer ali? Primeiro, eles vieram dar segurança para os madeireiros do Califórnia, antigo seringal do velho Custódio Prado. Naquele tempo, muitos madeireiros do seringal Califórnia tiravam madeira nas cabeceiras do Envira e nos igarapés Xinane, Imbuia, Riozinho, Jaminauá e Furnanha, que eram cheio de brabos. O que é que os velhos Kampa faziam ali? Eles eram polícia de fronteira, pra garantir a segurança desses madeireiros. É igual aos Ashaninka do Peru, que hoje estão aliados às turmas de madeireiros peruanos, que tão invadindo até as florestas do Parque Nacional da Serra do Divisor e as matas da terra dos Ashaninka do rio Amônia pra saquear as madeiras de lei do lado de cá da fronteira internacional. Então, esses Kampa, no passado, já mataram muitos brabos nas cabeceiras do rio Envira. O velho Bananeira Kampa me contou várias correrias e massacres de brabos organizados pelo pai dele, o famoso tuxaua Kitola. Enfim, os brabos daquela região certamente sabem que os Kampa, que andam de batina, cusma, como se diz, já mataram muitos de seus parentes. O certo é que hoje, quando um brabo vê um Kampa, ele não dispensa uma flechada, ou um tiro de espingarda.
Txai: Na década de 80, e mesmo posteriormente, vários Ashaninka do alto Envira chegavam flechados ou baleados pelos brabos, vindo se tratar na Casa do Índio de Rio Branco.
Meirelles: Então, eu lembrei essa historia aos Kampa mais novos, mas eles me diziam: “Ah, mas não tenho nada a ver com isso!”. Aí lhes respondi: “Infelizmente, vocês vão ter que compreender isso. Lá pros brabos não dá pra explicar essa historia. Vocês estão pagando por uma coisa que os avós de vocês fizeram com os brabos. Como vocês são mais esclarecidos, então, a compreensão tem que partir mais de vocês”. Esse é o discurso que sempre falo para os Kampa do Envira. Enfim, a expectativa da maioria dos índios já contatados, tanto dos Kampa do Envira, quanto dos Kaxinawá do Jordão e do Humaitá, realmente é a de amansar os brabos. “Meirelles, tem que amansar os brabos. Você tá trabalhando há mais de 20 anos por aqui e nunca amansou um brabo? Tem que chamar esses brabos pra tomar caiçuma mais nós, acabar com esse negócio de roubo, flechada e tiro de espingarda na gente”.
Elson: Com larga experiência como sertanista, você acredita na possibilidade dos isolados continuarem invisíveis?
Meirelles: Acredito na possibilidade dos isolados passarem um bocado de tempo ainda nessa condição. A não ser que aconteça coisa, tipo já tá acontecendo agora, como essa exploração predatória de madeira no lado peruano da fronteira. E se descobrir petróleo e gás nas cabeceiras dos altos rios binacionais de nossa fronteira comum? Aí a situação vai ficar insustentável para os povos isolados da região de fronteira. Aí como é que vai ficar? Madeireiros, de um lado, pressionando os isolados e, de outro, empresas explodindo bomba em seus territórios tradicionais pra fazer prospecção de petróleo e gás, ou ainda mineração, ou outro projeto maluco patrocinado pelos governos do Peru e do Brasil? Aí a situação vai ficar incontrolável para os brabos. Os governos mudam também. De repente, o Governo da Floresta pode passar a ser o Governo do Petróleo e Gás de uma eleição pra outra. É preciso ficar atento nisso!
Elson: Um cenário desejável seria os índios isolados continuarem invisíveis, mas a outra hipótese seria voltar ao tempo das correrias, por razoes altamente econômicas.
Meirelles: Vejo três cenários possíveis. Se nada acontecer para mudar a política econômica que está aí colocada, vai chegar o dia em que a exploração madeireira e petrolífera vai está nas portas das malocas e nos roçados dos isolados dessa região de fronteira. Aí inevitavelmente vai acontecer o contato. Mas acho que antes disso acontecer, corre o risco de haver conflitos armados entre os diferentes grupos isolados, já por conta dessa historia de exploração madeireira intensa do outro lado da fronteira peruana. Já atiraram três vezes, no ano passado, contra os trabalhadores da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira. Também já atiraram duas vezes nos Kampa do alto Envira. Em fins de 2007, passaram mais de 40 brabos nus lá na aldeia Simpatia, do Raimundo Lino Kampa. Tinha pouca gente lá naquela ocasião. E as mulheres Kampa, pra escapar, caíram no rio e se esconderam nas matas do outro lado do rio. Saquearam tudo que eles tinham lá na aldeia. Os Kampa suspeitam que eles não sejam nem índios brabos. E se são isolados, vieram de fora da região, porque o corte dos cabelos deles é bem diferente dos povos isolados que habitam a região do alto rio Envira. Podem ser brabos do lado do Peru, que já atacaram acampamento de madeireiros e roubaram espingardas. Podem ser brabos, com quatro aspas de cada lado, que tão trabalhando juntos com madeireiros peruanos, porque o corte de cabelos deles é muito parecido com o dos Jaminawa. Os Kampa chegaram a ver alguns deles e os trabalhadores lá da base da Frente do Envira também, quando foram alvejados em outra ocasião. Tem Jaminawa lá no alto Juruá peruano, acima da aldeia Ashaninka de Dulce Gloria, que tão trabalhando com madeireiros peruanos. E esses índios já têm bem uns 15 anos de contato. Os mais velhos deles viveram ainda no tempo de brabos. Quer dizer, tirou a roupa, passou urucum na cara, meu amigo, vira logo brabo. Só que com espingarda na mão, não é mais com arco e flecha, não. O pessoal lá da aldeia Simpatia, quando aconteceu isso, juntou um bocado de Kampa e foram atrás. O meu filho Artur me avisou: “Pai, tem um problema sério por aqui”. “O que foi, meu filho?” “Os Kampa foram atrás dos brabos”, disse ele pelo rádio. Pois bem, no final do ano passado, quando o Artur subiu o Envira, fazia poucos dias que os brabos tinham passado lá na aldeia Simpatia e feito esse roubo. Dois dias depois, quando ele baixou o rio e passou lá na Simpatia, não encontrou ninguém. Só estavam lá dois meninos e as mulheres. Ele perguntou: “Cadê os homens?” Um dos meninos respondeu: “Tá tudo atrás dos brabos”. Aí eu pensei; vai haver conflito aramado se os Kampa toparem esses brabos que tinham roubado as coisas deles. Depois fiquei sabendo, que quando os Kampa entraram na mata e encontraram o primeiro acampamento dos brabos, que viram o tanto de gente que tinha, cismaram do pau da porteira e voltaram. Era muita gente, entendeu? E os cara armados de espingardas! Os Kampa da Simpatia fizeram as contas e acharam que não valia a pena tomar suas coisas daquela gente.
Txai: A regularização de terras indígenas para os povos isolados no Acre, garantindo um corredor formado por três terras indígenas destinadas aos isolados, não é uma garantia para que esses povos possam continuar voluntariamente isolados?
Meirelles: Eu concordo com isso, Txai. Mas com essas novas coisas que já estão acontecendo do outro lado da fronteira peruana, essa intensificação da exploração madeireira do lado de lá, a coisa tá ficando mais complexa. O que é que está acontecendo? Nosso dever de casa tá sendo feito. Todo o lado da nossa fronteira, hoje em dia, é formado por áreas protegidas, como terras indígenas, inclusive por aquelas destinadas a índios isolados, reservas extrativistas e o grande Parque Nacional da Serra do Divisor. Está toda protegida e preservada. Pra onde é que os brabos lá do Peru tão correndo com a intensificação das atividades madeireiras do outro lado da fronteira? É pra cá mesmo, que por enquanto tá bem mais tranqüilo. Eu não sei o que isso pode gerar. Os Kampa já me falaram: “Meirelles, ou você resolve esses roubos e ataques dos brabos, ou nós vamos resolver do nosso jeito”. E aí é aquela história, vai morrer quem? Chega uma hora que o camarada não agüenta mais. Aí você chega lá na Coordenação Geral de Índios Isolados, da Funai, em Brasília, e diz que os brabos passaram lá na aldeia Simpatia dos Kampa e levaram 10 terçados, 15 machado, 12 mosquiteiros, oito redes e seis panelas. “Só isso?” Só isso o cacete! Os brabos, se é que eram brabos, levaram todas as coisas de valor que eles tinham na vida. Absolutamente tudo. Todo o patrimônio deles. Ninguém acha isso bom!
Txai: Nos últimos 20 anos em que você trabalha como sertanista no alto Envira, quais os principais conflitos envolvendo os isolados naquela região de fronteira?
Meirelles: Um pouco antes de eu chegar lá nas cabeceiras do Envira tinha tido aquele problema com o filho do Txumbo, que morava na última aldeia do Envira, acima da aldeia Xinane, onde hoje tá localizada a base da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira. Pois bem, o pessoal do velho Txumbo, certa vez, estava tomando cipó à noite, bailando no terreiro da aldeia. A velha dele, a Pichiquita, saiu pra urinar numa moita de bananeira, assim perto da casa do Txumbo, e viu dois brabos que estavam espiando aquele ritual dos Kampa. Ela volta correndo e diz pro Txumbo. O velho falou: “Não é nada, não. É cipó”. “Não, não é cipó não, eu vi dois brabos”. Daí os filhos do Txumbo foram até lá e viram que eram os brabos. Os brabos correram e eles atiraram nos brabos. Balearam um. Parece que ele não morreu. E se morreu, não acharam o corpo. Rapaz, depois daquele episódio pra frente, a vida do Txumbo começou a virar um inferno. Primeiro, os brabos atiraram no Minanco e no filho dele. Depois atiraram no Miano. Depois, quando eles subiram o rio pra fazer uma pescaria e acampar na praia, os brabos tocaram fogo nas casas da aldeia do velho Txumbo. Aí o velho Txumbo e toda a sua família extensa mudaram-se mais pra baixo. Aí novamente os brabos tocaram fogo na casa do Txumbo. Só na casa dele. Aí outra vez eles se mudam pra uma terra grande que tem ali perto da boca do Riozinho. Não se sentindo ainda seguros naquele local, mudaram-se pra dentro do igarapé Simpatia e os brabos foram lá e queimaram a casa dele novamente. Por último, ele se mudou lá pra TI Kaxinawá do Seringal Nova Olinda, onde, alguns anos depois, o velho Txumbo faleceu. Isso aconteceu antes de eu chegar lá nas cabeceiras do Envira e montar a base da Frente. Logo que eu cheguei lá, escutei um boato de que dois caçadores do Otávio Melo haviam acuados dois brabos com cachorro e mataram esses dois índios. Mas isso aí ninguém viu nem achou os corpos dos brabos. Ninguém sabe direito desse episódio. Depois teve também aquele problema entre os Kaxinawá e os brabos nas cabeceiras do rio Jordão, lá dentro do igarapé Papavô, afluente da margem esquerda do alto rio Jordão, quando alguns caçadores Kaxinawá da aldeia Bondoso mataram pelo menos um brabo, durante uma caçada de acampamento. Depois mataram um brabo no Douro, no alto rio Tarauacá, que deu até processo criminal contra alguns caçadores e madeireiros da sede do Município de Jordão. Um dos envolvidos era o então vereador Auton Dourado Farias, sobrinho do então prefeito de Jordão, Turiano Farias, aquele que se suicidou no último dia de seu mandato há quatro anos atrás. Acharam o corpo do brabo e a Polícia Federal trouxe o corpo pra Rio Branco. Em 1990, os Kampa foram me visitar lá na base da Frente, quando os parentes estavam andando por ali. Ainda falei pra eles: “Não é bom fazer os tapiris de vocês aqui perto de casa, porque os parentes brabos tão andando por aqui”. Eles teimaram e fizeram os tapiris deles numa praia, perto da base. Eram bem três famílias de Kampa. Aí um deles me disse: “Meirelles, vamos flechar curimatã lá no Xinane”. “Rapaz, é o seguinte. Se vocês quiserem ir, podem ir, mas se eu fosse vocês não ia, não, porque tá cheio de brabo por aqui. Ainda ontem fui andar lá e vi rastros novinhos deles”, respondi. “Nós não vamos longe, não. Só vamos até a boca do igarapé Imbuia com o Xinane”. “Então, vai. Se eu me animar vou até lá também pra acompanhar vocês”. Eles foram na frente. Naquele tempo, o pessoal que trabalhava comigo estavam limpando nosso roçado. Tava todo mundo pro roçado. No tapiri dos Kampa só ficaram as mulheres. Aí a Tereza, minha esposa naquela época, tava lá na base, e me pediu: “Meirelles, você não quer ir pegar uns piaus lá no Xinane pra gente almoçar. Tô com vontade de comer piau”. Aí peguei a tarrafa e fui pescar no Xinane seguindo a pisada dos Kampa. Nesse ínterim, as mulheres Kampa deixaram os tapiris e foram visitar e conversar com a Tereza lá em casa. Foram pedir sal. Quando elas voltaram, tava só os tapiris limpos. Levaram todas as coisas que os Kampa tinham trazidos. Os brabos estavam no tacanal, pastorando o movimento todo. Deixaram apenas uma cachorrinha no tapiri. Os brabos deram uma terçadada bem na cabeça dessa cachorrinha que quase partiu, mas não matou, não. A Tereza, depois, até costurou a cabeça dessa cachorra. Quando voltamos da pescaria juntos, tava aquela confusão nos tapiris dos Kampa. Em outra ocasião, tiveram ainda quatro ou cinco episódios dos Kampa chegar lá na base da Frente e os brabos flecharem eles. Felizmente, as flechadas não pegaram neles. Os brabos já flecharam até a mulher do velho Bananeira. Era só visitar a base, que acontecia esses incidentes com os Kampa.
Txai: Em 1998, por ocasião da demarcação da TI Kampa e Isolados do Rio Envira, os brabos queimaram todas as casas da base da Frente de Proteção do Rio Envira. Conte aí como foi esse episódio.
Meirelles: Quando a empresa Asserplan foi contratada pelo PPTAL para demarcar a terra Kampa e Isolados do Envira, eu já havia proposto ao Departamento de Índios Isolados, da Funai, a regularização de duas outras terras indígenas circunvizinhas destinadas aos índios isolados de nossas fronteiras com o Peru, a TI Alto Tarauacá e a TI Xinane, que a partir de 2003 passou a se chamar Riozinho do Alto Envira. Pois bem, em 1998, quando iniciamos a demarcação da terra Kampa e Isolados do Envira, a gente fez um sobrevôo e tinha localizado dois conjuntos de malocas de brabos. Aí eu disse ao pessoal do PPTAL: “Pessoal, a demarcação física dos limites dessa terra não vai dar certo, porque tem uma picada que vai passar bem perto de uma dessas malocas de brabos e eles vão botar a gente pra correr. Em vez de demarcar apenas uma terra, vamos demarcar logo as três terras juntos. Assim, a gente só demarca o entorno das três terras. Não são todas as três terras indígenas? Portanto não precisa fazer as picadas entre elas. Demarca só o entorno das três terras logo, porque assim a gente passa longe das malocas dos brabos. Assim, nós vamos matar três coelhos numa só pancada”. Aí me disseram: “Ah, não, porque tem que demarcar cada uma delas separadamente, por causa disso e daquilo”. Naquele tempo, a Karola Kasburg, um sargentão alemão da GTZ, e o antropólogo Arthur Nobre Mendes eram quem mandavam no PPTAL, lembra Txai Terri? Aí, por causa desse pessoal, lá fomos nós demarcar apenas a TI Kampa e Isolados do Rio Envira. Resultado: entramos numa fria. O bobo aqui do Meirelles, três trabalhadores da Frente Envira, um monte de peões da Firma Asserplan e quatro índios Kampa. Fizemos as picadas da margem esquerda do Envira e deixamos farinha e outras coisas escondidas em pontos estratégicos. E fomos pro outro lado. Quando voltamos à margem esquerda, os brabos tinham derrubado todos os nossos tapiris. Só não acharam a farinha e outras coisas, porque eu não sou besta. Escondi bem na mata. Voltamos para a base e fomos demarcar depois a parte da margem direita, que era a picada mais perigosa que eu achava que a gente ia fazer. E não deu outra. Nos jogamos na mata, 30 quilômetros de mata adentro, pra começar a fazer a picada até a fronteira. Tinha deixado apenas dois trabalhadores lá na base da Frente. O resto tava comigo na mata. Quando chegamos ao local aonde era pra começar o serviço da picada, no dia que chegamos, nove pras 10 horas da manhã, começamos logo a organizar o nosso acampamento, fazer tapiri, fazer casa, uns vão tirar lenha, outros vão fazer isso e aquilo. Aí eu fui dar uma olhadinha nas matas ao redor do nosso novo acampamento. Fui ver se matava uma embiara (caça pequena) e ver como era que tava a barra por ali. Desci num igarapé pequeno e vi um rastro de gente e um pedaço de casca de cana. “Cana? Aqui nas cabeceiras do Riozinho? Ah, não, tem alguma coisa errada por aqui!”, pensei com os meus botões. Quando voltei pro acampamento, falei logo pra rapaziada: “Pessoal, os parentes tão aqui por perto. Vi rastros de brabos e cascas de cana. De duas uma, ou tem maloca de brabos aqui por perto, ou os brabos passaram lá na base do Xinane e vem nos acompanhando o tempo todo. “Ah, não sei o quê, não tem brabo por aqui, você tá com paranóia e tal”, respondeu o chefe de campo da empresa. No outro dia, os peões da Asserplan começaram a picada na boca de dois igarapés pequenos, mas eu continuei fazendo a ronda nas matas ao redor do nosso acampamento. Logo abaixo encontrei quatro tapiris de brabos e macaco brabo que só o cão. Logo imaginei que os brabos estavam perambulando por ali. No terceiro dia, liguei o rádio, tinha trazido um comigo, e falei com um dos trabalhadores que ficado lá na base do Xinane. O cara foi logo me dizendo que as coisas lá não iam nada bem. Perguntei: “O que foi que houve aí na base”? O cara me respondeu: “Seu Meirelles, eu não estou mais na base, não”. Já apreensivo, perguntei de novo: “Onde vocês estão?” Ele me respondeu: “Estamos aqui de frente da aldeia do Bananeira Kampa. Os brabos chegaram à noite lá na base e tocaram fogo em todas as casas da Frente. Só deu tempo pra tirar o rádio e a bateria. O resto queimou tudo. Só não nos mataram, porque não quiseram. Corremos à noite com medo dos brabos, o seu Baltazar e eu”. Perplexo, indaguei: “O quê, rapaz?” “Estamos aqui na praia, só com a roupa do corpo, esse rádio velho e a bateria”. “Tá ruim! Os parentes queimaram a base e agora estão aqui nos cercando”, falei logo pros meus companheiros. Naquela noite, ninguém dormiu. Os brabos tinham realmente cercado nosso acampamento. Passaram a noite soprando macucau, mutum, jacu, imitando macaco Parecia que os bichos todinhos da mata estavam ao redor do nosso acampamento. Eram eles, os parentes! Ainda falei para os companheiros: “Agora, sim, queimaram a minha base todinha. Tudo que eu havia construído lá esses anos todos virou cinza. Motores, espingardas, roupas, panelas, casas e galinheiros viraram cinza. Enfim, tudo o que a gente tinha lá virou pó”. Ainda disse pro pessoal: “Não é bom a gente voltar por onde nós viemos, porque daqui dá 30 quilômetro até a base”. Aí o pessoal da Asserplan que não acreditava que os brabos iriam cercar a gente, depois daquela noite que ninguém dormiu, começou a ficar com medo. Ninguém queria sair do acampamento. Aí eu falei pra eles, tentando acalmá-los: “Não dá pra gente voltar pelo mesmo caminho que viemos. Eu mesmo não volto nem amarrado. Enfio a cara na mata e vou sair lá em Santa Rosa, mas pelo mesmo caminho não volto, porque os brabos tão esperando a gente passar por lá pra nos atacar. Atrás de cada sapopema de árvore grande daquela deve haver dois ou três brabos nos esperando na tocaia”. Aí os peões da Asserplan começaram a ficar apavorados, querendo sair da mata de qualquer jeito. E quanto antes melhor. Aí eu falei pra eles: “Vamos ficar calmos e pedir socorro pelo rádio. A melhor coisa que a gente pode fazer agora é não sair daqui. Por aqui estamos no nosso acampamento e já limpamos ao redor. Estamos mais protegidos. Os brabos estão espalhados por aí em pequenos grupos. Se a gente meter a cara na mata, vamos só levar flechadas. Vamos fazer uma clareira grande logo ali no início da picada, que já tá meio limpa, amplia-la mais e chamar um helicóptero para nos tirar daqui”. Rapaz, fizemos essa clareira em tempo recorde. Nunca tinha visto os peões trabalharem com tanta rapidez e eficiência como aquela. Enfim, para escaparmos dessa quase tragédia anunciada fomos, de fato, resgatados por um helicóptero das Forças Armadas. |