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Marcos Afonso |
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VOCÊ JÁ PULOU MACACA? NOTA (MARCOS AFONSO): Mais um texto saboroso da Patrycia Coelho, minha mulher, com suas memórias gastronômicas. A partir de julho, Patrycia, escreverá uma coluna semanal sobre o tema para o blog do Site da Biblioteca da Floresta. Aguardem! |
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![]() “Fim de noite na praça, pleno domingo: casais de namorados, famílias passando, os “cuidadores de carro” encerrando o expediente e na frente do Coreto, duas crianças entre cinco e oito anos pacientemente riscando o chão. Meu marido não agüentou: “Vou lá ver se elas estão brincando de macaca”, ou amarelinha, como é conhecida em alguns lugares. As meninas olharam meio de banda, mas em segundos estavam orgulhosamente pulando pra ele ver. Isso imediatamente me transportou de volta há muitos anos atrás, onde eu e um grupo de meninos e meninas, giz em punho, procurávamos um chão de cimento na ausência de asfalto e íamos construindo nossa brincadeira. Saudosismos a parte, o baleado, bandeirinha, manja e pêra,uva,maçã parece que embarcaram em uma canoa furada e desceram o fundo do rio para de lá tão cedo não sair. Molecotes de antigamente, vivíamos suados e esbaforidos de tanto correr. Como única mulher entre quatro irmãos, tornei-me especialista em jogar “pelada”, soltar papagaio, brincar de peteca e comer manga no pé. Nas horas vagas, ainda tínhamos energia para pular o quintal alheio atrás de “pepeta” ou fruta madura. Marilana, cajá, manga, goiaba, cana, ingá, a lista de petiscos não tinha fim. Nosso calendário de frutas era perfeito, acabava uma, começava a outra. Até hoje tenho dificuldade em comprar manga e graviola no supermercado, acho estranho: a fartura do quintal era tanta que dávamos graças a Deus quando alguém aceitava um pouco do excedente, já sem lugar para guardar, em casa ou na barriga. Os franceses são especialistas em fazer suas refeições com os produtos da estação, os mais frescos que eles podem encontrar. Mireille Guiliano, CEO (Chief Executive Officer) da Veuve Clicquot, empresa famosa pela qualidade de seus champanhes, escreveu um livro delicioso e muito fácil de ler, chamado “As Mulheres Francesas Não Engordam”. O livro virou um best-seller por falar entre outras coisas das diferenças entre americanas e francesas ao se alimentarem: enquanto as americanas se empanturram com porções quilométricas de comida, quase sempre na frente da televisão, as francesas escolhem os produtos da época, fazem sua própria comida e consomem porções menores. Não há nada mais perfumado que uma fruta no auge da estação nem sabor mais delicado que o de um legume ou verdura recém-colhidos. Os produtos expostos nos supermercados, embalados em bandejinhas prontas para o consumo, quase sempre foram retirados ainda verdes, o que implica em menos sabor. Experimente cheirar uma manga de supermercado e compare com aquela que tem no quintal de casa e você saberá do que estou falando. Lembro de um vizinho de minha mãe, cuja criatividade e capricho fizeram-no construir uma casa de bonecas para seus inúmeros cachorros, que em tempo de goiaba alimentava os bichinhos entre outras coisas, com latas e latas de querosene cheias da fruta madura, recolhida do chão de nosso quintal. Aquele cheiro inebriante ainda me acompanha, chão vermelho de goiaba pisada. Tinha a época da laranja, esta vinda de fora, em grandes caminhões, comprada no cento. Um dos meus lanches preferidos era exatamente laranjada (quem lembra?), que é o suco de laranja batido com água e açúcar, única forma de aumentar a quantidade e encher a barriga da meninada, acompanhado de pão sem manteiga e sem miolo. Enjoei de manteiga depois que besuntei um pão por dentro e por fora, tamanho o amor que eu tinha pela iguaria. Por conta disso passei muito tempo sendo light sem saber, pois não conseguia nem olhar pra manteiga. Neste mês de santo Antonio, como não lembrar dos folguedos dessa época?Ainda não era errado fazer uma bela fogueira, metros e metros acima do chão: as famílias da minha rua tinham todas à frente de suas casas fogueiras grandes ou pequenas, dependendo da coragem do arrumador. Fazíamos adivinhações com pingos de vela em pratos com água, para saber a inicial do futuro consorte e coitadas das bananeiras, levavam algumas facadas com o mesmo fim. Era chegada a hora de arrumar compadres e comadres de fogueira e tínhamos tantos afilhados quantos fossem os meninos da rua. Mas o bom mesmo era pular aquelas brasas, naquele friozinho característico das noites de junho de antigamente. Numa dessas, um de nossos amigos, irmão de conhecida figura aqui da capital, caiu na fogueira e foi um deus-nos-acuda, uma verdadeira tragédia. Nós todos, enquanto durou a memória do acontecido, fomos proibidos de chegar perto de fogo, mas o menino está aí até hoje para contar a história, graças a Deus sem seqüelas. Melhor que pular fogueira e jogar banana comprida nas brasas, pra comer com manteiga e açúcar, era ir aos arraiais. Ah, se saudade matasse... As barracas de pescaria e argolas, cheias de lindos e diversos brindes: ursinhos de pelúcia, bonequinhas e um mar de pequenos e diferentes agrados, naqueles momentos de puro deleite. Meninas enfeitadas com vestidos rodados, pintinhas pretas no rosto, meninos com um lindo bigode e um chapéu todo desfiado, grandes na sua responsabilidade de dançar a quadrilha. Mas nada, nada mesmo se compara às barraquinhas de comida. Lembro vagamente de pratinhos com galinha desfiada, vatapá, arroz branco e farofa e pratos fundos de pato no tucupi. O objeto da minha gula era, entretanto, uns pedaços de bolo massudo, servidos com um copo de Nescau bem quente (chocolate era artigo de luxo). As galinhas do bingo, em pratos de papelão, rodeadas de farofa com azeitonas e rodelas de ovo cozido, eram um show a parte, disputadas em sua roupa de gala, lindos papéis celofane de todas as cores. O aluá, de milho ou abacaxi, era comida de autor, ou melhor, de autora. Nas barracas, o anúncio: este aqui foi feito por fulana, normalmente uma quituteira conhecida ou então, uma especialista em aluá, o que era como um selo de qualidade. Infelizmente, só depois de bem grande é que fui apreciar de verdade o seu sabor diferente, puxado ao gengibre. E a canjica, servida em copinhos, algumas mais moles, outras mais duras, ao sabor do freguês, polvilhadas com canela, a mesma canela que perfumava os mungunzás e os mingaus de tapioca e banana, eita comida mais de alma... Nós íamos a um arraial atrás do outro, o da Igreja, o da escola... Olhávamos as quadrilhas, estourávamos bombinhas e fazíamos de conta que éramos gente grande: penso que precisamos resgatar esses cheiros e sabores, essas barraquinhas com pó de serra, pra eu não ter mais a incômoda sensação de ver, na escola do meu filho, uma barraca vendendo canjica: o único problema, se é que há um, é que na placa estava escrito: vende-se curau!” |
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