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Suindara, Rasga-mortalha ou
A historiadora e escritora Fátima Almeida, outro talento da literatura acreana escreve o prefácio e a chama, acertadamente, de “Leila Felliniana”. Perfeito: reproduzo um trecho que mostra o caminho percorrido por Suindara: “É difícil saber o quanto Rio Branco causou a perdição de almas, mas é possível entrever através das crônicas da Leila Jalul que esta cidade, um dia tão pequena e intensa, contemplou, de seus muros, barrancos e quintais, a vida de uma comunidade em que paroquianos seguiam sua rotina, sírio-libaneses olhavam para Meca, gente de cor bebia uásca, médicos eram deuses, os padres eram temidos, os políticos eram padrinhos dos quais provinha os empregos, pobres e coitados desgarrados buscavam abrigo e trabalho, mulheres eram humilhadas por maridos libertinos e crianças moviam-se com o olhar cheio de curiosidade em um meio adulto protetor, amoroso e bruto”. A própria Leila confessa em “Vitrines do Tempo” (página 9): “Estas croniquetas são nada mais, nada menos, que imagens vivas do batente. Narram passagens particulares por mim experimentadas, e passagens de outros entes que sequer souberam que passaram. Ninguém lhes observou o andar, o desamor, o berço, ou a falta dele. Não poemaram, e lhes faltou garganta e força para desatarem o nó de suas forcas. Não houve tempo nem oportunidade de galgarem postos. Eram como folhas soltas na tempestade e varridas da moderna memória dos muitos que se pensam vivos”. Modéstia dessa menina que pintou o 7 dos anos cinqüenta para cá, nesta cidade de “almas represadas” como a definiu o escritor e poeta xapuriense Océlio de Medeiros. É o que se depreende, aqui e ali, das 56 crônicas nas quais a autora tece uma colcha luminosa com personagens encantadores como Ana do Botão, o Homem do Tempo, as Donas Mozinhas, Adélia com seu sorriso, a Francesinha... Ah! Meus amigos, o livro de Leila é um manual de acreanidade. Através dele a gente vai perceber que todos nós que nascemos ou simplesmente optamos por viver neste lugar onde se diz que o vento, graças a Deus, faz a curva, somos feitos de outra massa. Vamos lembrar ou saber que na Praça Cívica em frente ao Palácio Rio Branco, havia uma imbiricica de benjamins sob cuja sombra as moiçolas desfilavam em pencas, abraçadas, despertando a libido dos rapazes nos fins de tarde e antes de soar o bombo do Cine Rio Branco, anunciando o início da sessão. No meio da praça permanece sem vida, hoje, o que no passado servia de iniciação aos jovens que saiam do Colégio Acreano procurando aventuras sentimentais. Não faltava quem colaborasse para essas “descobertas”, como um barbeiro baixinho que tinha seu salão num corredor próximo de onde funciona hoje a loja Marisa. Também antes da hora do cinema, numa mesa cativa em volta do Bar Municipal, ele tomava lá suas doses de quinado com sorvete para exibir seus dotes de tenor. Cantava “O Ébrio” e “Porta Aberta”, de Vicente Celestino, num tom alto que ecoava rio acima e nas matas ainda próximas da cidade. Enquanto isso, descendo e subindo a passarela (perdão: calçada) da praça , víamos figuras como Tom Mix, aparentemente saído dos episódios ou faroestes exibidos no Cine Rio Branco, o Camaleão Ovado, a Teúda e Manteúda, entre outros personagens que não escaparam à memória arguta e apaixonada de menina Leila que, felizmente, tem o dom de nos falar, deliciosamente, desse mundo encantado. O livro Suindara (nome dado à determinada espécie de coruja) quase recebeu o título de Rasga-Mortalha (outra coruja, porém mal assombrada e agourenta). Qualquer dos nomes serviria porque, como os leitores podem perceber ao ler a obra, Leila Jalul brinca de macaca sobre os preconceitos. O que jorra dela, quando fala da vida ou da morte, da felicidade ou infelicidade, carrega o adorno de envolvente escracho, feito na medida para expressar relações humanas verdadeiras, embaladas em amor profundo. (EM) O Sorriso de Adélia Leila Jalul
Sonhei muito, quando criança, que ela me adotasse. Desisti ao sentir que não teria a menor chance. Dona Adélia era a mãe de todos e alcoviteira de muitos. Se me adotasse, com certeza, estaria em apuros. Morava ali, bem ali, na rua principal. De sua cadeira via o Palácio Rio Branco, a fonte luminosa, os pés de benjamins atacados pelos lacerdinhas, o Bar Municipal, pertinho do Cine Rio Branco e do clube com o mesmo nome. De segunda a sexta: a companhia do marido farmacêutico e do seu eterno guardião, o agregado Nilson. Sua irmã, Dona Maroca, não era proprietária do mesmo senso de humor. Para completar o cenário, além do centro do poder, Dona Adélia ainda usufruía dos acordes da velha banda do maestro Neves. Vá ter sorte desse jeito lá na caixa-prego! Bastava sentar e apreciar. A retreta comia solta! As moças, de braços dados, subiam e desciam a ladeira, fofocando sem parar, ao som de “Lembrar, deixe-me lembrar, meus tempos de rapaz, no Braz”. Uns outros dobrados, lindos, lindos, tudo de autoria e lavra dos maestros Zeca Torres e Sandoval. Nesse vai e vem, sobe e desce, a disputa feroz pelos “Mauricinhos”. E Dona Adélia só de butuca! Uma vinha e contava a penúltima; outra contava a última. No fim, dava tudo certo. As “mais” pequenas, Maria Amélia, Tanda, Madalena, euzinha ficávamos como mariposas dando voltas em volta da fonte. Brincávamos de manja, pega-pega, às vezes nos arranhando e desmanchando os laçarotes dos cabelos bem penteados por nossas mães. Às vezes, rasgávamos os vestidos tão bem costurados por nossas mães. Como são tolas as mães! Na hora do pisca, anunciando o fechar da usina fornecedora de energia, corríamos todas para os pés de Dona Adélia. Pente na mão, linha e agulha na outra, ela literalmente nos refazia para que não sofrêssemos as punições em casa. Maria Amélia que o diga! E eu, então? Íamos felizes, embora sabendo o que nos esperava. Apagada a luz, os namorados davam os últimos beijos por detrás dos pés de benjamim. Dona Adélia dava a última gargalhada e se recolhia. No quartel, os músicos da Furiosa largavam os trompetes, clarinetes, tubas, bumbos e surdos. O outro dia amanhecia em paz. Semana que vinha, tinha mais. |
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