| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Memória da arqueologia acreana (IX) O Acre de 3.000 anos Diferente do que vem sendo divulgado recentemente a pesquisa arqueológica no Acre não é nenhuma novidade. Pelo contrário, neste ano de 2007, comemoramos 30 anos de trabalhos ininterruptos. Do mesmo modo, a pesquisa de sítios arqueológicos com estruturas geométricas de terra (ultimamente divulgados sob o nome de fantasia “geoglífos”), também não apresenta nada de novo. Tanto assim que o ano de 1994 marcou a realização de um inédito projeto de pesquisa intensiva em sítios deste tipo, além de representar o final do processo de formação da primeira arqueóloga acreana Mauricélia Sousa. Na semana passada vimos que o grande número de informações recolhidas nas pesquisas de campo realizadas em 1992, revelava claramente a necessidade de aprofundar ainda mais as informações disponíveis sobre a pré-história acreana, em especial no que diz respeito aos sítios com estruturas de terras geométricas. Para tanto foi elaborado o “Projeto de Pesquisas Arqueológicas no Estado do Acre - Brasil”, com financiamento da National Geographic Society e apoio local. Este projeto teve a coordenação do Prof. Dr. Ondemar Dias Jr, sub-coordenação de Mauricélia Sousa e participação da equipe do IAB e de outros colaboradores. E um pequeno trecho do relatório final dos coordenadores do projeto deixa claro seus principais objetivos. “Este projeto de pesquisas dá continuidade as pesquisas arqueológicas desenvolvidas pelo Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) no Estado do Acre desde 1977. Contudo, dois aspectos diferenciam esta pesquisa arqueológica das anteriormente desenvolvidas. Em primeiro lugar marca a formação de uma equipe de arqueólogos (sob a direção da Profª. Mauricélia Barrozo Alves de Sousa) que residindo na região do Estado do Acre deverá dar prosseguimento aos trabalhos arqueológicos a serem ali realizados. Em segundo lugar até então as pesquisas no Acre foram de caráter extensivo (privilegiando a prospecção e registro de sítios arqueológicos) dado o absoluto desconhecimento da pré-história desta parte da região amazônica até a década de 70, portanto a realização do presente projeto de pesquisa inicia também uma nova fase no aprofundamento das informações até então disponíveis para esta área arqueológica, uma vez que este Projeto visa o estudo intensivo de um importante sítio arqueológico: o Sítio Los Angeles (AC-XA-07).
Como era de se esperar, portanto, esta pesquisa revelou novas e importantes informações acerca da pré-história acreana no geral e dos sítios geométricos em particular. Além da questão da espacialização das ocorrências já mencionada acima, podemos ressaltar a descoberta do primeiro sítio que não possuía uma forma circular, mas sim de tendência quadrada. Caso do sítio Sapucaia (AC-IQ-12), localizado no ramal 55 da BR-317. Também conseguimos localizar nesta pesquisa o maior sítio geométrico até aqui registrado no Acre, caso do sítio Xipamanu I (AC-XA-08), constituído por um círculo com cerca de 350 metros de diâmetro e vestígios de possíveis muretas de “saída”. Bem como o primeiro sítio deste gênero em área de mata fechada (primária) e que foi denominado de sítio Jarina (AC-XA-12) por apresentar grande quantidade dessa palmeira, entre outras, em seu interior, além de ser o sítio mais ao sul entre todos os até aqui localizados em território acreano. Esta ultima ocorrência (um circulo com cerca de 70 metros de diâmetro e significativa presença de material lítico e cerâmico) fez com que toda a equipe ficasse muito animada com as diversas possibilidades de desenvolvimento de uma pesquisa inovadora pela comparação entre a flora presente no interior e no exterior do círculo como maneira de obter novas informações acerca do processo de construção do sítio. Bem como, é claro, a possibilidade de realizarmos processos de dendrocronologia – datação pelas camadas anuais de crescimento das arvores - no interior do sítio e que também pode fornecer informações sobre alterações climáticas antigas nesta área. Possibilidades que ainda não foram concretizadas e devem ainda ser exploradas em novas pesquisas. Mas, sem duvida, entre todos os avanços obtidos a partir da pesquisa de 1994, os mais importantes estão relacionados às informações coletadas pela escavação intensiva do sítio Los Angeles. Como já me referi no artigo anterior, este sítio vem se revelando como um dos mais importantes sítios geométricos do Acre pela enorme quantidade de material arqueológico diversificado que apresenta. Nos diversos cortes realizados em diferentes áreas do sítio foi possível encontrar material cerâmico bastante variado quanto às formas e decorações, material lítico muito original que atesta diversas fases de fabricação de laminas de machado com orelhas em blocos de piçarra, além de madeira petrificada e outras matérias primas, material ósseo animal e carvão para datação por carbono 14, entre outras ocorrências. Com essa escavação puderam então ser avaliadas características do processo de construção das estruturas de terra, características da ocupação humana em seu interior e exterior, período em que o mesmo foi habitado, etc. Só para exemplificar: a partir das escavações de 1994 (complementadas por dois outros trabalhos em 1996 e 1999, que veremos posteriormente) sabemos que o Los Angeles foi habitado por um largo período que pode ter se estendido entre 3.000 e 1.000 anos aP (antes do presente), apresenta vestígios arqueológicos também fora das estruturas, além de apresentar a possibilidade de ter sido construído em áreas de “terra firme” por sociedades mais complexas do que as sociedades tribais que foram registradas pela historiografia regional, podendo ter chegado ao nível de “chefias” hierarquizadas, segundo trabalho apresentado pelo Dr. Ondemar Dias no Congresso de História Argentina em 2001. Isso sem mencionar diversas outras informações e hipóteses oriundas das diversas pesquisas arqueológicas já realizadas e que serão discutidos na próxima série de artigos (assim que findarmos a atual série “Memória da Arqueologia Acreana”) desta coluna. Uma nova série que deverá tratar mais profundamente do que já se sabe acerca dos sítios geométricos do Acre, que longe de se tratar de uma “novidade” a ser explorada de forma sensacionalista, diz respeito a um persistente trabalho desenvolvido por muitos pesquisadores e instituições ao longo dos últimos 30 anos e nos revela a grande riqueza e importância da ocupação humana nesta região da Amazônia Ocidental. OBS: Quero registrar, e assim reconhecer, a importante contribuição de diversas pessoas e órgãos públicos e privados para a realização da pesquisa de 1994. Além da Dra. Betty Meggers, responsável pelo financiamento deste projeto e grande incentivadora da arqueologia acreana, coordenaram este trabalho o Dr.Ondemar Dias e Profª Mauricélia Sousa. Participaram, como pesquisadores do IAB, Rosangela Menezes, Divino de Oliveira, Jandira Neto Dias e Marcos Vinicius Neves. Contamos também com a colaboração dos estudantes Valmir Araújo e David Sousa e de diversos acreanos que moram na zona rural e auxiliaram na descoberta de novos sítios e informações e que foram tantos que os homenageamos através do Sr. João e Dona Mariquinha da Fazenda Uberaba, de apoio inestimável durante as escavações do Los Angeles (na residência de quem inclusive assistimos o Brasil ser Tetracampeão na copa de 94). Além, é claro, de registrar o apoio institucional do IMAC, Prefeitura de Rio Branco, UFAC, Lojas Guacyra e Lojas Esplanada. |
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