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Incêndio ameaça empresas, residências e instituições públicas no Segundo Distrito

Regiclay Saady
Bombeiro combate o fogo
que tomava conta do mato na região próximo aos hangares do antigo
aeroporto de Rio Branco


Tião Vitor

Um incêndio que teve início na tarde de ontem na região do antigo aeroporto de Rio Branco, no Segundo Distrito, ameaçou destruir residências, empresas, posto de gasolina e órgãos do governo próximos ao local. O fogo começou por volta das 13 horas na região onde antes se localizavam os hangares dos aviões no aeroporto e rápido se espalhou no sentido sul-norte chegando até o parque Capitão Ciríaco, já próximo à ponte Coronel Sebastião Dantas.

As chamas se alastraram pela vegetação rasteira, que tem alto poder de combustão. “Nessa época do ano o mato fica muito seco. Ele pode queimar com muita facilidade e com esse vento forte há sempre o risco de o fogo se alastrar com rapidez, como o que está ocorrendo aqui”, disse ontem a geógrafa e técnica ambiental Ana Paula Jassen, técnica ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semeia) que fazia a fiscalização na região do antigo aeroporto onde o fogo se alastrava na tarde de ontem.

Ela disse que a área em questão é de propriedade do empresário Jimmy Barbosa, que também estava com sua residência, localizada próximo ao supermercado Araújo, ameaçada pelo fogo.

Ana Paula explicou que equipes da Semeia e de outros órgãos da prefeitura estavam espalhadas por diversos pontos do local tentando debelar as chamas

Na região em questão estão localizadas empresas como a Recol Veículos, a V-8 Veículos, a Roda Viva Transporte, o Posto Ale e o Departamento de Estradas de Rodagem do Acre (Deracre). Nesses dois últimos a preocupação dos bombeiros era maior, já que tanto no Deracre quanto no Posto Ale havia grande concentração de combustível.

Ao mesmo tempo em que o fogo atacava no Segundo Distrito, outros pontos de incêndio aconteciam na região próxima às torres da Embratel, no bairro São Francisco; na região próxima à Embrapa, na BR-364; no ramal do Castanhal, próximo a Senador Guiomard; no conjunto Universitário e no bairro Cadeia Velha.

De acordo com o major Godim, do Corpo de Bombeiros, cerca de 60 homens da corporação estavam atuando na região afetada. “Até o comandante-geral está empenhado nessa operação. Estamos aqui com bombeiros veteranos e alunos que estão se formando bombeiros e ainda com veículos e todo o maquinário necessário para combater esse incêndio, já que se trata de uma área onde estão localizadas várias residências e empresas, além de postos de combustível e o próprio Deracre, órgão do governo que concentra grande quantidade de combustível para seus veículos”, explicou o major que coordenava uma equipe de voluntários da Semeia que combatia o incêndio na região localizada atrás do Posto Ale e próxima à residência de Jimmy Barbosa.

No mesmo local também se encontravam os secretários de Meio Ambiente, Arthur Leite, e de Serviços Urbanos (Semsur), Gildo César.

De acordo com Leite, o combate aos incêndios tem sido intensificado pela Semeia com o apoio das demais secretarias da administração municipal, como a Semsur e a Emurb.

“Recebemos cerca de 50 chamadas todos os dias. Nossas equipes estão distribuídas por diversos pontos da cidade, mas não dão conta da demanda”, admitiu Arthur Leite, que naquele momento convocava mais equipes da prefeitura para ajudar no combate ao incêndio.

Arthur reclamou que em todos os locais a maior dificuldade encontrada é a falta de colaboração da comunidade envolvida. “Há locais em que a gente chega e combate o fogo, mas não recebe ajuda de nenhum morador. Pelo contrário, em alguns locais o que a gente sabe é que quando o fogo é apagado e as equipes saem do local, os moradores vêm e ateiam fogo novamente”, disse o secretário.

Da prefeitura cerca de 30 homens atuavam no incêndio de ontem. Seis caminhões-pipa davam apoio a eles e aos homens do Corpo de Bombeiros.

Autuação e multa para proprietários de terrenos baldios

A maior parte dos incêndios que acontecem na área urbana da cidade se dá em terrenos abandonados que não são limpos regularmente. Nesses locais o mato alto e seco é o estopim para o fogo. O vento forte comum nesse período do ano se encarrega de espalhar o fogo.

De acordo com Ana Paula Jassen, os proprietários de imóveis que se encontram nessa situação podem ser penalizados. Eles podem ser autuados e multados.

É o caso do empresário Jimmy Barbosa, dono da área incendiada ontem. Ela está localizada em um ponto nobre da cidade e tem cerca de cinco hectares. Porém, com raras exceções, o mato toma conta de tudo. O capim é seco e alto. Na região mais próxima ao solo domina uma vegetação chamada puerária, usada na pecuária para fornecer proteína ao gado e fertilizar o solo. Essa leguminosa pega fogo com facilidade e contribui para que seja mais difícil controlá-lo.

Tempo continua seco nos próximos dias

A situação no Acre tende a se agravar antes da chegada do período de chuva. O tempo deve continuar seco por mais alguns dias, pois há a previsão da chegada de uma massa de ar frio do Sul do país que reduziu a temperatura naquela região para até 3,5ºC negativos. O frio deve chegar ao Acre também até o fim da semana, provocando queda da taxa de umidade do ar. Ontem, por volta das 15 horas, a temperatura registrada em Rio Branco, de acordo com o canaldotempo.com, era de 30ºC, com vento sul de 10 quilômetros por hora. A umidade registrada era de apenas 19%.

Queimadas: questão cultural ou crime ambiental?

As queimadas são comuns na Amazônia. Elas são utilizadas desde os indígenas aos grandes pecuaristas, que delas se valem para transformar a floretas em área para a agricultura, pastagem ou para controlar o desenvolvimento de plantas invasoras. Na maior parte dos casos, são realizadas no fim da estação seca, quando é obtido o maior volume de cinzas e a vegetação está mais vulnerável ao fogo. Apesar de barato, esse processo traz grandes impactos ambientais, principalmente ao fugir do controle, atingindo áreas que não se desejava queimar.

Com a chegada de grandes pecuaristas à região nos anos 70, a queima de grandes áreas se tornou mais freqüente, provocando grandes prejuízos ambientais.

Hoje órgãos públicos e organizações não-governamentais discutem o papel da queimada na cultura da população e lutam para pôr fim a essa prática danosa.

O Ministério Público Estadual (MPE) é uma dessas instituições. A área de defesa ambiental do órgão tem à frente duas mulheres - a procuradora Patrícia de Amorim Rêgo, que dirige uma coordenadoria especial, e a promotora Meri Cristina do Amaral Gonçalves, que atua como promotora-executora. Desde antes do período de estiagem, elas vêm buscando apoio das demais instituições públicas para o combate às queimadas. Há poucos dias elas fizeram um alerta: o vento forte comum durante as friagens poderia contribuir para o surgimento de grandes incêndios no Acre.

Sobre a questão cultural ou criminal, a promotora Meri Cristina disse que o fogo é terminantemente proibido pela legislação ambiental por ser uma prática danosa ao meio ambiente, mas ela explica que há um decreto que abre exceção para a realização de queimadas na agricultura de subsistência. “O problema é que a exceção virou regra, então vemos com grande freqüência situações como essa”, alertou.

A atuação do grupo de queimadas do MPE, que atua diretamente no controle da prática no Acre, está concorrendo a três prêmios nacionais, entre eles o promovido pela Fundação Ford. “Participar desses prêmios significa divulgar mais ainda nosso trabalho de combate às queimadas”, disse Meri Cristina.

A promotora do Meio Ambiente disse ser sabedora de que as queimadas fazem parte da cultura regional, mas recordou que as pessoas têm que tomar consciência de que está se passando por uma mudança climática e que está muito seco, por isso devem evitar o fogo em qualquer situação.

Punição para culpados

A promotora Meri Cristina disse não ter dúvida de que o incêndio de ontem foi provocado, de forma intencional ou não, mas que será difícil identificar o respondável. Próximo ao local estão localizadas várias habitações provenientes de invasões. “Muita gente costuma limpar os quintas colocando fogo no lixo ou no mato e não conseguem perceber as conseqüências disso”, explica.

Meri Cristina disse, no entanto, que a partir de agora a atuação tem que ser dura contra aqueles que ateiam fogo. “Temos que prender e processar essas pessoas e dar divulgação para isso, pois somente o trabalho de educação não está resolvendo. Estamos promovendo um plano de mídia que divulga diariamente uma campanha contra as queimadas. O governo está gastando milhões com essa campanha, mas os resultados ainda não são satisfatórios, por isso temos que endurecer e pôr fim a essa prática.”

 
 
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Rio Branco-AC, 22 de agosto de 2007
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