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| ALMANACRE | |
| Elson Martins | |
Punição na floresta Seringueiro que também é mateiro e bom caçador se atreve, com freqüência, desafiar as crendices da floresta. E costuma se dar mal no fim da história. Pode-se dizer que o primo de Chico Mendes, Nilson, 44, é um deles. Liderança forte do seringal Cachoeira em Xapuri, Nilson Mendes é um cabra empolgado com a ciência e a tecnologia que chegam até sua colocação por meio de um projeto de manejo florestal comunitário. Sua inteligência, como a do primo famoso assassinado em 1988, está acima da média. Ele lida com instrumentos como bússola, GPS e trena, entre outros, com a mesma habilidade com que manuseia a “cabrita” - como é chamada a faca adaptada ao corte da seringueira para extração do látex. Mas não se enganem! Quando necessário ele peita os técnicos do manejo impedindo que estes subestimem o conhecimento tradicional de quem nasceu e se criou na floresta. De fato, sua colocação (cerca de 300 hectares de mata primária) saltou da tradição para a modernidade e encontra-se preparada para receber pessoas urbanas com algum conforto e segurança. Isso sem perder a magia da mata intocada, com seus mistérios, mitos e descobertas surpreendentes. Nilson até parou de fazer roça de subsistência, prefere cuidar das jarinas, ouricuris e outros coquinhos ou frutos que os animais adoram. Dessa forma consegue atrair macaco, quatipuru, jacamim e até bandos de queixada que vêm comer no seu quintal. Um prato cheio para um turista ecológico que se disponha pagar pelo que vê e ouve. Como falei antes, nosso amigo não abre mão de sua origem. Para ele, a ciência e a tecnologia são acréscimos que melhoram sua vida valorizando o conhecimento tradicional que possui. A ciência ajuda decifrar fenômenos explicáveis pela razão. Nilson aprendeu muitos nomes científicos e princípios ativos das espécies que só conhecia pelo apelido ou crendice. Para narrar outros fenômenos, entretanto, como a caçada assombrosa anunciada no título, dispensa essa contribuição. O fato narrado a seguir aconteceu faz alguns anos. Bom caçador, Nilson tinha muita carne de caça em casa. Mesmo assim, sentiu “cuíra” para ir matar um veado “de espera” na madrugada. Levou uma espingarda calibre 12, com cinco cartuchos, uma lanterna, banana e farinha para comer. Armou sua rede a três metros do chão numa árvore, junto ao “barreiro” (local de comida do veado) e permaneceu quieto, atento aos sons do seu “paraíso perdido”. Por volta das 3h30, o bicho apareceu. Calmamente, Nilson engatilhou a arma, acendeu a lanterna e... pum! - disparou o primeiro tiro. O veado deu saltos, rodopiou e berrou feio, mas não caiu. Nilson deu um segundo tiro, um terceiro... o bicho continuou rodopiando e berrando. Num dado momento olhou para cima, para o foco da lanterna, de um modo apavorante. “Não é possível”, pensou Nilson. “Não posso ter errado três tiros... e não vou gastar cinco cartuchos com um veado só.” Intrigado e temeroso, desceu da rede com a espingarda e a lanterna na mão, mirou a jugular do bicho e bem de perto disparou o quarto cartucho. Mas o animal não só não caiu, como se voltou para ele transformado em pura assombração. O caçador voltou a subir na árvore devagarzinho, agora no escuro e tonto de medo. Ao enfiar a mão na rede, topou com alguma coisa dentro dela: “Era uma coisa estranha, peluda, não tive coragem de acender a lanterna para ver. Preferi descer, devagar e no escuro, e passo a passo fui me distanciando daquela agonia sem olhar para trás. Nunca mais voltei ao local. Eu poderia ter morrido naquela noite!”, diz o caçador. CABOCLINHO O padre acreano José Carneiro de Lima - ele e o irmão Peregrino estão entre os primeiros sacerdotes preparados na Amazônia - viveu mais de 50 anos fazendo desobrigas nos seringais. Tornou-se folclórico pelas histórias que contava sobre os mistérios da floresta e de seus habitantes: pessoas, plantas e animais. Morreu com a pecha de mentiroso, mas suas histórias são deliciosas. Também não se pode negar que ele se tornou um sábio da floresta. Na assombrosa caçada noturna narrada ao lado, Nilson Mendes teria encontrado em sua rede o Caboclinho da Mata, que apareceu para puni-lo por matar mais caça do que precisava para alimentar-se. Vejam como o Padre José descrevia essa “entidade” da floresta amazônica: “É um tipo de índio, anão mudo e tímido; muito ágil, que foge sem ser alcançado, mas com gestos ensina caminhos errados aos seringueiros para que eles se percam na mata. Muitos seringueiros já abandonaram sua colocação, barraco e estradas de seringa por terem visto sinais desse ser misterioso. Um arrastado de folhas secas, um galho quebrado ou um rastro indecifrável, é o Caboclinho que andou por lá e então é preciso ir embora dali para não sofrer as conseqüências”. O TICO DA GLÓRIA PEREZ Leila Jalul* Tenho acompanhado o quanto tem-se falado no Acre a respeito de Galvez, Chico Mendes, dos atores e atrizes da TV Globo e das cidades cenográficas etc. Daqui de meu exílio voluntário, vou lendo e pensando que a lenda que vai ser levada para a telinha deverá ficar interessante, muito interessante. Acredito nisso. Tive que mergulhar no fundo das gavetas da memória para lembrar da acreana Glória Perez, autora da minissérie “Amazônia - De Galvez a Chico Mendes”. Logo eu, que já estou quase sem essa prerrogativa da memória. O certo é que, nos idos de muito tempo atrás, conheci uma moça, à época sempre descabelada, cujos apelidos da distinta eram Dó, Góia, ou Gogóia, sei lá. Ela tinha um periquito estranhíssimo e levava o bichinho escondido para a sala de aula no Colégio Acreano. Escondido de quem, não sei dizer. Não peça para que eu lembre o pedigree do penoso - se estrelinha ou caboclo. Confesso que não lembro. Glória era da turma da Léa e da Dora Mansour. Aliás, Dora até pouco tempo tinha um caderno cheio de poesias belíssimas escritas pela Glória. Bem, eu era de outra turma, mas sabia e via o periquito enganchado nos cabelos dela. Por certo, ela lembrará disso, pois a gente nunca esquece do primeiro periquito, correto? Imagine você, meu amigo, a textura da saia de casemira anglo-paraguaia, comprada na Casa Paraybana, cujo proprietário, Ibrahim Jalloul, era meu legítimo avô, ficava respingada de uma merdinha branco-esverdeada. Não sei nem que dia é hoje, mas quando isso acontecia eu tinha uns doze anos, ou menos. A menina do periquito tinha a boa vontade dos professores, mas acredito que eles ficavam putos com aquilo. Ocorre que o louro não interferia na inteligência dela. Acho que as pessoas, já naquela época, respeitavam a Glória. Sobretudo porque o periquito nunca interferiu no QI da moça. Afora isso, só sei que ela escrevia muito bem. Fazia poemas lindos. O irmão dela, o Saulo, tinha um campinho defronte a casa deles, na rua da Difusora Acreana, A Voz das Selvas. Eu não jogava futebol. O que eu queria mesmo era estar perto da macharada mirim. Então, muitas vezes, lá estavam o Dadão, o Nego Milton, vulgo Ditão, o Saulo e eu, claro! Quando não havia quórum, eles me escalavam pro gol. O irmão dela, salvo melhor juízo, foi minha grande paixão infantil. Era gordinho, fofinho e dono da bola. Mas aparecia a dona Guta ou então o seu Miguel Ferrante e mandavam o Saulo voltar pra casa. E lá se iam a bola e meu colírio. * Leila Jalul é procuradora aposentada da Universidade Federal do Acre. Ela escreveu o texto acima sexta-feira e o enviou ao blog do Altino Machado (www.altino.blogspot.com). A novelista Glória Perez confirmou a história ao jornalista. ERA ESTRELA Glória Perez Claro que eu lembro da Leila! E ainda sou Dó para a família e para os amigos! O Tico não foi o primeiro periquito, mas era especial, não me largava. Eu achava mesmo que ele estava escondido na minha nuca. Imagine! Ah, os doze anos da gente! O pobre Tico teve uma morte horrível: num dia de Natal pulou na minha cama quando eu estava dormindo, me virei e... acordei com ele grudado nas costas. Foi um deus nos acuda! Enterrei o Tico numa lata de biscoito embaixo da jaqueira, com direito a flores e tudo, para indignação da minha mãe, que considerou aquilo um sacrilégio! Quando voltei a Rio Branco, procurei a jaqueira. Não está mais lá! Minha casa, essa em frente à Rádio Difusora Acreana - A Voz das Selvas, virou um curso de inglês. E a primeira casa, aquela onde vivi os primeiros anos, na rua 6 de Agosto, foi demolida! Eu era assim mesmo como a Lena descreveu: moleca, gostava era de subir em árvores, mergulhar no rio, jogar baleado, e tinha horror ao laço de fita que era obrigada a usar durante o primário, no Grupo Escolar Presidente Dutra. Quem ia sem o laço ou com o laço mal feito tinha de cantar o hino na sala da diretora! Cantei foi muito hino! Bons tempos, aqueles! Ah, e antes que me esqueça: o Tico era estrela (Da novelista para o jornalista Altino Machado) |
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