ESPECIAL
   ENTREVISTA

“Se a reeleição de Lula é algo bom para o Acre, melhor será para o Juruá”

Na primeira entrevista coletiva em Cruzeiro do Sul, o governador eleito Binho Marques reafirma compromissos de asfaltamento da BR-364 e diz que obra só é possível com Lula reeleito presidente


Para Binho Marques, reeleição de Lula é condição principal para consecução do projeto de governo da FPA

Tião Maia, de Cruzeiro do Sul

O governador eleito Binho Marques esteve em Cruzeiro do Sul, na semana passada, para agradecer os votos que o elegeram no primeiro turno e fizeram de Tião Viana o mais votado senador da história do Brasil, com mais de 88%. O governador e o senador, acompanhados do vice-governador eleito, fizeram uma autêntica festa com a militância da Frente Popular no Juruá. Binho Marques e César Messias chegaram a fazer carreatas em Mâncio Lima e Rodrigues Alves. Esta semana havia previsão de festas também em Porto Walter e Marechal Taumaturgo. Mas a festa não foi completa: como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi reeleito no primeiro turno, as comemorações foram adiadas e o trabalho continua. Tião Viana, Binho e César vêm liderando uma campanha maciça para que Lula não só ganhe a eleição do dia 29 como seja também o mais votado do Acre.

O governador eleito, no entanto, parou um pouco para atender a imprensa do Juruá numa entrevista coletiva no estúdio da Juruá FM. Foi a primeira entrevista de Binho Marques como governador eleito no Vale do Juruá. A seguir, os principais trechos da entrevista.

De volta ao Juruá, na condição de governador eleito, o que o senhor tem a dizer à população local?

Binho Marques – Primeiro que é um prazer mais uma vez falar à população do Juruá, desta vez na condição de governador eleito do Acre. Estou muito feliz por esse reencontro. É um encontro de agradecimento em que quero manifestar ao povo desta região o meu mais profundo agradecimento.

Mas o seu candidato a presidente, o Lula, perdeu a eleição aqui. O senhor acha que é possível reverter esse quadro no Juruá também?

Binho Marques – Não tenho dúvidas. A animação da nossa campanha não terminou porque estamos novamente em campanha em defesa da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste segundo turno. Creio que esta também será uma campanha vitoriosa. No primeiro turno, tivemos uma campanha diferente, com uma legislação rígida, diferente de outras eleições. Isso fez com que, em outros estados houvesse uma campanha morna, amarrada, mas no Acre foi diferente. No Juruá, houve uma união nunca vista. Onde havia uma disputa muito grande, tivemos uma união de setores que se aliaram para que tivéssemos a continuidade de um projeto que começou em janeiro de 1999. Depois de tudo que fizemos, nós todos sonhávamos com a continuidade desse projeto - não digo nem com a continuidade do governo, mas de um projeto que vem dando certo e que é aprovado pela grande maioria da população do Acre. Não temos um prazo pré-estabelecido para trabalhar. Nós estamos pensando num trabalho para o Estado, para os adultos e para os jovens e por um Acre melhor no qual as crianças e os jovens, aqueles que representam o nosso futuro, serão os principais beneficiados.

O senhor e o vice-governador eleito assumem o governo no ano que vem. Por certo, os senhores já estão pensando na execução do programa de governo. Qual seria o primeiro ato, qual seria o primeiro projeto a ser executado?

Binho Marques – Um dos grandes projetos de desenvolvimento mais importantes e não só para o Juruá, mas para todo o Acre, é a BR-364. Nós falamos muito disso durante toda a campanha e quero reafirmar aqui tudo o que dissemos. A ligação do Acre com o Juruá pela BR-364 é um projeto para o qual estamos mais uma vez na luta. Mas volto a repetir: para garantirmos a abertura definitiva desta estrada, temos que reeleger o nosso presidente Lula. Se quisermos isso concluído, nós não podemos deixar de reeleger o presidente.

Por quê, governador?

Binho Marques – Porque o presidente já assumiu compromissos de nos ajudar a concluir essa estrada. Foi na entrevista com jornalistas da região Norte. Ele disse que tem três projetos de BRs no Brasil como prioridades. Uma delas é a nossa BR-364.

Uma coisa que impressiona, governador, é que, no princípio da campanha, o senhor dizia que não queria ser candidato. E agora é um governador entusiasmado. Como explicar isso?

Binho Marques – É que, graças a Deus, o Acre tem formado grandes lideranças. A gente percebe Brasil afora que as lideranças estão envelhecidas, tanto é que na Bahia nós tivemos a derrota de um dos grandes caciques da política brasileira que é o Antônio Carlos Magalhães [senador- PFL/BA]. Muitas lideranças envelhecem nos cargos e não conseguem abrir espaço para outras ou para formar novas lideranças. No Acre é diferente. O governador Jorge Viana, que é uma grande liderança, nunca teve apego a cargos e sempre teve a preocupação de formar lideranças. Foi assim que surgiram lideranças como Marcos Afonso [ex-deputado federal], o Angelim [Raimundo Angelim, atual prefeito de Rio Branco], e o fato é que hoje há uma constelação de lideranças que sempre me levaram a pensar que essas lideranças - e não eu - é que deveriam assumir a sucessão do governador. O Tião Viana, que era nosso candidato a governador, é o vice-presidente do Senado e se fosse o candidato de fato nos permitira fazer uma campanha bem mais tranqüila. Mas, infelizmente, a legislação proibiu que ele fosse candidato por ser irmão do governador. Isso fez com que pensássemos na Marina Silva, mas, naquele momento, também não foi possível porque ela não podia deixar o trabalho que vem fazendo de forma brilhante no Ministério do Meio Ambiente. Por isso, a Frente Popular escolheu meu nome. No momento em que me escolheu, eu tive que assumir a postura e a responsabilidade de candidato. Eu sempre tive uma vida muito recatada, nunca gostei muito de exposição, mas no momento em que você é chamado para liderar um processo, não há escolha. É como se você não soubesse nada e fosse jogado num rio...

Mas o senhor aprendeu a nadar muito rápido, não foi?

Binho Marques [rindo] – É, não morri afogado. Mas devo isso ao povo acreano, que não me deixou só, que compreendeu a nossa mensagem. Por isso, a balsa passou longe de nós e eu aprendi a nadar. Mas devo dizer que aprendi graças a muitos instrutores. Esta é a verdade. Eu participei de muitas campanhas e peguei muitas balsas na minha vida, desde a juventude. A única vez em que fui candidato foi em 2002, disputando o cargo de vice-governador com o governador Jorge Viana como candidato à reeleição, o que é algo muito diferente. Quando ele me convidou para ser seu candidato a vice-governador, eu disse para ele que não tinha votos e, aliás, fui muito sincero. Eu disse para ele: “Governador, eu gosto muito de estar no governo, de trabalhar no governo, mas infelizmente eu não tenho votos”. E quando digo que gosto de trabalhar em governos, estou falando a verdade. Eu gosto mesmo porque, no governo, a gente consegue trabalhar para todos, e eu gosto muito da administração pública e eu me especializei nisso, fiz mestrado nesse tema e é algo que gosto na prática e na teoria. Me faz bem governar. Mas quando ele me convidou e insistiu mesmo eu dizendo que não tinha votos para ajudá-lo, eu pedi duas coisas: uma, ser secretário de Educação, porque eu tenho paixão pela educação, e que eu não queria ser, como vice-governador, uma espécie de Rainha da Inglaterra. Foi quando ele me disse: “Quero que você seja vice-governador para me ajudar a governar”. É que ele já sabia que, com a eleição do presidente Lula, teria que ter alguém para ajudá-lo a governar para dentro do governo. O segundo pedido é que não queria subir em palanques, fazer discursos.

De fato, o senhor não apareceu muito na campanha à reeleição do governador, mesmo sendo seu candidato a vice...

Binho Marques – Passei toda a campanha sem fazer um discurso. Quem prestar atenção, vai constatar isso. Agora, quando eu virei candidato, eu não tinha realmente muita experiência de palanque, de dar discursos. Mas na vida a gente tem que ter capacidade de aprender de tudo. Acho que aprendi. Mas eu acho que o que ajudou muito foi que o peso foi distribuído nos ombros de todos. Eu, que participei de muitas campanhas, nunca vivi uma campanha tão leve como esta e nesta eu fui candidato. Foi realmente uma campanha leve porque todo mundo carregou o piano. E como todo mundo carregou o piano, eu agora quero que todo mundo também toque o piano. Por isso, espero que esses próximos quatro anos sejam realmente de um governo de muita participação de muito debate.

O que vai mudar com o senhor?

Binho Marques – As pessoas têm-me perguntado qual será a diferença do governo Jorge Viana para o meu governo. Eu diria que o que pode mudar é o fato de o Lula ser eleito ou não ser eleito. Se o Lula for eleito, a gente vai dar continuidade ao mesmo ritmo do trabalho do governador Jorge Viana, com a mesma determinação e com a mesma qualidade do trabalho. Se o Lula não for eleito (“coisa que acho muito difícil, porque ele está se saindo muito bem nas pesquisas; eu torço não só que ele seja eleito, mas que tenha também uma expressiva votação no Acre para que o Acre continue tendo autoridade junto ao governo federal”) e não tiver uma votação expressiva no Acre, o Acre não vai ter a mesma autoridade. E olhe que nós precisamos disso porque precisamos realizar grandes obras. Só para a BR-364 nós vamos precisar de R$ 500 milhões para ser concluída e para isso nós vamos precisar ter muita autoridade política em Brasília mesmo que o presidente seja o Lula. Mas não vai ter muita diferença entre o meu governo e o do Jorge porque, na essência, o jeito de governar é o mesmo. Pode haver diferença de estilo. O Jorge é uma pessoa mais extrovertida, é mais popular. Eu sou mais recatado, mas nós temos um princípio comum: um projeto igual para o Acre, que, aliás, não é mais meu ou do Jorge, da Marina, do Edvaldo, do Tião e de outras lideranças. É um projeto que é da grande maioria da população do Acre e, mesmo assim, eu vou governar como fez o Jorge: governar para todos, para os que nos elegeram e também para os que não votaram na gente.

Um governo capaz de conciliar tantas forças políticas diferentes até recentemente parecia inimaginável, não era?

Binho Marques - O Acre vive hoje um ambiente muito feliz. As pessoas não estão mais em guerra. O candidato que quis fazer uma campanha em guerra com o governador Jorge Viana perdeu a eleição. Por que ele perdeu? Ele poderia até ganhar esta eleição. Ele é um político experiente, tem capacidade, é inteligente (“não é burro de jeito nenhum”) e poderia ter feito uma campanha diferente. Ele poderia ter ganhado esta eleição dizendo: “Olha, o governador Jorge Viana foi uma pessoa que trabalhou muito e eu quero dar continuidade a esse trabalho porque o Binho não é a melhor pessoa para dar essa continuidade...”.

Por que Márcio Bittar perdeu a eleição, na sua avaliação?

Binho Marques – Primeiro, porque ele quis partir para a briga e não reconheceu as coisas boas que foram feitas. Foi desta maneira que um candidato experiente perdeu uma eleição: foi em não reconhecer a verdade. A verdade está sempre ao lado das pessoas, até dos mais fracos. Eu me considerava mesmo um candidato fraco, sem experiência, mas preferi ficar do lado da verdade. A gente fez uma campanha da verdade. A gente não fez a campanha de um grupo ou de um partido. A gente fez uma campanha do Acre. E eu quero chamar à atenção para isto: hoje, a eleição que nós temos pela frente é uma eleição do Acre. Ou a gente vota a favor ou contra o Acre, porque hoje eleger o Lula é a votar a favor do Acre. Portanto, mesmo aquelas pessoas que votaram no Alckmin, elas precisam pensar um pouco no seguinte: nunca um presidente fez tanto pelo Acre como fez o Lula. Ele veio cinco vezes ao Acre, inclusive aqui em Cruzeiro do Sul, para assumir compromissos com o Acre e agora assumiu de novo, nas rádios da região Norte, o compromisso de concluir a 364. Veja só: a 364, por causa do baixo índice de votos que tem o Acre em relação ao eleitorado do Brasil, não significa nada, quase nada. Por isso, se o Alckmin ganha ele jamais vai fazer uma BR tão cara como esta. Os nosso opositores nos criticam em relação ao preço dizendo que gastamos R$ 2 milhões por quilômetro. É isso mesmo. Em cada quilômetro, a gente gasta quatro mil sacas de cimento. É uma loucura um negócio desses. E por que a gente faz uma loucura dessas? Porque esta é uma estrada necessária, social – o povo do Juruá tem que sair do isolamento. Só o presidente Lula tem a capacidade de enxergar esta necessidade social. O Alckmin, que é a liderança da elite paulista, não vê isso porque só enxerga o desenvolvimento pelo lado econômico. A verdade é que não existe desenvolvimento econômico sem o desenvolvimento humano. As duas coisas têm que andar juntas. Cruzeiro do Sul não vai ter desenvolvimento econômico sem a estrada. Não podemos, portanto, esperar que primeiro haja desenvolvimento para depois fazer a estrada. As coisas são ao contrário e o presidente Lula é capaz de enxergar isso. É por isso que nós estamos em campanha, felizes e confiantes de que agora o Acre reeleger o presidente Lula.

Ao que tudo indica, o senhor terá um governo tranqüilo com ampla maioria na Assembléia, maioria na Câmara e os senadores a sua disposição?

Binho Marques – Tem uma piada correndo aí que a balsa demorou a chegar a Manacapuru porque nela tem um senador remando para trás. O fato é que nós temos dois senadores, que é o Siba e o Tião Viana, que acabou sendo o mais bem votado do país. A bancada federal tem um papel importante, de apoiar o presidente, que será o Lula, mas também para ajudar a trazer recursos para o Acre. O mais importante compromisso é o pacto para o setor rural. Nesses oito anos, a gente trabalhou muito, mas não pudemos dar conta de tudo e realmente há uma queixa do setor rural em todo o Estado. Fizemos muito, Luz para Todos para 11 mil famílias, cinco mil quilômetros de ramais, mas isso não foi tudo. Nossa bancada assumiu o compromisso de colocar R$ 100 milhões para a área rural, ramais, modernização, mecanização, subsidiar o calcário. Avançar na melhoria e aproveitamento em área degradada. Nosso desejo é aumentar muito a produção rural. A bancada tem esse papel: levar o Acre para o Brasil. Temos dificuldades de o Brasil enxergar o Norte e o Nordeste, quanto mais o Acre. Nossa bancada já não é mais do silêncio, é pequena mas faz muito barulho.

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 22 de outubro de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
P E S Q U I S A

 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL