OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

TRAMPOLIM

É tema que vai além da pena e da tristeza de extravasar. Como diz a velha música, tem dias que a gente sente a roda-viva dar voltas do coração. Enjoa de fazer de contas que não sente ou de deixar algum bacana cheio de autoridade pensando que a gente não consegue entender seus planos fúteis, suas ações disfarçadas. Que pena! O problema desta palavra “autoridade” é que um ou outro sujeito incorpora um certo ar supremo, um incerto jeito de esperto, uma constante sede ou uma inconstante fantasia, na qual a pose não sai de trás do verbo, mas o olho não consegue ser fiel à pose, porque o intelecto não segura a onda da vaidade, que é muito maior que aquele. É um problema. Se cada um tivesse prazer em fazer sua parte e se contentasse com sua bagagem, o poeta alagoano não cantaria o “desdém do poder”.

Quase todo mundo quer ser autoridade, ou ser mais do que é, do que lhe é possível. Certo pastor quer ser deputado; se não der, vereador; se der, pregar outras crenças. O assessor do assessor despacha para sua excelência, que diz não ter tempo, mas não tem mesmo é vontade, quer mudar de poder, está em toda solenidade, posa e sorri, louco para discursar, para se filiar, para se candidatar. Certo médico igualmente quer, é claro, receber uns votinhos, porque também tem bons planos, de saúde e de vida, e vida não é coisa para passar assim só no traje branco. O homem que vende carne prefere outro filé, mas não enjeita mamãozinho com açúcar. O homem do leite quer queijo, o homem do boi quer as tetas da vaca, a vaca quer lavar o pé do sapo e o cururu-tei-tei quer ser rei. E eles pensam que a gente não vê!

O doente não quer canja? Canja no doente! O salto para o futuro pode estar bem ali em frente, e cavalo selado não passa duas vezes na porta. O que importa é pisar certinho no trampolim para liberar o esquema, sem nenhum problema. O resto o poder exporta, nem importa. Dentista da boca-da-noite, professor de doleiro, carregador de pilha, desempregado, sem vocação nem habilitação, mal articulado ou recém-apossado, velho conhecido, novo disfarçado, muitos outros, quase todos são atraídos pelo poder, pela autoridade, por algum desejo ou fatalidade do destino que Deus deve estar vendo. Deve haver uma enorme vontade de ajudar, de planejar e de agir para o bem-comum. Enorme e variada, que de tanto parece generalizada. O ponto de partida é o umbigo. Se cada um, com prazer e jeito, caregasse sua bagagem...

Para não perder os ideais, o socialista quer eleger a família quase toda nesse, naquele e no outro cargo. A associação disso e daquilo precisa de um representante, a classe desses e a daqueles, o grupo e o conjunto unitário, todos são expressões que precisam, por completa redundância, de voz que os expresse. O cabo velho quer receber continência, o coronel quer votos, o homem da televisão, a mulher da ilusão, o cara do barzinho, o da armação ilimitada, o da reputação ilibada, que não pode freqüentar certos lugares, pensando na autoridade. Quase ninguém pode ler sua intenção, ele diz ser criativo. E se conseguir, do que adianta? Enquanto tudo parece normal, um rapaz ensina democracia em vinte segundos e um jornal aponta o voto certo em cinco linhas. O poder da mídia precisa de retorno. Precisa ser imparcial?

Quase todo mundo gosta de saltar de trampolim. Ou, refazendo, de usar o trampolim para subir, apesar da possibilidade muito evidente da queda-livre, depois da subida. É quase incrível como a definição atual do trampolim atrai somente pela subida. Na versão primitiva, usado o trampolim, após um salto para cima, a ocorrência imediatamente posterior era a da queda invariável. Modernamente, o trampolim adquiriu a faculdade - ao menos em tese - de provocar um ou vários saltos que parecem renovar-se no rumo de cima, sem previsão imediata de queda, ao menos na perspectiva dos saltadores inscritos na fila em que a vaidade posou de desinteressada, em nome da lei, da ordem, da fé ou de outros conceitos éticos, sacros, inconfessos. Talvez o problema esteja no poder do conceito. Ou em onde o estamos vendo. No papel, a definição não encontra palavras. E o trampolim vira um trapézio para o picadeiro do poder.

 

 
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Rio Branco-AC, 22 de outubro de 2006
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