OPINIÃO
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Garotas que dizem ni

 

 

Você chama isso de Ciência?

Mais velha, minha relação com a Ciência tornou-se espinhosa. Afinal, a dita-cuja me aparecia em malditos volumes pesados de Química 1, 2 e 3, Biologia em Exercícios e Simulados e Física Moderna Comentada. Como se houvesse algo para se comentar da Física. É e pronto, saco, não tem o que ficar comentando. (Notem como a breve menção ao tema ainda é capaz de alterar meu estado de humor). No entanto, quando carregar meu material escolar não causava escoliose – e mesmo antes disso, lá para os idos de quando eu não tinha material escolar –, eu e a Ciência éramos melhores amigas. Graças, em primeiro lugar, ao jardim da minha avó.

O jardim da minha avó tinha uma roseira, como todos os jardins de avós que se prezem. Também tinha um mato fofinho onde eu adorava enfiar a mão e ver a marca da palminha bem estendida se desfazendo pouco a pouco. Havia uma torneira perto do jardim. Um belo dia, sentada no murinho do registro (que toda casa de avó, ainda mais se de subúrbio, também tem), olhei para a torneira e olhei para as rosas. E concluí o óbvio: minha avó nunca mais ia ter que gastar dinheiro, que meu avô sempre dizia que “não dava em árvore”, com sua Seiva de Alfazema azulada. Eu ia fazer perfume!

Enchi um pote de iogurte vazio com água. Peguei algumas pétalas de rosa e meti ali onde um dia houvera danoninho. Era preciso pensar em um frasco melhor que aquele potinho, que não ia ornar com a penteadeira da minha avó de jeito maneira. Fui pilando as pétalas com um pedacinho de pau. Até que pegou um cheirinho, mas eu não sabia, à época, da existência e imprescindibilidade de um troço chamado fixador. Tampouco estava familiarizada com o processo conhecido por apodrecimento. Mas antes que a mistura fedesse, minha avó já estava dando falta das rosas tiradas do pé. E não teve argumento científico que a convencesse da importância da experiência.

Ocasião mais feliz foi quando levei a cabo a clássica germinação do feijão em algodão, que além de um experimento infantil favorito é também uma das rimas mais capciosas da língua. Minha mãe me auxiliou nessa. Botamos o feijãozinho lá e era preciso molhá-lo todos os dias. Nada mal para fazer crescer um belo pé de feijão, sobre o qual eu nutria secretas esperanças: talvez ele fosse mágico como o da história!

Não foi. Mas pensando bem ainda acho uma mágica germinar, de maneira geral.

Repetimos a experiência com girassol, e depois passamos a muda para a terra do jardim da minha própria casa. Eu cuidei pessoalmente do desenvolvimento do girassol, até que saiu a flor. E a flor levantava para a direção do sol todos os dias, e eu pensava maravilhada “puxa, isso é que é ciência!”. E a flor secou e minha mãe me ensinou a debulhar o miolo, cheinho de sementes, para depois dar para o papagaio comer. Como diziam no “Rei Leão”, é o ciclo sem fim.

Na área da Química, uma das minhas experiências favoritas (fora aquelas ensinadas no manual do conjunto Meu Pequeno Químico) era congelar xampu e condicionador juntos, dentro de um daqueles potinhos plásticos onde vinham os filmes de fotografia. Minha revolucionária idéia era obter um sólido, algo como um sabonete, que servisse para lavar e condicionar os cabelos com mais praticidade – sem esse papo de ficar abrindo e fechando frascos enquanto o chuveirinho se descontrola e serpenteia enlouquecido, jogando água para todos os cantos do box e além.

Eu testei em mim mesma e gostei bastante, mas a produção em série foi abandonada por simples falta de potinhos de filme suficientes (e porque minha mãe topou com um dos meus gelinhos de xampu e não viu graça nenhuma em “ficar ocupando o espaço do congelador com isso”).

Aí, resolvi ocupar o congelador com outro propósito: experiências criogênicas. Capturava moscas vivas (foram meses de treinamento), sacudia a mão fechada para que elas ficassem tontas e imóveis, botava os corpinhos em um saco plástico fechado e metia no congelador. Coisa de cinco minutos e a mosca está congeladinha. Então, minhas amiguinhá, é só tirar a mosca dos plástico, colocar numa colher e posicionar a colher sobre o fogo, a uma distância razoável da chama, pelamordedeus, senão passa de criogenia a forno crematório.

Tipo preparação de heroína que a gente vê nos filmes, manja? Mas cuidado: o fogo tem de estar baixo e é preciso mexer a colher para lá e cá levemente (para não chamuscar as asinhas). De repente, o bicho sai voando. Juro, é demais. E se minha mãe não tivesse se enchido de topar com moscas ensacadas ao lado do peito de frango no congelador, a esta altura eu poderia ter patenteado a criogenia humana, como visto em “Vanilla Sky”.

De volta ao jardim da minha avó e suas roseiras, realizei outro clássico: a fazendinha de formigas. Enchi uma caixa de terra e acomodei as formigas no que elas poderiam ver como uma nova quitinete. Todos os dias eu picava folhinhas e catava migalhas de pão, jogava lá dentro e observava os insetos. Mas nem demorou para eu perceber que, bem, as formigas não fazem lá muita coisa de interessante.

Pensando nisso, arquitetei treinar um circo de joaninhas, com trapézio, malabarismo e mágica, mas aí chegou a era dos livros insípidos.

Quem sabe um dia, quando tiver um filho, eu o convenço a fazê-lo? Como diziam no “Rei Leão”, é o ciclo sem fim. E, senão a Ciência, a imaginação agradece.

 
 
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Rio Branco-AC, 22 de outubro de 2006
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