| ESPECIAL | |
| PAPO DE ÍNDIO | |
| Txai Terri Valle de Aquino & Marcelo Piedrafita Iglesias | |
“Tá na hora da |
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A frase do título acima foi pronunciada por Lula em ato público realizado em Brasiléia um dia depois do assassinato de Wilson Pinheiro, em 21 de julho de 1980, dentro da própria sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais daquele município, do qual era presidente. Por conta disso e da reação dos seringueiros e agricultores locais, que executaram dias depois um fazendeiro acusado de ser o suposto mandante desse crime violento, Lula, Chico Mendes e João Maia foram acusados de incitar a violência e enquadrados na Lei de Segurança Nacional da ditadura militar. Com o assassinato de Chico Mendes, em dezembro de 1988, Lula esteve novamente no Acre, prestando sua solidariedade a todos os trabalhadores rurais acreanos que lutavam por uma reforma agrária justa para as populações tradicionais da grande floresta. Foi o início da luta pela criação e implantação das primeiras reservas extrativistas na Amazônia. Não por acaso, a segunda reserva criada oficialmente no Acre e no país foi justamente a Resex Chico Mendes, em 1990. A primeira delas, no entanto, instituída oficialmente dias antes, foi a Resex Alto Juruá, em decorrência das mobilizações políticas protagonizadas por seringueiros e “camponeses florestais” a partir de 1988, com Chico vivo. Nessa região acreana, o processo de mobilização foi conduzido pela Regional Vale do Juruá do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), coordenado pelo sertanista Antônio Luis Batista de Macêdo e assessorado pelo antropólogo Mauro William Barbosa de Almeida, professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que à época realizava suas pesquisas de campo entre os seringueiros do rio Tejo para a elaboração de sua tese de doutorado intitulada “Rubber Tappers of the Upper Juruá River: The Making of a Forest Peasantry” (“Seringueiros do Alto Juruá: A Construção de um Campesinato Florestal”), defendida, em 1992, na Universidade de Cambridge/Inglaterra. Depois da morte de Chico Mendes, Lula retornou muitas outras vezes ao Acre, tanto em suas campanhas políticas anteriores, quanto para inaugurar, enquanto presidente, importantes obras que o governador Jorge Viana, com sua inestimável ajuda, construiu em todo o estado nos últimos quatro anos. A última delas, se não me falha a memória, foi justamente, em 2005, para inaugurar a Ponte da Amizade entre o Acre e o Peru, em Assis Brasil, na região da tríplice fronteira. Lula conhece bem o Acre, onde esteve diversas vezes em Rio Branco, Xapuri, Brasiléia, Assis Brasil, Cruzeiro do Sul. No entanto, os eleitores acreanos, em sua maioria, derrotaram Lula no primeiro turno, votando em outros candidatos, notamente em um representante da elite paulista branca, neo-liberal, anti-social e privatista, que nunca fez nada pelo Acre, sequer conhece o estado direito. E o mais curioso é que essa mesma maioria de eleitores acreanos tenha eleito o governador Binho Marques logo no primeiro turno. Embora a campanha da Frente Popular tenha sempre associado os nomes de Lula, Tião e Binho, muitos acreanos, na última hora, resolveram não votar no presidente. As trapalhadas de uns poucos incautos petistas envolvidos na compra do dossiê dos sanguessugas tucanos, as denúncias e as fotos da dinheirama toda publicadas em toda a mídia do país às vésperas da eleição, bem como a falta de debates sobre as propostas para bem governar o país nos próximos quatro anos, foram, sem dúvida, os principais motivos que levaram os eleitores acreanos a optar pelo segundo turno das eleições presidenciais, mas liquidando logo a fatura eleitoral doméstica. No papo de hoje, o antropólogo Mauro Almeida, um “acreano da gema”, explicita os motivos porque votará em Lula no segundo turno das eleições presidenciais no próximo dia 29 de outubro. Suas razões são convincentes e deveriam ser conhecidas por todos os eleitores acreanos que não votaram em Lula no primeiro turno. Votar em branco, ou nulo, é coisa de eleitor avestruz, aquela grande ave que, estando em perigo, esconde a cabeça num monte de areia, imaginando se salvar. Agora no segundo turno, para ser coerente, a maioria dos eleitores do estado deverá votar em Lula, justo porque sua eleição será de fundamental importância para o sucesso do governo Binho Marques, tal como o foi para o de Jorge Viana nos últimos quatro anos, um dos governadores mais bem avaliados do país. A exemplo do Mauro Almeida, também vou votar em Lula no segundo turno. O ex-governador paulista não me engana com esse velho discurso moralista reciclado dos “corvos” da antiga UDN, com uma roupagem moderna neoliberal dissimulada e privatizadora das riquezas do país. A paulicéia desvairada e o seu representante não conseguem esconder que são contra as políticas sociais implementadas pelo primeiro presidente operário do Brasil, que efetivamente, como bem assinala o Mauro, redistribuiu renda para a grande maioria dos pobres desse imenso país. Não dá mais para votar em rico nem ser tutelado de novo por essa mesma elite dos tempos do FHC, aquele sociólogo famoso que, depois que se elegeu presidente, pediu que os brasileiros esquecessem o que ele escreveu em seus belos livros e artigos sobre o país. Por outro lado, a instituição da reeleição é uma invenção do governo tucano de FHC e envolveu a compra de votos de muitos deputados federais, inclusive de alguns representantes do Acre. Não houve CPI nem nada. O caso foi devidamente abafado e arquivado. Também não vou trocar o certo pelo duvidoso, E bote duvidoso nisso! As elites da avenida Paulista e os ricos desse país estão com os nervos à flor da pele, porque sentem que já perderam a eleição. Justo no momento em que as pesquisas eleitorais dão consideráveis margens de vitória a Lula no segundo turno, o candidato paulista de direita já fala em golpe institucional: “ganha, mas não leva”, como fizeram com o presidente Juscelino Kubitschek. Não dá para esquecer também a política indigenista oficial equivocada e a atuação desastrada da atual direção da Funai, que paralisou completamente os processos de regularização fundiária de terras indígenas no país, especialmente na Amazônia. Mesmo assim, estou com o coração cheio de esperança de que esse equívoco possa ser devidamente reparado nos próximos quatro anos. De minha parte, vou deixar a onça beber água tranquilamente, porque senão ela vai morrer de sede. É Lula lá de novo, com a força do povo brasileiro! Por que votarei em Lula no segundo turno Mauro W. B. de Almeida Voto Lula. Em primeiro lugar, porque reduziu a desigualdade social com estabilidade e democracia. Em segundo lugar, por que fez isso sendo um presidente de origem operária e é assim um exemplo de que quem não vem da elite também pode governar bem e para todos. Em terceiro lugar, porque a República nunca foi tão investigada e com tanta transparência como no momento atual. As discussões sobre programas na imprensa deixam de lado uma coisa. Há uma divergência central sobre políticas sociais entre os dois candidatos e partidos. Lula e PT prometeram e realizaram redistribuição de renda em favor dos mais pobres na população brasileira, embora realizando uma política econômica ortodoxas (leia-se: liberal). Na prática isso significa que Lula realizou ‘ajuste fiscal’ e assim tranquilizou o chamado “mercado”, mas cumpriu sua promessa principal: “por comida na mesa de todos os brasileiros pobres”. Não é socialismo, não é chavismo. É capitalismo com um mínimo de decência, isto é, com uma política de bem-estar social – coisa que os EUA e a Europa adotaram depois da II Guerra Mundial e, hoje, o neo-liberalismo está desmontando nos EUA, na Inglaterra, na França. Alckmin e PSDB são virulentamente contrários à redistribuição de renda direta, e em vez disso pisam na tecla do crescimento econômico. É a velha história de que o bolo precisa crescer antes de ser distribuído, isto é: deixa o ‘meu bolo’ crescer, que enquanto cresce ‘eu’ vou comendo... Alckmin foi forçado a contragosto a prometer a manutenção do bolsa-família, assim como está sendo forçado a contragosto a prometer que não vai privatizar a Petrobrás. Mas basta ler com atenção os jornais para ver que todas as declarações de economistas, tecnocratas e ‘cientistas políticos’ alckimistas (Leôncio Martins Rodrigues, Bolivar Lamounier etc.) são unânimes em manifestar ojeriza pelo que chama de “esmola aos pobres”, pelo que dizem ser o “assistencialismo” e “coronelismo” do bolsa-família, pelo prejuízo aos investimentos (leia-se acumulação de capital) representado pelo bolsa-família e por salários mínimos reais mais altos. Há um ódio profundo, combinado a desprezo e arrogância, contra toda distribuição de renda, mesmo que em escala modesta – mas, é claro que, ao contrário, distribuir compensações a banqueiros e fazendeiros (perdões fiscais, subsídios, redução de impostos) é colírio para os olhos e música celestial para todos esses. Tudo isso é exemplo da histórica resistência das nossas classes dominantes a abrir mão de qualquer fração de seus ganhos. Lula, por pouco que seja a redistribuição de renda que está fazendo, está mexendo na elite: “Pobre não tem que receber bolsa-família: tem que trabalhar para ganhar salário. Não tem emprego? Dêem o dinheiro para mim, que eu abro uma empresa e dou emprego a ele. Agora imagine se ele receber bolsa-família? Que salário não irá exigir para trabalhar para mim?” Duvidam? Seguem abaixo extratos comentados de um artigo anti-Lula do jornal Folha de São Paulo, publicado com destaque de primeira página no dia 15 de outubro. Ele ilustra o ponto-de-vista classista anti-distributivista e anti-lulista que comento acima. Há inúmeros outros exemplos, inclusive no mesmo número do mesmo jornal. As frases são de matéria de capa da Folha de São Paulo, intitulada “Urna premia ação assistencialista de Lula”. “Tirando a corrupção, é impressionante como Lula cumpriu o que prometeu que era governar para os mais pobres”. E eis os dados fornecidos por Canzian e Kanno para comprovar o ‘assistencialismo’ e o ‘coronelismo’: 1. “O salário mínimo foi reajustado em quase 25% em termos reais (acima da inflação) no atual governo, o mínimo é o indexador de aposentadorias e benefícios assistenciais pagos pela Previdência”. 2. ”Os efeitos dessa maior transferência de renda pública para os indivíduos mais pobres teve reflexos importantes na economia de cada região. A revolução das vendas nos últimos 12 meses, por exemplo, revela que onde o comércio cresceu mais, a votação de Lula também avançou mais na comparação com seu desempenho no 1º turno em 2002”. 3. ”Nos Estados do Nordeste, entre 42,1% e 50% da população vive em famílias atendidas pelo Bolsa Família”. 4. ”Na região Norte, o Bolsa Família atinge entre 26,1% e 42% da população e o salário mínimo, 31% dos trabalhadores e beneficiários da Previdência”. 5. “Norte e Nordeste também foram as regiões onde o comércio teve um desempenho superior à média nacional. No Nordeste, cresce quatro vezes mais”. 6. “Tirando o aspecto da corrupção, é impressionante como Lula cumpriu o que prometeu, que era governar para os mais pobres. E o dividendo eleitoral é claro”, afirma Celso Toledo, economista-chefe da MCM Consultores. E que é que o mesmo economista vê de errado com tudo isso? Eis a argumentação: as políticas de redistribuição de renda afetam o crescimento econômico. “... para transferir renda, qualquer governo precisa tirar dinheiro de quem produz para dar a quem não produz, o que explicaria a tendência de crescimento baixo dos últimos anos. Como a desigualdade no Brasil é grande, isso até faz sentido. O problema é que o setor produtivo já está absolutamente estrangulado, e o sacrifício em termos de crescimento acaba sendo bem maior” [citação de Celso Toledo]. Agricultores, seringueiros, camponeses, trabalhadores informais urbanos, assalariados na zona de pobreza – todos esses, para nossas elites, “não produzem”. Quem é que “produz”? Os banqueiros, os capitalistas, os empresários – um “setor que já está absolutamente estrangulado”. Em suma, mesmo a ‘esmola’ pesa no bolso dessa classe dominante avara e raivosa! A mesma reportagem da Folha de São Paulo cita o cientista político Leôncio Martins Rodrigues dizendo que “o resultado da votação vinculado às transferências de renda revela que o eleitor brasileiro ainda não consegue ter um comportamento político autônomo”. Segundo meu ex-professor Leôncio, o “comportamento político autônomo” dos pobres seria votar conforme manda o Estado de São Paulo e as elites paulistas: votar em Alckmin, votar contra Lula, o candidato de origem pobre (e que não consta que tenha enriquecido), que se elegeu prometendo redistribuir a renda em favor dos mais pobres, e cumpriu o que prometeu. Daria para fazer uma antologia do desprezo e da ira contra “os pobres”, incluindo destaques preciosos como Danuza Leão (O Estado de São Paulo) e a Bárbara Gancia (Folha de São Paulo). A raiva secreta – que um tucano me confessou em particular -- é pobre também ter direito a voto. Mas minha alegria pública é que os pobres da floresta e do campo que conheci nas últimas décadas estejam votando sim, votando com o coração e com a barriga cheia, em Lula. |
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