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“Gabiru”, o verdadeiro herói sem caráter Desocupado de Thaumaturgo nunca ouviu falar de Robin Hood, mas furta para fazer o bem |
![]() Apesar do mau hábito, Gabiru é estimado pela população de Thaumaturgo |
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Ele atende pelo sugestivo apelido de “Gabiru”, uma referência a um tipo de rato grande e conhecido por sua especial predileção de se apropriar de tudo que encontra pela frente. É um eufemismo para ladrão. Se a definição e a fama não são boas em lugar nenhum, imagine quando isso acontece numa cidadezinha como Marechal Thaumaturgo, situada nas cabeceiras do rio Juruá, conhecida por sua condição de quase total isolamento, onde todo mundo literalmente se conhece. Pois é em Taumaturgo que vive o Gabiru, o homem - na verdade um sujeito de pouco mais de um metro e meio de altura, aparentando no máximo 30 anos, apontado como o maior ladrão do lugar. É claro que ele não gosta de tocar no assunto. Também não gosta de falar de si ou de sua família. Diz se chamar José Mildo Rodrigues de Oliveira e que o apelido com o qual toda cidade o identifica como ladrão é, no mínimo, uma injustiça. José Mildo garante que, no fundo, não é um ladrão qualquer. É um homem que, embora nunca tenha ouvido falar de um certo Robin Hood, tenta, através do furto (roubo é o crime cometido sob violência), praticar boas ações. Sim, é isso mesmo que você leu! Foi assim, por exemplo, quando ele roubou – furtou, melhor dizendo – a pistola de um sargento da Polícia Militar, treinado para o serviço de segurança às autoridades, que estava de passagem por Taumaturgo. “Ele bobeou e eu peguei a pistola só para mostrar que ele não tinha condições para o serviço”, disse, rindo, sem esconder que essa traquinagem, apesar da devolução da arma, custou-lhe um bom período na penitenciária de Cruzeiro do Sul. “Foi a primeira vez que eu puxei cadeia grande, moço”, contou, com seu sorriso de menino travesso. Também, pudera! No furto da arma do militar, toda a cidade de Thaumaturgo ficara contra ele porque, daquela vez, todos concordaram: “Gabiru” havia ido longe demais. Afinal, havia se comportado como um ladrão comum, bem diferente daquele que, em que pesem os crimes, chega a ser querido pela população, porque seus feitos, na maioria das vezes, têm de fato algum tipo de alcance social. Numa das muitas vezes em que fora preso acusado de arrombamento e furto a uma casa comercial, boa parte da população da pequena Thaumaturgo foi em peso para a frente da delegacia em manifestação por sua liberdade. Ladrão queima caderno do “pendura” Daquela vez ele havia arrombado e invadido a casa comercial do empresário Cleber Pedrosa, provavelmente o homem mais rico da cidade, dono do principal supermercado local. “Gabiru” chegou ao cofre e, talvez para não macular sua fama de bom ladrão, dos R$ 2 mil em espécie ali depositados, ele só levou R$ 1 mil. “Ele é mesmo assim. Seu modus operandis é nunca levar tudo o que tem. Se ele vai num terreiro e lá há cinco galinhas, ele só leva duas. Com isso, acaba se auto-denunciando”, conta o prefeito Itamar de Sá (PT), que conhece bem o rapaz e tenta desviá-lo do mundo do crime com alguns serviços na prefeitura. “O problema é que ele começa bem, dedica-se, mas, de repente, some alguma coisa. A gente vai verificar e pronto: o responsável pelo sumiço é ele . Eu acho que é um caso de cleptomania.” Pode ser. Mas no caso do furto à casa do comerciante Cleber Pedrosa, além de não levar todo o dinheiro que estava no cofre, “Gabiru” aprontou outra de lascar: sabendo que praticamente toda a cidade faz a feira na loja do comerciante para pagar no fim do mês, ainda na base do borrão, ele pegou todos os cadernos, fez uma fogueira e livrou praticamente toda a cidade das dívidas. “Eu achei só os arames dos cadernos”, disse comerciante, que, aliás, conseguiu receber todas as dívidas. Os clientes endividados, sabendo do ocorrido, fizeram fila no comércio para liquidar a pendência. Detalhe: todos traziam o valor da dívida “anotado de cabeça” . “O pessoal daqui é honesto. Só esse rapaz é que assim”, diz Pedrosa, que restabeleceu a amizade com o ladrão, mas não o perdoa pela sacanagem com os cadernos. Roubo da bomba d’água Outra de “Gabiru”: como toda Taumaturgo tem problemas de escassez de água potável (não adianta cavar poço: o lençol freático do município só produz água salgada), a maioria das residências, inclusive a do prefeito, tem uma bomba para captar água direto do rio. Consta que um ex-prefeito da cidade (cujo nome convém omitir), com problemas com sua bomba, pediu que “Gabiru” roubasse a bomba de um vizinho, Antonio do Vale, também conhecido por Tôfo. Assim foi feito. O problema é que, passado algum tempo, o então prefeito acabou por comprar uma bomba nova e aposentou a velha bomba roubada. Coincidiu que a bomba sobressalente de Tôfo queimou e sua família passou a ter problemas com a falta d`água. “Guabiriu” não se fez de rogado: por conta própria, foi à casa do ex-prefeito, furtou uma das bombas e a instalou na casa de sua antiga vítima. Só que teve o cuidado de levar a bomba nova. “O seu Tôfo saiu foi ganhando, não foi?”, pergunta, orgulhoso. |
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