| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA | ||
José Cláudio Mota Porfiro * |
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E Deus fez o homem! No princípio era o Verbo e o Verbo se fez carne e habitou entre nós. O Verbo era a palavra e a partir desta todas as coisas foram criadas. E Deus, então, partiu para a elaboração do ser humano, tarefa sublime que seria a sua obra-prima, segundo as antigas escrituras. E o paraíso era de uma harmonia total. Todavia, o perrengue teve início quando Adão bolinou Eva, a mais afoita entre todas... Acabaram-se os tempos de calmaria e a zorra começou, mas, só bem depois, é que surgiu entre nós a figura enigmática do professor. E haja discórdia! E aqui nesta terra de meu Deus, todos hão de lembrar muito claramente que, um dia, Alexandre Herculano, o médico, atendeu Inês de Castro, no pronto socorro da Unimed. A moçoila, já quase advogada, sentira-se tão somente indisposta, mas aplicaram-lhe uma injeção que a matou. A classe médica se uniu, rapidamente, arranjou uma viagem para o curandeiro português e findaram até por livrá-lo do flagrante e dos processos que poderiam correr vagarosos, solertes, aqui e ali... E também havia um outro, o Ramalho Urtigão, que amputou membro de quem estava gripado ou era pobre, ou as duas coisas. Jamais foi melindrado pela lei, até que Deus o levou aí pelo século XIX. Ô povo unido! Dia desses, fiz abordagens sarcásticas a respeito de advogados que não sabem usar o dicionário ou desconhecem a utilidade dos índices onomásticos, e ainda se dizem doutores da lei. O máximo! Taxei-os de rábulas. E foi pouco. Veio a mim, então, sisudo procurador federal a exigir que baixasse o tom dos meus ditos e feitos, posto que estaria mexendo com parte bizarra de uma categoria que dá nó em pingo d’água. Que classe esperta! Depois, um programa de televisão colocou no ar Lílian Witefibe, a âncora magra. No meio da prosa, ela asseverou secamente que jamais leria Diogo Mainard pelo fato de o mesmo não ser jornalista. Todos os presentes perceberam e tentaram relevar ou compreender a gafe, mas ninguém contrariou a moça, a fim de não prejudicar ainda mais a estilhaçada imagem. Ô categoria compreensiva! Então, fui convidado a participar de uma reunião entre professores, nas dependências do Ceseme. Lá estavam alguns próceres, como Mário de Sá Carneiro, Gil Vicente, José Régio, Sá de Miranda, dentre outros. Entrei e fiquei ali pelas últimas cadeiras, como querendo explicar a mim mesmo a ojeriza por reuniões cuja finalidade é decepar pescoços muitas vezes inocentes. Na mesa central, postavam-se os quatro mais eficientes e responsáveis professores dentre todos deste rincão acreano, segundo eles mesmos. Discutiam sobre a irresponsabilidade da grande massa dos professores da rede estadual. Ative-me apenas a observar, já me sentindo um protozoário que em nada contribui com a coletividade que me deu guarida. Eis, então, que, de lá, um dos grandes mestres citou o nome deste escriba e professor acusando-me de ter abandonado, em outubro de 1994, um certo Liceu Lisboeta. Vesti, então, a camisa do ineficaz que nunca fui. Agradeci as palavras elogiosas e solenes do amigo professor que a mim se dirigia. Era muita deferência ser lembrado por pessoas de tão fino trato. Depois, acrescentei que tinha estado por cinco meses à espera de uma liberação do Governo que me permitiria cursar pós-graduação a nível de Doutorado, uma vez que o meu projeto de tese tornara-se apto na insignificante Unicamp. O secretário titular da administração, Paulo Pedrazza, havia reprovado todas as minhas pretensões posto que, segundo ele, não seriam necessárias cabeças pensantes para desenvolver um Acre como este. O tal almofadinha adoeceu gravemente e deixou em seu lugar alma benévola que atende pelo nome de Terezinha Marçal. No mesmo dia, o meu processo foi deferido e o imediato afastamento também. Consideraram que tinha família e precisava providenciar a transferência da minha galera para São Paulo. Pense numa Terezinha bacana! Em síntese, sem saber exatamente a realidade dos fatos, o caríssimo professor meteu-me uma camisa de força e já estava prestes à consumação do ato que seria tirar o banquinho que me ligava ao laço da forca. Ali mesmo, com todo o respeito ao santo, fui crucificado, morto, sepultado e voltei ao terceiro dia, tudo por obra e graça de um genial professor que não enxerga os demais enquanto parceiros da grande obra que é a transmissão do conhecimento para as novas gerações. Ô povo desunido! Jamais um potentado mestre como este Ramalho Urtigão sensibilizar-se-ia com uma mensagem de união e compreensão para com o papel desempenhado pelos reles professores que ralam nesta nau de pau-a-pique. Seria demais! Estaria plantada a semente de uma classe que não mais faria da difamação e do despeito armas tão brutais e inexoráveis contra os próprios irmãos. * Cronista |
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