OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 

Quais os nossos conceitos?

O que significa a afirmação “nós somos uma cultura do não-ser”? Não significa, com certeza, dizer que somos uma inexistência. Nem que a negatividade seria a nossa expressão mais adequada. Para que se compreenda do que se trata é necessário mudar a forma de ver. Na sua acepção mais radical, o Ser submetia toda a sua descendência a uma série de exigências quase intoleráveis e que fazia da experiência algo incompleto. Algo que oscila, na medida em que muda, que deixa de ser, na medida em que é gerado e perece, que nunca se deixa apreender na imobilidade, na medida em que essa á uma característica inexistente na sensibilidade, não pode ser dito expressão do SER. Assim na negação do Ser estava tudo que não atendia a essas exigências, ou seja, tudo que dependia do devir. Mudar era ser contraditório e, por esse motivo, ilusório, fantasmagórico e sem existência própria. O conhecimento por muito tempo, enquanto teve a pretensão de atingir objetos eternos, se sentiu seduzido por essa “morada fora do mundo” (que o Ser expressava) e pela possibilidade de se livrar da culpa e da agonia da mudança.

Mas o não-ser, que deveríamos grafar com (não)-ser, pode e deve ter uma outra significação que não seja aquela de representar apenas a ausência do Ser. Para o Ser se criou uma ciência, a ontologia, que se preocupava com idéia que expressavam os modelos ideais e imutáveis de tudo que existia imperfeitamente no mundo. Todas as manifestações culturais, científicas, morais e políticas tinham a sua essência descrita idealmente e se ligavam a elas como padrões de veracidade (científica e moral), de civilidade (cultural) e de legitimidade (política). Enquanto foi assim, ou seja, enquanto o que havia de mais profundo no pensamento europeu pensava dessa forma, nós estávamos num grande encoberto. Para a nossa especificidade não havia olhos, para que nós nos tornássemos visíveis foi necessário uma grande mudança.

A ciência só se desenvolveu quando perdeu a sua pretensão ontológica, as ciências humanas ganharam especificidade e faro para o diverso. Mas aí está o ponto. Algo ainda sobrou daquela visão antiga, pois agora, com os novos instrumentos conceituais, não se tem mais a pretensão de conhecer a essência das coisas (que era no final a pretensão da ontologia), mas continuamos a perguntar o que algo é, ou seja, o que é uma coisa não é mais modelo e sim uma descrição. Quando essa pergunta foi feita em relação a nós, tínhamos a pretensão de que uma definição ou descrição fosse possível, mas não é incrível que cheguemos a não nos reconhecer na resposta? Toda a resposta era insuficiente, toda tentativa um mascaramento e não uma descrição. Mas por que? Nós não somos nada? Não temos o direito de um modelo? Não se trata disso! O que nós somos não pode ser apreendido em definições, pois é múltiplo, mutável, sempre procurando se defender de olhos indiscretos, sempre se sentido ofendido quando alguém chega perto de uma (falsa) resposta.

Nietzsche diz, em seu livro “Para além do bem o do mal”, que todo homem profundo tem ódio ao símile e busca instintivamente a máscara. Não é, portanto, o país do carnaval o país da máscara? A nossa multiplicidade étnica, cultural, social não quis se estancar em guetos como nos EUA, mas isso teve um preço! Não queríamos nos ver como parte, mas não podíamos nos ver como homogêneo... O binômio tolerância/intolerância, por exemplo, não trata da relação entre inimigos que têm de viver em paz? Mas é isso o que ocorre aqui? Nós, os sem modelo, nos amamos, nos odiamos, nos invejamos, nos cobiçamos e desentendemos, mas não temos um uso próprio para aquele binômio. Um branco que quer ser negro, um negro que ama uma branca, uma mestiça que alisa os cabelos, um mestiço que sonha com uma negra, uma mulata, um branco que cobiça a ginga de um negro e que se apaixona por uma mulata, mas onde está em tudo isso a tolerância ou a intolerância? Más ferramentas...

Somos esse jogo entre aparência e devir-outro, entre ocultamento e parecer ser diverso. Mas a filosofia, a mais atual (Deleuze e Foucault), diz coisa semelhante e prega justamente como sentido para a ciência e para cultura justamente aquilo que nós somos de forma persistente por muitos anos. Mas o que isso significa? Temos a responsabilidade de ser a superação do velho e expressão do novo. Nós somos muita coisa na virtualidade, ou seja, muita coisa em nós que ser de outra forma, quer criar outras possibilidades. Mas para isso é necessário criar uma série de outros instrumentos conceituais novos, mais aclimatados. Precisamos dar um outro sentido para o Mais e para o Menos, para o Bem e Mal, para o Belo e o Feio, pois não basta trocar as posições e chamar Belo o Feio: isso é a simples inversão e toda inversão é sempre uma reafirmação do velho. Nós precisamos transvalorar e não inverter...

A verdade se comporta como uma mulher, diz Nietzsche, mas como podemos pensar o feminino no Brasil? Da mesma forma que na Europa? Essa era a pretensão da universalidade da ontologia. Mas como pensar, por exemplo, a rainha Nzinga (na África do séc XVII) e todas as suas implicações para o feminino e para o poder no Brasil? Não seria uma tarefa filosófica forjar novos instrumentos conceituais mais adequados ao invés de sonhar com modelos metafísicos (eternos) do que nós somos? Para isso é preciso tempo... mas esse tempo virá...

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
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Rio Branco-AC, 23 de abril de 2006
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