COTIDIANO

Membros do grupo de extermínio na cadeia

Justiça determina prisão temporária de 13 pessoas acusadas de envolvimento com o crime organizado

 


Edmilson Ferreira

O juiz Elcio Sabbo Mendes Júnior, da Vara do Tribunal do Júri, ordenou ontem a prisão temporária de 12 policiais militares e um pistoleiro acusados de envolvimento em quatro homicídios ocorridos em Rio Branco entre os anos de 1996 e 1997. Dos acusados, 10 já se encontram presos por envolvimento na organização criminosa liderada pelo ex-deputado Hildebrando Pascoal. Pela manhã, a polícia prendeu o sargento Jazon Azevedo de Farias, o cabo Luis Ayres do Nascimento e o soldado Francisco Evilásio da Costa.

A prisão foi pedida pela Coordenadoria de Controle Externo da Atividade Policial do Ministério Público e pela Delegacia de Combate ao Crime Organizado (Decco). Os casos estavam na lista dos crimes sem solução, praticados pelos grupos de extermínio que agiam nas polícias civil e militar entre 95 e 97 no Acre.

A Decco teve dificuldades para esclarecer o assassinato de Airton de Souza Flor, o “Flor”, porque o delegado Carlos Bayma, então chefe do 6º Distrito Policial, não abriu inquérito policial para apurar as causas da morte. O delegado da Decco, Emylson Farias, disse que Bayma só escapou de ser indiciado por crime de prevaricação (quando o funcionário público se omite e não cumpre com seu dever) porque o crime já está prescrito. Emylson Farias se utilizou do único documento que encontrou para elucidar a execução de Flor: o laudo cadavérico elaborado pelo Instituto Médico Legal (IML). A família de Flor, ex-presidiário suspeito de envolvimento com o tráfico de drogas, teve importante colaboração. O Ministério Público disponibilizou de todos os recursos jurídicos para chegar à autoria dos assassinatos, inclusive a Lei de Delação Premiada.

Três do esquadrão estão prestes a deixar a cadeia

O cabo Paulino e os soldados Régis “Caveirinha” e Rayne, envolvidos em vários crimes, estavam prestes a deixar a prisão mas devem permanecer por mais tempo a partir da denúncia oferecida pelo Ministério Público nos quatro inquéritos divulgados ontem.

“Agora, os processos seguem o rito da Justiça”, explicou o promotor Danilo Lovisaro, da Coordenadoria de Controle Externo da Atividade Policial do MP, que teve vários outros de seus integrantes envolvidos no esclarecimentos dos crimes.

Os casos

AIRTON DE SOUZA FLOR - Executado a facadas por volta das 2 horas do dia 7 de junho de 1996, seu corpo só foi localizado três dias depois, no quilômetro 3 da Estrada Transacreana.

Ex-presidiário, Flor teria testemunhado uma rebelião ocorrida em 1995 na Penal de Rio Branco. Os presos foram vítimas da truculência da polícia, o que acabou gerando investigação administrativa. Flor se tornou antipático para o major Mendes, que mandou espalhar a ordem de matá-lo.

Um grupo de PMs seqüestrou Flor e incumbiu ao jovem soldado Clerismar a missão de executar, a facadas, o ex-presidiário. O grupo era composto pelo sargento Jazon, major Mendes, soldado Edvan, o Manaus, e Clerismar, que recusou-se a assassinar Flor. Mendes, Jazon e os demais fizeram chacota do jovem PM, tomaram a faca e passaram a aplicar golpes na vítima. Alguns órgãos de Flor, como uma das orelhas, foram decepados.

Em oito anos, a polícia sequer instaurou inquérito para apurar o assassinato. A família chegou a procurar o 6º DP mas recebeu a declaração de que “bandido tem de morrer mesmo”. O MP e a Decco contou com depoimentos e o laudo cadavérico para apurar o caso.

RAIMUNDO NONATO MAGALHÃES DA CRUZ - Morto com cinco tiros de arma de fogo no dia 14 de outubro de 1997, era chefe do tráfico de drogas e agiota no bairro da Conquista. Segundo consta, Nonato vinha atrapalhando as atividades obscuras do cabo Paulino, já preso. Paulino convocou o pistoleiro Raimundinho e os PMs Rayne, Alderi e um taxista para eliminar o traficante.

O grupo foi até a casa de Nonato, onde encontraram apenas um amigo do agiota. Ele foi dominado e torturado até confessar que Nonato estava na casa do irmão, há poucos metros de onde morava. O grupo raptou Nonato e o levou, em um táxi, para a Estrada Irineu Serra. Para confirmar sua morte, os matadores levaram a carteira de identidade para o cabo Paulino.

CLEVISSON DA SILVA MATOS - Conhecido como “Ratinho”, cometia pequenos furtos em Rio Branco e não gozava da simpatia do cabo Ayres nem do soldado da Costa. Na noite de 1º de abril de 1996, foi localizado pelos PMs no clube Seringal, no bairro das Placas, que o chamaram a apontar uma boca-de-fumo no bairro Tancredo Neves. Para levá-lo, convenceram outro PM, o cabo Contreiras, que se divertia no clube, a dirigir o carro, uma picape de sua propriedade. A princípio, Contreiras rejeitou mas acabou sendo persuadido pelos colegas.

Ratinho percebeu quando o veículo mudou de direção e desconfiou que seria morto. Os PMs garantiram que não. Quando a picape passou sobre uma ponte, Ratinho –cujo apelido era em função de sua agilidade –tentou saltar do carro. O cabo Ayres o segurou pela roupa, disparou dois tiros na nuca da vítima e apenas soltou o corpo, que caiu no rio.

ELIOMAR PEREIRA DA SILVA - Eliomar era suspeito de ter roubado dinheiro de um vendedor de picolé, pai do PM Rayne. Eliomar morava no bairro do Taquari e era conhecido como “Cabeça”.

Na noite do crime, dormia em casa enquanto a mulher alimentava os dois filhos menores, quando chegou um grupo de PMs integrado pelo cabo Paulino, soldados Valderi, Rayne, Régis Caveirinha e pelo pistoleiro Raimundinho. Cabeça foi levado à rua e executado na frente da mulher e dos filhos.

 

 
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Rio Branco-AC, 23 de junho de 2004
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