ESPECIAL
   ENTREVISTA

Andréa Zílio

Nelson Maculan

Um defensor do ensino republicano

Marcos VicenttiA convite do reitor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Jonas Filho, o secretário e Educação Superior do Ministério da Educação (MEC), Nelson Maculan, visitou segunda-feira o centro de ensino para conversar com professores, alunos e também dirigentes de universidades privadas. O principal assunto da pauta foi a Reforma Universitária.

Nelson é dono de um vasto currículo. Ele é engenheiro de Minas e Metalurgia pela Escola de Minas de Ouro Preto, da Universidade do Brasil, mestre em Estatística-Matemática pela faculdade de Ciências da Universidade de Paris e doutor em Engenharia da Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da qual foi reitor de 1991 a 1994.

Há apenas quatro meses à frente da Secretaria de Educação Superior, Nelson Maculan defende um ensino republicano, mas reconhece que grande parte dos Estados brasileiros não está dando à população o que foi sua grande obra, que é o ensino público superior. Em entrevista ao Página 20 ele comenta a política adotada pelo governo federal.

Qual o motivo de sua vinda ao Estado?

Nós temos obrigação no Ministério da Educação de visitar as universidades federais. O reitor daqui convidou e aceitei. Conversei primeiramente com ele, que também convidou dirigentes das faculdades particulares para conversarmos sobre os trabalhos do MEC, entre outros assuntos. Este governo tem uma visão de ter uma permanência mais forte no Norte do país. E eu assumi aderindo a essa obrigação. Já estive em Rondônia e Amazonas.

E qual sua pauta no Acre?

Vim para que as pessoas me ouçam falar no projeto universitário, a atuação do governo federal na educação, mas principalmente para ouvi-las, saber o que pensam do governo. Desde que o ministro Tarso Genro assumiu, colocou como pauta principal a questão da educação superior no país. A idéia realmente é tentar um projeto que está em discussão, que funcione como uma lei maior que estabeleça uma política para a educação superior no Brasil. A discussão é muito mais complexa e estamos ouvindo as associações, as universidades e especialistas na educação. E também defendendo a universidade federal, para manter um ensino de qualidade gratuito, buscar a autonomia real para as universidades, entre outros.

Então o primeiro passo é ouvir?

É, mas por outro lado também para se fazer um projeto precisamos de mais recursos. Por enquanto a reforma universitária não tem muitas propostas. Fala-se em muitas coisas como nas cotas de universidade para todos, mas que na verdade, são projetos de lei enviados ao congresso com um prazo contado, provisório, como uma tentativa de resposta à sociedade devido a demanda forte que existe nesse sentido. O governo tem pensado que é interessante uma resposta rápida, idéias até o dia que o país for mais igual para que possamos ter apoios mais afirmativos.

Muitos lugares estão tendo um quantia considerável de faculdades particulares, enquanto a federal mantém seu nível e geralmente com uma falha por não atender o número suficiente de pessoas. O que o governo pensa em fazer tendo como prioridade o ensino superior?

Esse é um problema complicado. Hoje, no Brasil, 75% ou mais de acadêmicos estão em faculdades particulares, os demais nas universidades federais e estaduais. Mostra que o estudo não é mais republicano e isso não é de hoje. Muitos Estados perderam sua grande obra, que é o ensino público superior. E a reversão é complicada, mas é importante mostrar também que as federais e estaduais sãoas que fazem 94% das pesquisas no país, porque universidade não é só custo de giz, é atividade laboratorial, biblioteca, laboratório de pesquisa, hospital universitário.

É mais trabalho que somente a idéia de sala de aula. Eu vim para o Ministério da Educação para defender mais as federais que as privadas, sem desmerecer o trabalho que elas fazem claro, porque se não fosse isso, não haveria tantos estudantes atendidos com o nível superior, mas tenho uma visão muito republicana do ensino.

Como pretendem trabalhar a reforma com as universidades privadas e federais?

Vamos começar pela área das universidades privadas. Há vários pontos que precisam ser verificados. Qual seu papel, como vai ser o incentivo para este tipo de organização. Pretendemos discutir com as mantenedoras, reitores, ABMES, CRUB, Anup e Semesp, além de todos os órgãos e instituições interessados. Com as públicas, é muito importante o exemplo das Universidades de São Paulo. O que foi feito, a forma como foi feito. Qualquer que seja a autonomia de uma instituição, com um orçamento definido, dá para fazer uma política interna, um planejamento de pessoal, de infra-estrutura, de construção, de evolução.

Qual sua avaliação pelo que pôde conhecer da Ufac?

Estive conversando com o reitor Jonas Filho e a Ufac tem o respeito, assim como as outras universidades federais. Mudanças, todas precisam de ajustes. Mas como já disse, essa é uma discussão bem mais complexa e qualquer reformulação será muito discutida.

 

 
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Rio Branco-AC, 23 de junho de 2004
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