COTIDIANO

O caminho da integração

Raid cria expectativas de negócio por meio da Carretera Transoceânica

Juracy Xangai
População de Porto Maldonado recepciona os participantes do raid


Juracy Xangai

Depois de percorrer mais de três mil e 400 quilômetros de estradas esburacadas, trechos alagados, enfrentar a lama, desertos e a neve, chega hoje aos portos de Ilo e Matarani, no Oceano Pacífico, a comitiva de 36 camionetes pilotadas por empresários peruanos que participam do Raid Transoceânico Peru-Brasil 2005.

O raid é uma modalidade esportiva não competitiva que consiste num passeio de carro fora da estrada ou em condições de difícil acesso. O próprio presidente da República do Peru, Alejandro Toledo foi dar a bandeirada de largada das 40 camionetes que partiram de Lima no dia 11 de junho para chegar a Iñapari, na fronteira com Assis Brasil, no Acre na tarde do dia 17 com apenas 36 carros. Isso porque um quebrou em viagem e três outros capotaram por conta das dificuldades no percurso.

Jesus Lopes, proprietário da empresa Quatro Rutas e organizador geral do evento, declarou: “Preparamos este raid para mostrar que existe não apenas um mas vários caminhos que ligam o Brasil e mais particularmente o Acre aos portos peruanos situados no Oceano Pacífico. Esta comitiva é composta de empresários que amam a aventura, mas buscam solidez em seus negócios. Estão todos interessados em investir nesta região, mas que precisavam ver concretamente as possibilidades de mercado que se abrem para eles. E, particularmente, posso garantir que ficaram muito impressionados positivamente com o potencial da região”.

Ainda em Puerto Maldonado, capital do Departamento de Madre de Dios a 260 quilômetros da fronteira com o Brasil a comitiva foi recepcionada pelo governo do Estado do Acre representado na pessoa do superintendente do Sebrae do Acre, Cassiano Marques que deu as boas vindas aos visitantes “Estamos felizes com a demonstração de interesse destes empresários em investir nesta região de floresta para a qual tanto o Peru quanto o Brasil sempre viraram as costas nos últimos 500 anos e que agora se mostra como uma região estratégica para garantir o desenvolvimento econômico e social sustentável de ambos os países. Portanto, sejam todos bem vindos e estejam certos de que contarão com o apoio do governo do Estado e Sebrae para o sucesso de seus futuros empreendimentos”.

Elite econômica

Proprietários das maiores indústrias de cimento, vinícolas, empresas pesqueiras e de agronegócios de todo o Sul do Peru, a região econômicamente mais desenvolvida do país, participaram do raid. Dentre eles Arica Mizuno o presidente da Mistsubishi no Peru, empresa patrocinadora principal do evento. “A Mitsubishi está presente em toda a América Latina e a proposta de realização deste raid nos pareceu providencial para demonstrar a importância estratégica desta região por onde passará a estrada Transoceânica que irá impulsionar o desenvolvimento econômico e social do Peru e Brasil em um ritmo imprevisível pelo grande mercado de consumidores mundiais que se abrirá para ambos os países”.

Dentre os visitantes peruanos também havia vários argentinos, uruguaios, chilenos e até japoneses interessados em conhecer como também sondar a possibilidade de realizar investimentos na região.

Estrada da esperança

Recebidos com festa pela população alunos rigorosamente fardados empunhando bandeirolas branca e vermelha em cada povoado pelos quais passavam, a comitiva foi igualmente recebida de forma calorosa em Iñapari para em seguida cruzar a fronteira atravessando o rio Acre a fim de chegar a Assis Brasil e depois seguir por 112 quilômetros até Brasiléia onde pernoitaram.

Ali assistiram a um show de musica popular brasileira, capoeira e quadrilhas organizados pela prefeita Leila Galvão. Na manhã seguinte retornaram a Iñapari onde o presidente do Peru, Alejandro Toledo deu a bandeirada de retorno ao Raid cujas camionetes seguiram juntas até o alto da Cordilheira dos Andes onde se dividiram em dois grupos, um deles seguindo por Moquegua para o porto de Matarani e outro por Arequipa até Ilo.

Uma parte das camionetas que subiram por Moquegua seguiram ainda para o povoado pesqueiro de Marcona localizada à margem de uma ampla e profunda Bahia onde o governo peruano vai construir o terceiro maior porto do mundo com o objetivo de funcionar como o grande pólo exportador da América do Sul para os paises da Ásia, costa leste da África e Austrália.

Um sonho em materialização

Autoridades acreanas como o ex-governador Jorge Kalume e depois Francisco Wanderley Dantas, no início da década de 70 tentaram consolidar a ligação terrestre entre o Brasil e Peru. Também as autoridades peruanas, sobretudo de Puerto Maldonado tentavam isso desde o final da década de 50, mas em ambos os lados da fronteira dificuldades tecnológicas e financeiras da época não permitiram a concretização que agora está se materializando.

Durante sua estada em Iñapari, o presidente Toledo fez a inauguração da ponte metálica que se estende por 72 metros sobre o rio Yaverija oferecendo maior segurança aos veículos que trafegam pelo traçado ainda precário da Carretera Transoceânica. Anunciou, também para o dia 27 em Iñapari, a assinatura da ordem de serviço para o início das obras de construção da estrada que conta com recursos da ordem de 700 milhões de dólares, dos quais, 400 milhões foram financiados pelo Brasil através de seu programa de estímulo às exportações.

Também anunciou para este mês a assinatura da ordem de serviço para a realização da obra de construção da ponte metálica com 704 metros sobre o rio Madre de Dios que hoje é cruzado de balsa por carros e passageiros que chegam a Puerto Maldonado.

 

 
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Rio Branco-AC, 23 de junho de 2005
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