| OPINIÃO | ||
| UM OLHAR FILOSÓFICO | ||
Paulo Pinheiro da Silva |
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O inesperado, o repentino, o inusitado, o aparentemente caótico são manifestações de que se valem as forças ligadas à potência do fraco. Mesmo que sejam apenas fruto de uma opacidade, elas são empregadas como atalho, como vantagem pelas classes submetidas que sabem da sua distância em relação ao simples caos. A dissimulação, o improviso, um aparente desleixo, uma aparente fraqueza, são formas de potencializar o efeito de uma força em condições de inferioridade que precisa garantir o mínimo de reação, que precisa ter certeza de contar com o elemento surpresa, pois não pode empreender um ataque frontal, nem pode compartilhar da mesma concepção tradicional de ataque e defesa. Todas as sociedades aristocráticas sempre nutriram profundo desprezo por essa potência, mas isso se deve mais ao fato de que elas muitas vezes foram batidas sem saber o que estava acontecendo: da superioridade (de estratégia, de poder de fogo, de posição), que deveria ser premiada com a vitória, vinha, como que “por acaso”, a derrota. Elas achavam que era injusta essa derrota, tendo em vista a sua superioridade. Como dissemos, a potência da fraqueza é própria das classes populares, de todas as épocas e lugares, que precisam inverter condições desfavoráveis com intransparência de força, de posição ou de intenção. Mas o nosso caso é particular, pois a nossa metrópole, referência de grandeza, tinha incorporado nas suas estratégias e modus operandi toda essa potência. Dessa forma, o principal era controlar, pelo lado dos súditos e colonizados, o acesso à informação que poderia ser combustível para revoltas cuja repressão poderia representar esforço demais. Já pelo lado dos concorrentes, as potências européias, assumia uma posição de dissimulação, de ocultamento de potencialidades. Mesmo o desenvolvimento era freqüentemente retardado, para não chamar a atenção de adversários cobiçosos pela riqueza e por qualquer indício de enriquecimento que pudesse ser saqueado. O ar de desleixo que as coisas no Brasil exibem tem muito dessa estratégia da dissimulação: não deixar que pareça interessante aos olhos dos outros as coisas daqui. Na incerteza da superioridade de força militar, o melhor era dar a impressão de uma ausência de vigor econômico, de beleza artificial. As classes da base da pirâmide tinham também a sua estratégia de ocultamento. Primeiro de tudo era esconder os sentimentos e as verdadeiras intenções, fazendo da ação uma encenação. Depois aprender a se dar um ar de saber menos do que na verdade se sabe. Mas essas estratégias, como aquela da metrópole, entraram no inconsciente, tingindo as nossas formas de pensar, resolver e agir. A primeira conseqüência diz respeito a um medo de mudança. O desenvolvimento humano, material, espiritual ou cultural era encarado como algo com que se deve ter muito cuidado, pois “ninguém pode prever como as coisas se rearranjarão frente às mudanças”. O poder nas mãos da metrópole parecia depender de uma certa imobilidade econômica e principalmente humana. A referida permissividade cultural que vigorava na colônia parecia entrar nessa estratégia, ou seja, a permissão e incentivo para que cada grupo, separado por região e origem na África ou por posto e função no Brasil, pudesse ter a sua própria irmandade, com suas datas de festas, com seus santos e principalmente com seus próprios ritos, era sem dúvida uma forma de manter as classes dominadas longe de idéias e concepções que poderiam trazer desassossego para a relação senhor-escravo. Mas a principal característica tem relação direta com a burla da lei em todos os seus sentidos. Desde o quebra-galho frente a um tributo, até o auxílio indevido do poder público, passando pelo descentramento frente aos costumes religiosos, estéticos ou culturais são todas estratégias da fraqueza. O Brasil surgiu e prosperou ao largo das “leis” escritas ou pensadas, conscientes ou inconscientes. Foi sempre desrespeitando as formas como as coisas “devem ser feitas” que nós adquirimos as nossas mais características formas de agir. Na Revolução acreana, as forças de Plácito de Castro eram muito mal armadas, enquanto as tropas bolivianas tinha uma formação militar tradicional. Não era possível ganhar a guerra com um enfrentamento tradicional de infantaria, mas a tropa brasileira encarnou a mais alta manifestação nacional: contornou as leis e hábitos tradicionais no que respeita à guerra e se utilizou de táticas de guerrilha onde a força se transforma em morosidade e a fraqueza se fortalece pelo seu caráter inesperado. Na luta com os holandeses em Pernambuco, a tropa não rendia muito bem quando manejada como uma tropa européia, mas era imbatível em mobilidade, em recuos e ataques repentinos, ou seja, nas estratégias de improviso. O nosso futebol tem na sua forma a essência desse estado de coisas. O drible é um ato subversivo, pois procura surpreender, enganar e contornar uma impossibilidade física. Por isso existe no Brasil o preconceito de que a força atrapalha a mobilidade e, portanto, a preferência por jogadores pequenos e habilidosos. Mas a maior e mais maléfica conseqüência diz respeito a uma silenciosa confiança (que muitas vezes nos atrapalha) de que é sempre possível transformar o menos em mais. Essa confiança implica uma noção de tempo e de acontecimento completamente heterogêneo e nada linear. Todo o desleixo tem uma ordem não linear, todo improviso visa uma opacidade da lei e, portanto, um andamento que não se pode equacionar. A tortuosidade das esquinas e ruas de São Paulo ou do Rio de Janeiro estão refletidas na nossa alma que hesita frente ao “caminho certo”, que se esconde em imprevistas esperas, em descansos prolongados para agir em desacordo com qualquer lei...do bom senso.
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Mestre em Filosofia |
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