OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 


Janela

De minha janela olho para o silêncio. O dia vem já e a noite não faz despedidas solenes. Lembro da música e vejo um carro levando meu infinito, o carro passa, não há paralelo para um vento frio que também passa, que também leva devaneios, que também vai para longe. Esta minha janela de agora seria de um hotel no centro de um planalto, esse silêncio de sempre estava nas outras janelas, não é de agora, e eu ainda olho para ele sem surpresa, mesmo sem ceder ao costume, mas com a mesma ilusão de sempre, cheia de desculpas, porque o novo dia vem, porque vem.

De minha janela olho para a solidão das ruas. Há um enredo que espera pelo movimento das pessoas, pela pressa dos sonhos, pela busca de um lugar na sombra, pela conquista dos céus, só os céus prometem o além, isso tudo está para acordar, está para despertar de outro sonho, o relógio avisa que mais esta noite não bastou para descansar minha inquietação, eu sigo olhando para aquele mesmo silêncio. E ele, já acostumado a trapacear com o tempo, vai começando a mostrar o jogo, a nova partida, e agora há algo no céu que corta o amanhecer. E nisso, minha fumaça sai da janela para o mundo que voa.

Logo mais, daqui a pouco, vencerá mais uma diária dessa permanência vivida. Penso que estarei dormindo e esquecerei do tempo, isso me faz perder o sono, me faz encontrar o preço de ver a cotação da vida subindo, à medida que o tempo dos anos passa. A janela engana a pressa de viver, mostrando a calada solidão do silêncio, daquele silêncio, que agora, aos poucos, vai sendo trocado por raios que trazem um vai-e-vem de gente e de coisas, que trazem a lembrança de compromissos, e tudo isso engana a vontade de pensar no sono, e por isto mesmo, o puro sono vence. O sono vence, o pensamento estanca.

Dormindo, acho que continuei do lado de cá da existência, não sei onde estive, mas ao regressar ao mundo, perdido noutro dia, como o outro, ainda vejo aquele enredo. Embora o cenário esteja cheio de cores e sons diferentes, a janela ainda se mostra para fora daqui, aquele mundo que me encheu a noite ainda pede passagem para embarcar no avião que levou a madrugada insone. Viajo para a vida, acordo para sempre, vou renovar todas as diárias que precisarei para abraçar além de amanhã, olho e vou, olhando, e perdendo a hora de tudo, enquanto tudo segue, tudo anda, e eu olhando, sem ver.

* jafontes@osite.com.br

 

 
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Rio Branco-AC, 23 de julho de 2006
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