COTIDIANO

Uniflora é realidade no Juruá

Alunos, professores e pesquisadores se revoltam com declarações contrárias à instituição

Cedida
Cerca de mil pessoas
já foram beneficiadas
pela Universidade da Floresta


Flaviano Schneider


Reportagem publicada por um jornal local no último domingo, segundo a qual “a Universidade da Floresta já nasceu morta, se é que um dia nasceu”, provocou a indignação dos 997 cidadãos juruaenses já beneficiados com cursos do Centro de Formação em Tecnologias da Floresta (Ceflora), que é um dos componentes da instituição, atacada de forma leviana. As declarações também deixaram perplexos pesquisadores que participaram da elaboração e implantação da Universidade da Floresta pertencentes à instituições como a própria Universidade Federal do Acre (Ufac), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Universidade Federal de Viçosa (UFV), Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Só interesses mesquinhos poderiam produzir uma fantasia tão grosseira. A Universidade da Floresta é uma realidade. Foram três anos de lutas para que se chegasse à sua implantação, envolvendo 85 organizações do Vale do Juruá, a Ufac e várias instituições muito bem conceituadas. Para se chegar a ela, foi necessário o apoio do presidente Lula, do governo do Estado, a luta diuturna do deputado federal Henrique Afonso, apoiado pela ministra Marina Silva, pelos senadores Tião Viana e Sibá Machado e outros membros da bancada federal. E um batalhão de pesquisadores e cientistas de outras instituições e servidores federais que se prontificaram em ajudar, tendo para isso que fazer inúmeras viagens ao Acre.

A Universidade da Floresta tem três componentes: o chamado Campus Floresta, no Canela Fina, está em processo de contratação de 100 mestres e doutores e 10 cursos de graduação em implantação; o Ceflora, unidade de educação profissional da Universidade da Floresta, ligada ao Instituto Dom Moacyr e financiado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), que, pela quantidade de alunos já formados em cursos diversos, conquistou o respeito da população cruzeirense. Por fim, o novo Instituto da Biodiversidade do Acre está com o regimento aprovado, a infra-estrutura em construção e já executa o Programa de Pesquisas em Biodiversidade, envolvendo dezenas de pesquisadores e comunidades tradicionais.

A Universidade da Floresta já oferece os cursos de Ciências Biológicas, Enfermagem e Engenharia Florestal.Os cursos Farmácia, Agronomia e Terceiro Grau Indígena terão o primeiro vestibular em 2007. O curso de Direito, em Cruzeiro do Sul, acaba de ser confirmado. E ainda restam três cursos superiores para o Juruá, assegurados no plano de expansão do MEC. O novo campus no Canela Fina está recebendo R$ 7,5 milhões em investimentos para concretizar essa nova fase da história da educação superior no Vale do Juruá.

Um novo modelo de universidade

O Ceflora está realizando um grande trabalho. Em oito meses de atividade já formou 997 jovens e adultos em cursos práticos que são reconhecidos e valorizados por aqueles que mais precisam. Até janeiro, serão duas mil pessoas atendidas em cursos de inclusão digital, de gestão cooperativa, de consultoria em vendas. De acordo com o coordenador do Ceflora, Rafael Galdini, “o que chamamos de Universidade da Floresta é um experimento educacional sem precedentes que está integrando diversas instituições da Educação Superior, da Educação Profissional a experiências positivas da sociedade civil organizada em favor do desenvolvimento sustentável. O Ceflora é um grande portal de troca de experiências, de produção cooperativa do conhecimento, de diálogo entre a ciência e o conhecimento tradicional, um verdadeiro laboratório vivo de florestania que está funcionando a todo vapor”.

O Seminário Chico Mendes, realizado em julho deste ano, foi a primeira grande manifestação do diálogo entre os saberes, que contou com a participação da Ufac, da população e do Ceflora. Como próximas atividades vão acontecer o Curso Livre de Economia Ecológica e o I Encontro sobre Saúde Tradicional nas Políticas Públicas.

O Instituto da Biodiversidade, que reúne pesquisadores de instituições importantes está com o regimento aprovado e o prédio em construção. Esses pesquisadores são aqueles que já trabalham há décadas no Vale do Juruá, mas agora terão a sua base com equipamentos de última geração e um espaço para divulgar esse conhecimento produzido para o uso público. Como conseqüência direta da criação do Instituto da Biodiversidade, o Programa de Pesquisas em Biodiversidade do Ministério da Ciência e Tecnologia foi implantado no Acre.

A Ministra Marina Silva declarou recentemente: “A Universidade da Floresta tornou-se inevitável porque resultou de um longo trabalho da sociedade civil organizada. Nós temos que ter a humildade de acolher o que a sociedade produziu de melhor e implantar como políticas públicas”. Por esse motivo não somente o Ministério do Meio Ambiente (MMA), mas também o Ministério da Educação e o Ministério da Ciência e Tecnologia criaram um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) com o objetivo de promover ações estruturantes viabilizando os dois conceitos centrais da Universidade da Floresta: a ação interinstitucional e o diálogo entre os saberes.

 

 
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