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Jaminawa: Um povo que precisa de socorro

Lutas internas e matanças entre parentes causam degradação cultural que leva índias à mendicância

Marcos Vicentti
Crianças acompanham as mães no ofício de pedintes no centro da cidade


Juracy Xangai

Aproveitando a temporada natalina, quando o coração dos “brancos” fica mais “mole”, pelo menos 30 índias jaminawas estão de volta às ruas de Rio Branco para mendigar. Com isso deixam à mostra a degradação a que foi levado este povo de um passado orgulhoso e guerreiro, mas que se matam entre si há mais de 50 anos, conforme relato envergonhado de suas próprias lideranças.

Em 7 de setembro do ano passado um irmão matou o outro, na mesma data deste ano a vítima foi Adão Barbosa Jaminawa ferido com um tiro de espingarda e golpes de terçado que deixaram sua cabeça e rosto deformados pelos golpes. Convalescendo na Casa do Índio, ele mal reconhece os parentes mais próximos. Em ambos os casos, como em outras doze mortes registradas neste últimos anos, todos participavam de bebedeiras.

Penalizadas, muitas pessoas dão dinheiro às índias que, espertamente reforçam seu apelo mendicante sentando à beira das calçadas com seus filhos ou netos menores ao colo. Expondo as crianças ao sol forte e a outros riscos. O que a maioria das pessoas não sabe é que os jaminawa são donos da maior terra indígena do Estado do Acre e, segundo informações das suas lideranças, além da floresta cheia de caça e rios com muito peixe e bichos de casco, também não faltam, casas, ferramentas e boa terra para trabalhar.

“Se as pessoas querem ajudar realmente estas nossas parentes jaminawa não deveriam dar dinheiro para elas, porque elas não precisam disso”, adverte a presidente da Organização das Mulheres Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e Noroeste de Rondônia (Sitoakore), Letícia Yawanawa. Mostrando-se preocupada com a situação, esta líder das mulheres indígenas lembra que há vários anos a Funai e a Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas (Sepi) vem recambiando as índias e suas famílias para as aldeias situadas na região dos rios Iaco e Purus, em Sena Madureira e Manoel Urbano, como também para Assis Brasil no alto rio Acre. O problema é que quando chega perto do Natal eles descem novamente para as cidades.

Já o Santo Raimundo Batista Jaminawa, representante de seu povo e vice-presidente da Organização das Comunidades Indígenas do Acre (Ocaej) foi enfático ao afirmar que: “Assis Brasil não é um bom lugar para os índios porque pelo menos 12 deles já foram assassinados naquela cidade. Fizemos uma reunião com o prefeito Manoel, ele se propôs a ajudar na retirada das famílias que vivem na cidade e na criação de uma casa de passagem para quem vai receber sua aposentadoria ou em busca de tratamento médico. O problema está em saber quem vai administrar esse lugar porque os parentes se matam entre si”, lamentou.

Esmolas e mentiras

Quando a equipe do Página 20 chegou, duas jovens índias com os cabelos pintados de louro, buscando fugir das fotografias, saíram rapidamente do local dizendo que voltariam no dia seguinte. Deixaram para trás Maria da Silva Jaminawa, mãe de quatro filhos que disse viver numa aldeia do alto Purus e que tinha vindo visitar alguns parentes no bairro Tancredo Neves onde estaria hospedada. “Vim para a cidade pela primeira vez, não conhecia nada, mas gostei daqui, as pessoas dão dinheiro pra gente, também gosto de beber coca-cola. Com o dinheiro a gente compra farinha, arroz e carne pra comer com minha filha pequena; hoje não trouxe ela porque o sol ta muito forte e se adoecer quem sofre sou eu”.

Do outro lado da rua, em frente ao Colégio Acreano, no calçadão, sua amiga Maria Francisca Jaminawa, 50, mãe de quatro filhos desmente a primeira dizendo que ambas vem da aldeia localizada na boca do São Lourenço que deságua no rio Acre, acima de Assis Brasil, também informa estarem na casa de um sobrinho que mora na Sobral. “Pegamos passagem nos caminhões e viemos visitar os parentes aqui na cidade. Nesta época o pessoal dá mais coisas pra gente, mas a Funai só ajuda doente, não gosta de quem está com saúde, não dá pousada nem comida, então a gente pede porque não tem dinheiro pra comprar. Na aldeia a gente tem macaxeira, peixe, jabuti e macaco, aqui não come nada”.

Sentada à beira da calçada do IBGE no centro de Rio Branco a índia Maria Francisca Jaminawa, 50 anos, mais conhecida entre seus parentes como “Nazaré”, trazia junto de si duas crianças de aproximadamente dois e quatro anos que usava para penalizar os passantes. Enquanto isso relatava chorosa: “Vim pra cidade cuidar do meu marido Adão Barbosa que levou tiros e terçadas, mas lá na Casa do Índio eles só dão comida para quem está doente, não ajudam quem tem saúde, por isso estou na casa de um parente no São Francisco, mas lá não tem comida e nós estamos passando fome. Então é melhor pedir do que roubar, né?”

Meias verdades

Buscamos Adão Barbosa na Casa do Índio onde encontramos junto ao leito seu primo Antônio Pedro Jaminawa, 45 anos, pai de oito filhos, liderança indígena que é também segundo secretário da Associação dos Portadores de Hepatites do Acre (Aphac) dedicando-se a orientar os parentes sobre os perigos e cuidados com a doença. Ele esclareceu que: “Adão é mais uma vítima do problema da bebida que tem feito com que muitos de nossos parentes matem uns aos outros em Assis Brasil. Eu mesmo deixei a aldeia em 1994 quando atiraram no meu filho que até hoje carrega balas de chumbo no corpo. Saí porque não queria morrer nem matar ninguém. O problema é muito antigo, tem muito mais de 50 anos quando os primeiros deixaram a aldeia do São Lourenço para fundar outra no São Pedro, abaixo de Assis Brasil”.

Quanto à história contada por Nazaré de que teria vindo à cidade cuidar do marido que se recupera na Casa do Índio ele esclareceu que: “Ela já foi casada com ele com quem teve três filhos, separaram, agora ela tem outro marido. Veio para cidade pedir esmolas como fazem os outros para nossa tristeza e vergonha porque eles não precisam disso”, lamentou.

Esperança de paz

Santo Jaminawa da organização indígena Ocaej vem trabalhando o resgate da cultura tradicional jaminawa, primeiro passo para conseguir a paz que permitira reunificá-los como povo, deixando de lado os desentendimentos do passado para construir um futuro mais positivo juntos. Com isso seria possível resolver problemas degradantes como o das índias que a cada ano retornam às cidades para pedir esmolas.

Antônio Pedro e Santo concordam num ponto :“O problema é que não temos um cacique forte para controlar essa situação, por isso é necessário que alguém ou alguma instituição de fora nos ajude a resolver essa situação porque do contrário os parentes vão continuar se matando, se espalhando e perdendo nossa cultura. Nós queremos viver em paz, mas como os parentes já não se gostam nem se respeitam, não podemos resolver isso sozinhos”. Disse Santo em tom entristecido.

Ele faz parte de um grupo de 70 índios jaminawas que, há três anos, foram expulsos da Bolívia e fundaram a aldeia Três Cachoeiras que se localiza acima do São Lourenço, no Alto Rio Acre e que não tem qualquer envolvimento com a briga de seus parentes. “A gente foi expulso junto com os seringueiros que moravam do outro lado, nossa comunidade vive tranqüila, mas preocupada com toda essa situação dos parentes”.

Interessante é que, nesta semana, o próprio Santo viu sua vida pessoal envolvida no problema quando um grupo de índios jaminawas que nem conhecia, desceram do alto Caeté foram acampar em sua casa no bairro Plácido de Castro. Vieram liderados pelos índia Célia, a mais velha do grupo, que decidiu vir em busca do filho Haroldo que já não vê há mais de dois anos, depois que deixou sua comunidade. O problema é que santo não tem como alimentar o grupo, mais sete filhos seus.

Antônio lembrou que com as brigas o único pajé que viva no São Lourenço mudou-se para o Caeté, em Sena Madureira. “O pajé é quem conhece as histórias, nossos costumes, sabe curar os males do corpo e da alma, sem ele nossa gente perde muito, por isso precisamos recuperar nossa cultura tradicional para que volte a haver paz e amor entre os jaminawas”.

Povo guerreiro que se espalhava pelas florestas do Acre, os jaminawas que não foram assassinados nas correrias organizadas pelos seringalistas e seus pistoleiros, acabaram sendo escravizados no corte da borracha, mesmo assim conseguiram preservar boa parte da sua cultura. Nas últimas décadas, os conflitos internos e os assassinatos foram desagregando as aldeias e separando famílias, com isso os caciques perderam força e a maioria das aldeias não tem um pajé que cuide de sua saúde física e espiritual. Para as três aldeias do Caeté, quatro do Alto Acre e cinco do Iaco, restam apenas quatro velhos pajés que agora estão sendo valorizados nesse trabalho de resgate cultural em busca da paz.

Esforço coletivo

A presidente da organização das mulheres indígenas, Sitoakore, Letícia Yawanawa mostra-se preocupada com a situação das jaminwas mendicantes e de seu povo como um todo. “Embora nossos parentes tenham a liberdade e o direito de passearem por onde quiserem, vir para a cidade pedir esmolas como elas fazem é muito triste”. Lamenta a líder antes de complementar: “Temos trabalhado para resolver esse problema que não começou agora, mas que foi se agravando ao longo dos anos. Temos tido apoio das secretarias da Ação Social e dos Povos Indígenas, mas o resultado é muito lento porque a gente leva elas pras aldeias, depois elas voltam pra cidade”.

Na última semana, Letícia esteve reunida com as lideranças jaminawa e machineri em Assis Brasil. “Eles lamentaram os conflitos, pediram apoio para aumentar a criação de galinhas, querem aprender corte e costura e mais assistência, para melhorar a vida e gerar renda nas comunidades. O problema é que as índias que vem pedir esmolas nas cidades não participam desses encontros”.

Ela lembra que dos 16 povos indígenas remanescentes do Acre, mais dois do sul do Amazonas e noroeste de Rondônia, só alguns jaminawas vem para a cidade pedir esmolas. “As pessoas ajudariam muito mais se não dessem dinheiro a elas porque todos os nossos parentes sobrevivem muito bem trabalhando”.

 

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Rio Branco-AC, 23 de novembro de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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